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Memória - 30/09/2026 - Participação: Prof. Dr. Erick Omena

Foto do escritor: Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
4 de out.
21 min de leitura

A URBANIZAÇÃO DEPENDENTE NOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS: alicerces da dependência e suas variações subnacionais


Por Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz



Introdução


Em mais uma sessão do projeto, o professor Erick Omena trouxe para o debate a possibilidade de analisar empiricamente as variações subnacionais da dependência. As considerações apresentadas por Omena, na condição de coordenador do Grupo de Pesquisa Dependência, Urbanização e Política nas Cidades (DePoLiCi), resultam de um esforço voltado à construção de instrumentos que nos levem a observar como diferentes parcelas do território brasileiro se articulam aos circuitos internacionalizados de acumulação e como essas distintas modalidades de inserção se relacionam com as características sociais, laborais, urbanas, ambientais e políticas dos municípios.


A exposição tomou como referência o relatório A urbanização dependente nos municípios brasileiros: alicerces da dependência e suas variações subnacionais, elaborado coletivamente por Erick Omena, Sergio Paez, Bianca Cezar, Breno Serodio, Luiza Mel e Isabela Campbel. O trabalho parte da constatação de que, embora a teoria da dependência tenha produzido uma interpretação bastante fecunda das relações hierárquicas constitutivas da economia mundial e de suas expressões nacionais, ainda são relativamente pouco desenvolvidas as investigações voltadas às variações territoriais internas da dependência. Logo, podemos dizer que o problema central com o qual o referido grupo vem trabalhando consiste em compreender como uma condição estrutural, estabelecida no âmbito do sistema mundial, se realiza de maneira diferenciada no interior de uma mesma formação social. Trata-se, em suma, de enfrentar uma questão central para o desenvolvimento do projeto: como demonstrar empiricamente a territorialização da dependência no Brasil contemporâneo?


Como se verá, um dos principais méritos da pesquisa reside no esforço de transformar esse problema, de natureza eminentemente estrutural, em um objeto passível de observação e análise. Para isso, o grupo construiu uma ampla base de indicadores que abrange os 5.570 municípios brasileiros, mobilizando informações provenientes de diversas fontes e recorrendo a procedimentos estatísticos, gráficos e cartográficos. Cabe destacar, igualmente, a utilização de scripts desenvolvidos em linguagem R, que, além de organizarem e automatizarem diferentes etapas do tratamento dos dados, ampliam as possibilidades de replicação, verificação e atualização dos procedimentos empregados.


Sem dúvida, esse esforço estabelece um diálogo direto com as hipóteses do projeto. Afinal, se estamos procurando explicar de que maneira a consolidação de um “padrão de acumulação rentista-neoextrativista” e de um “padrão de reprodução do capital agromineral-financeiro-plataformizado” reestrutura a ordem urbano-regional brasileira, torna-se fundamental identificar as formas pelas quais distintas porções do território nacional são incorporadas aos circuitos econômicos globais. Dessa maneira, apesar de algumas diferenças teóricas entre nossa perspectiva e a do grupo (como seu recurso a parte do referencial dependentista de matriz weberiana), a pesquisa do DePoLiCi oferece uma contribuição relevante para avançarmos, por exemplo, no eixo analítico referente à dialética entre as forças de homogeneização e diferenciação do território.


Outro ponto de convergência que merece destaque diz respeito ao interesse comum em avançar na compreensão das relações entre a superexploração da força de trabalho e a espoliação urbana. Trata-se de duas dimensões fundamentais da urbanização dependente que, embora tenham sido objeto de importantes elaborações no pensamento crítico latino-americano, nem sempre foram analisadas de maneira articulada. Em nossa opinião, ao reunir indicadores relativos às condições de inserção laboral e às condições extrassalariais de reprodução social, a pesquisa abre possibilidades para investigar as conexões, e também eventuais dissociações, entre as formas assumidas pela exploração do trabalho e as condições concretas de vida nos diferentes territórios.


Como veremos, esses e outros aspectos foram objeto de debate ao longo da sessão, que contribuiu não apenas para aprofundar o diálogo entre as duas pesquisas, mas também para explicitar alguns dos desafios teóricos e metodológicos envolvidos na investigação da territorialização das relações de dependência.


Exposição do autor: dos alicerces da dependência às suas variações subnacionais

Após apresentar brevemente a trajetória da pesquisa e reconhecer seu caráter coletivo, o autor iniciou sua exposição recuperando o problema teórico que orientou a investigação. Seu ponto de partida foi uma lacuna identificada na tradição dos estudos da dependência: apesar da preocupação de diferentes autores com a existência de modalidades distintas de inserção dependente, as diferenciações foram investigadas sobretudo na escala nacional.


Como lembrado por Omena, trabalhos clássicos de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, assim como a tipologia proposta por Vânia Bambirra, já haviam demonstrado que a dependência não assume uma forma única. Isso porque diferentes estruturas produtivas, processos históricos e modalidades de articulação com o capitalismo internacional produzem configurações específicas de dependência. Entretanto, para o grupo, permanece em aberto a questão de saber em que medida essas diferenciações também podem ser investigadas no interior dos territórios nacionais.


A pesquisa do DePoLiCi procura enfrentar exatamente esse problema. Para isso, formulou duas questões centrais, tomadas como pontos de partida na apresentação: como se dá a inserção das diferentes parcelas do território brasileiro nos circuitos internacionalizados de acumulação que constituem os alicerces da dependência? E como essas diferentes formas de inserção se relacionam com as condições sociais, urbanas, ambientais e políticas observadas na escala local?


Cumpre mencionar que a dependência não é concebida, nessa perspectiva, como uma característica que possa ser diretamente atribuída a cada município, como se existissem, no limite, municípios “dependentes” ou “não dependentes”. Trata-se, antes, de uma relação estrutural, que caracteriza a inserção da totalidade da formação social brasileira no capitalismo mundial, mas que se territorializa, no interior dela, de maneira diferenciada. Dessa maneira, a escala municipal é mobilizada como unidade de observação das formas concretas pelas quais diferentes parcelas do território se articulam aos mecanismos de reprodução dessa condição estrutural.


A construção de uma base municipal sobre a urbanização dependente


Após essas observações introdutórias sobre o potencial e as lacunas da teoria da dependência, Omena reconstruiu o conjunto de procedimentos que o grupo levou em consideração para construir uma base que abrange os 5.570 municípios brasileiros, tomando 2022 como ano de referência e reunindo um amplo conjunto de variáveis provenientes de diferentes fontes públicas.

Grosso modo, a estratégia metodológica do grupo foi organizada em torno de duas grandes dimensões. A primeira procurou identificar os circuitos de integração dependente, isto é, as formas pelas quais os municípios se conectam aos mecanismos que sustentam a inserção subordinada da economia brasileira. A segunda, por sua vez, reuniu diferentes expressões sociais, urbanas, ambientais e políticas do “desenvolvimento do subdesenvolvimento”, nos termos de Gunder Frank (1966), de maneira a investigar possíveis associações entre as modalidades de integração dependente e as características dos territórios.


Para expressar empiricamente os diferentes modos de inserção dos municípios brasileiros nos circuitos internacionalizados de acumulação, o grupo definiu seis modalidades de integração, procurando contemplar mecanismos relacionados ao comércio exterior, às finanças, à propriedade imobiliária, à dependência tecnológica e à transferência de excedentes para o exterior. Cada uma dessas modalidades foi operacionalizada por meio de indicadores específicos, construídos de modo a permitir sua comparação entre os municípios brasileiros. Como sintetizado na Tabela 1, trata-se de dimensões distintas, mas potencialmente combinadas, cuja articulação caracteriza as formas diferenciadas assumidas pela integração dependente no território nacional.


Tabela 1 – Brasil: circuitos de integração dependente e respectivos indicadores

Circuito de integração

Descrição

Indicador utilizado

Integração exportadora

Expressa o grau de inserção do município nos circuitos internacionais por meio da comercialização de bens no exterior.

Valor das exportações em relação ao PIB municipal.

Integração importadora

Expressa o grau de vinculação do município aos fluxos internacionais de mercadorias por meio das importações.

Valor das importações em relação ao PIB municipal.

Integração creditícia

Procura captar a presença e a importância do crédito bancário na economia municipal, como expressão da inserção nos circuitos financeiros.

Volume de crédito bancário em relação ao PIB municipal.

Integração financeiro-imobiliária

Procura captar a penetração das finanças na propriedade e gestão de ativos imobiliários localizados nos municípios.

Densidade de ativos pertencentes a Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs), considerando sua relação com o número de domicílios.

Integração tecnológica

Busca apreender a dependência associada à aquisição e transferência internacional de direitos de propriedade intelectual e outros ativos tecnológicos.

Operações relacionadas à propriedade intelectual com o exterior, ponderadas pela população municipal.

Integração a setores remetentes de lucros e dividendos

Procura identificar a inserção dos municípios em atividades econômicas particularmente associadas à remessa de excedentes ao exterior. A medida não corresponde diretamente às remessas realizadas em cada município, mas à presença local de atividades que, nacionalmente, apresentam elevada participação nesses fluxos.

Participação da população ocupada do município em setores econômicos caracterizados por elevada participação nas remessas brasileiras de lucros e dividendos ao exterior.

Fonte: Elaborado pelos autores com base em Omena et al. (2026).


É importante destacar, ainda, que essas modalidades não devem ser interpretadas isoladamente ou como simples componentes de uma escala linear que distinguiria municípios “mais” ou “menos” dependentes. A proposta do grupo consiste, na verdade, em observar como os diferentes circuitos se combinam em cada município, produzindo configurações particulares de integração.


Como dito, a segunda dimensão da metodologia relaciona as formas de inserção dos municípios nos circuitos internacionalizados a um conjunto de características laborais, sociais, urbanas, políticas e ambientais. Para isso, foram selecionados indicadores que representam diferentes manifestações do já mencionado desenvolvimento do subdesenvolvimento, abrangendo desde as condições de exploração e inserção ocupacional até aspectos relacionados à moradia, mobilidade, saneamento, violência, desigualdades de gênero e raciais, representação política e pressões ambientais. A Tabela 2 oferece uma síntese desses indicadores.


Tabela 2 – Indicadores do desenvolvimento do subdesenvolvimento

Indicador

Descrição

Superexploração

Percentual de pessoas ocupadas com rendimento inferior ao salário necessário estimado para o município.

Precarização do trabalho

Percentual de pessoas ocupadas de maneira informal ou por conta própria no município.

Autoconstrução como solução habitacional

Percentual de pessoas vivendo em favelas no município.

Tempo de deslocamento casa-trabalho

Percentual da população levando mais de 30 minutos no deslocamento casa-trabalho.

Custo da moradia

Preço médio dos imóveis por m² (venda e aluguel).

Acesso a saneamento básico

Percentual da população atendida pela rede de esgotamento sanitário.

Taxa de homicídios

Número de homicídios por 100 mil habitantes no município.

População não branca

Percentual de população não branca (pretos + pardos + indígenas).

Desigualdade sexual de salário

Salário de mulheres / salário de homens.

Presença de mulheres nos parlamentos

Percentual de vereadoras nas câmaras municipais.

Desflorestamento

Percentual do município desflorestado.

Poluição

Emissões de CO₂e per capita.

Fonte: Utilizado por Omena na apresentação.


O Índice de Integração Dependente (IID)


Conforme o relato de Omena, uma vez definidos os seis circuitos de integração dependente, um dos desafios metodológicos enfrentados pelo grupo foi tornar comparáveis indicadores construídos a partir de grandezas tão distintas. Como visto, enquanto as integrações exportadora, importadora e creditícia, por exemplo, são mensuradas por sua relação com o PIB municipal, a integração financeiro-imobiliária considera a presença de ativos de FIIs por 100 mil domicílios, a integração tecnológica utiliza os processos de pagamento de propriedade intelectual ao exterior por 100 mil habitantes e a presença dos setores remetentes é aferida por sua participação na população municipal. A combinação direta dessas variáveis em um único índice faria, portanto, com que diferenças de escala e unidade de medida atribuíssem pesos desiguais aos diferentes circuitos.


Para contornar esse problema, cada uma das seis variáveis foi inicialmente convertida em um score correspondente à posição relativa ocupada pelo município na distribuição nacional daquele indicador. O procedimento adotado foi o ranqueamento percentílico: os municípios foram ordenados de acordo com os valores observados em cada circuito e receberam scores aproximadamente compreendidos entre 0 e 1, sendo os valores mais elevados correspondentes às posições superiores da distribuição. Trata-se, assim, de uma medida de posição relativa, e não da magnitude substantiva do fenômeno. Um score de 0,90 na integração exportadora, por exemplo, não significa que 90% da economia municipal esteja vinculada às exportações, mas que o município ocupa uma posição próxima ao topo da distribuição nacional do indicador exportações/PIB.


Foram produzidos, dessa maneira, seis scores, correspondentes às integrações exportadora, importadora, creditícia, financeiro-imobiliária, tecnológica e aos setores remetentes de lucros e dividendos. A partir deles, o grupo construiu o Índice de Integração Dependente (IID), calculado pela média aritmética simples dos seis scores.


Integração dependente e desenvolvimento do subdesenvolvimento: principais resultados


Uma vez construídas as medidas destinadas a expressar o grau e as modalidades de integração, a pesquisa procurou colocá-las em relação com os indicadores anteriormente apresentados do desenvolvimento do subdesenvolvimento. O principal exercício nesse sentido foi realizado por meio da construção de uma tipologia dos municípios brasileiros, obtida mediante análise de clusters. Como ressaltado pelo coordenador do grupo, os oito tipos resultantes desse procedimento não correspondem simplesmente a diferentes faixas do Índice de Integração Dependente, mas expressam configurações multidimensionais que combinam distintos graus e modalidades de integração com características econômicas, laborais, sociais e urbanas dos municípios. A Tabela 3 apresenta uma síntese dessa tipologia, relacionando o número de municípios e o IID médio de cada tipo aos indicadores de precarização do trabalho, superexploração aguda e acesso ao saneamento.


Tabela 3 – Brasil: tipos de municípios segundo integração dependente, precarização do trabalho, superexploração aguda e saneamento

Tipo

Municípios

IID médio

Precarização média

Superexploração aguda média

Saneamento médio

1. Muito alta: financeiro-imobiliária/tecnológica

31

0,905

36,9%

7,7%

76,3%

2. Alta: industrial-tecnológica

90

0,861

36,8%

8,2%

74,4%

3. Alta-intermediária: produtivo-logística/financeirizada

302

0,762

41,3%

11,1%

60,7%

4. Intermediária-alta: crédito/comércio exterior/remessas

42

0,788

37,0%

7,5%

51,6%

5. Intermediária: agroextrativa/exportadora

210

0,632

42,6%

11,2%

45,1%

6. Intermediária-baixa: comercial-creditícia difusa

1.217

0,601

46,8%

12,7%

46,2%

7. Baixa: periférica/pouco diversificada

1.442

0,434

49,8%

12,8%

35,1%

8. Muito baixa:  administrativo-dependente

2.236

0,414

66,7%

30,2%

19,8%

Fonte: Omena et al. (2026).


Como se observa na Tabela 3, um primeiro resultado que chama a atenção é a existência de uma associação geral entre os graus de integração e alguns dos indicadores selecionados do desenvolvimento do subdesenvolvimento. Os tipos caracterizados por níveis mais elevados de integração apresentam, em média, menores percentuais de precarização do trabalho e de superexploração aguda, além de níveis mais elevados de atendimento por saneamento. Esse resultado foi destacado ao longo da apresentação e no relatório, por configurar, nos termos do documento, um “aparente paradoxo”. Isso porque, segundo a concepção do grupo, ao contrário do que se poderia esperar de uma associação mais imediata entre dependência e precariedade social, os municípios mais intensamente integrados aos circuitos internacionalizados de acumulação apresentam, em média, melhores resultados nos indicadores selecionados. Voltaremos a examinar esse “paradoxo” ao final deste exercício de memória, na forma de observações adicionais.


Isso não significa, entretanto, que maior integração produza necessariamente melhores condições de vida e mesmo de trabalho. Um dos aspectos mais relevantes dos resultados apresentados por Omena demonstra que as associações variam de acordo com a modalidade pela qual os municípios se inserem nos circuitos internacionalizados. Essa diferenciação aparece com particular clareza quando se considera a composição das exportações. Enquanto a integração produtivo-manufatureira se associa, em geral, a menores níveis de precarização e superexploração, a especialização mineral apresenta comportamento distinto. Assim, quando são controladas variáveis como intensidade exportadora, população, PIB per capita, composição étnico-racial e saneamento, uma maior participação dos produtos minerais na pauta exportadora aparece associada a níveis mais elevados de precarização e superexploração aguda.


Diante desses resultados relativos ao setor exportador de minérios, Omena defendeu a possibilidade de mobilizar a ideia de “cisão dos ciclos do capital”, desenvolvida por Marini (2012), para interpretar determinadas configurações territoriais vinculadas à especialização mineral. Em sua opinião, nesses casos, a elevada geração de riqueza e a forte articulação com os mercados externos podem coexistir com condições relativamente desfavoráveis de reprodução social no próprio território em que as atividades estão instaladas. Omena aproximou, ainda, essa configuração da lógica das “economias de enclave”, ou seja, a dinâmica produtiva encontra-se fortemente orientada para circuitos externos, sem que a riqueza gerada se converta, na mesma proporção, em melhorias das condições locais de trabalho e de vida.


Outro resultado importante, conforme o relatório, aparece quando se considera a inserção em setores econômicos caracterizados nacionalmente pela elevada participação nas remessas de lucros e dividendos ao exterior. A presença mais intensa dessas atividades é associada a mercados de trabalho relativamente menos precarizados e menos marcados pelo indicador de superexploração. Entretanto, esse resultado também não encontra correspondência necessária no plano da infraestrutura urbana. No caso do saneamento, por exemplo, embora os scores gerais de integração tendam a apresentar associação positiva com a cobertura, a maior intensidade da presença dos setores remetentes apresenta uma associação condicional negativa. O resultado sugere, portanto, que maior formalização das relações de trabalho e maior integração produtiva podem coexistir com déficits de infraestrutura coletiva, não havendo uma conversão automática das condições econômicas mais favoráveis em melhorias das condições urbanas de reprodução social.


Tomados em conjunto, esses e outros resultados, que não necessariamente foram mobilizados durante a sessão, mas estão presentes no relatório, levaram o coordenador do grupo a finalizar sua apresentação caracterizando as configurações encontradas como desiguais e combinadas em diferentes sentidos. Elas são territorialmente desiguais, porque a integração multidimensional mais intensa se concentra em um número relativamente reduzido de municípios. Funcionalmente desiguais, porque diferentes modalidades de integração apresentam associações distintas com as condições sociais e territoriais. Distributivamente desiguais, porque menores níveis de precarização e superexploração podem coexistir com desigualdades salariais de gênero e não se converter automaticamente em melhores condições de infraestrutura e reprodução social. E racialmente estruturadas, porque as diferentes modalidades de integração se territorializam sobre uma formação socioespacial historicamente marcada por profundas desigualdades étnico-raciais.


Nesse sentido, uma das principais conclusões preliminares apresentadas por Omena é que não seria adequado interpretar a maior integração aos circuitos internacionalizados como simplesmente favorável ou desfavorável aos municípios. Os resultados apontam, antes, para aquilo que o grupo denomina “modernização seletiva”: determinadas formas de integração podem estar associadas à formalização das relações de trabalho e à redução de formas de precarização e superexploração, sem que isso implique a superação das desigualdades distributivas ou das condições de espoliação urbana.


Questões e interlocuções com o grupo

Após a exposição, na condição de animadores do projeto, procuramos explorar algumas questões teóricas e metodológicas suscitadas pelos resultados apresentados. Um primeiro conjunto de questões concentrou-se na operacionalização empírica da superexploração da força de trabalho. Embora reconhecendo a importância do esforço de construção de indicadores comparáveis para o conjunto dos municípios brasileiros, sublinhamos os limites de uma medida baseada fundamentalmente nos níveis de rendimento. A superexploração, tal como formulada pela teoria marxista da dependência, não se restringe à remuneração da força de trabalho abaixo de seu valor, envolvendo também mecanismos relacionados à intensidade e à extensão da jornada de trabalho. Por conseguinte, levantamos a possibilidade de que atividades relativamente mais bem remuneradas possam coexistir com formas intensas de exploração do trabalho, aspecto que não seria necessariamente captado pelo indicador utilizado.


Um segundo conjunto de questões incidiu sobre a financeirização. Para nós, o indicador sobre a presença de ativos pertencentes a Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) pode ser mobilizado para observar a expansão de formas financeirizadas de propriedade para além das principais capitais e metrópoles do país, sobretudo em cidades médias e territórios articulados às fronteiras de expansão das atividades primário-exportadoras. Ao mesmo tempo, questionamos em que medida o indicador baseado na relação entre crédito e PIB municipal poderia ser interpretado diretamente como expressão da financeirização.


Uma terceira questão que nós formulamos foi eminentemente metodológica e referiu-se à escala municipal adotada pela pesquisa. Aludimos, em particular, aos possíveis efeitos do domicílio fiscal das empresas sobre os indicadores de comércio exterior, uma limitação que está explícita no relatório e foi destacada na apresentação. Como os registros podem estar associados ao município de localização da empresa ou de seu CNPJ, e não necessariamente ao território no qual se realiza materialmente a produção, determinados fluxos de exportação e importação podem produzir distorções quando territorializados diretamente na escala municipal. Sendo assim, sugerimos a possibilidade de cruzar esses indicadores com informações sobre a estrutura produtiva e ocupacional dos municípios, assim como a possibilidade de experimentar recortes supramunicipais (como microrregiões) capazes de expressar relações econômicas e territoriais que ultrapassam os limites político-administrativos locais.


Essa discussão sobre a escala foi retomada e aprofundada nas intervenções dos demais pesquisadores. Uma das questões levantadas dizia respeito ao risco de um “municipalismo metodológico”, isto é, de tomar o município como uma unidade relativamente autocontida quando os próprios processos estudados se constituem por meio de relações que atravessam seus limites. A esse respeito, foi lembrada a possibilidade de que municípios mais intensamente integrados concentrem determinadas funções econômicas e melhores condições relativas de emprego e renda justamente porque se articulam a outros territórios que ocupam posições subordinadas nos mesmos circuitos de acumulação. Essa observação recuperou, inclusive, o problema clássico formulado por André Gunder Frank (1966) acerca das relações entre desenvolvimento e subdesenvolvimento, sugerindo que ambos podem ser produzidos de maneira articulada em diferentes pontos de um mesmo sistema territorial.


Também foram propostas alternativas para aprofundar empiricamente essa dimensão relacional. Entre elas, destacou-se, mais uma vez, a possibilidade de trabalhar com microrregiões e/ou outros recortes supramunicipais, assim como de incorporar informações mais detalhadas sobre a estrutura econômico-produtiva municipal. Foi mencionada, no que tange a esse aspecto, a experiência acumulada pelo Observatório das Metrópoles na construção de tipologias baseadas em dados da RAIS e do CAGED, capazes de distinguir atividades segundo características produtivas e intensidade tecnológica.


Outro conjunto de intervenções ressaltou a necessidade de incorporar mais diretamente as mediações políticas e institucionais entre integração econômica e condições urbanas. Nesse horizonte, foi levantada a questão das coalizões políticas locais e dos regimes urbanos, considerando que os efeitos territoriais dos circuitos de acumulação não decorrem automaticamente da presença de determinadas atividades econômicas, mas são mediados pelas formas de organização do poder, pelas capacidades estatais e pelas estratégias dos agentes que comandam a produção e a apropriação do espaço. Os resultados referentes ao saneamento foram particularmente mobilizados nessa discussão, permitindo indagar em que medida a coexistência entre dinamismo econômico e déficits persistentes de infraestrutura poderia ser interpretada como expressão de uma “dívida social territorialmente acumulada” e de processos seletivos de modernização.


Por fim, houve convergência em torno da conveniência de complementar a análise quantitativa com estudos de caso. A própria tipologia construída pela pesquisa oferece critérios para selecionar municípios representativos das diferentes configurações identificadas, permitindo investigar qualitativamente os mecanismos que produzem as associações encontradas.


Respostas do autor: limites e potencialidades da base construída


Em resposta às questões levantadas, Omena reconheceu, inicialmente, os limites da operacionalização da superexploração da força de trabalho adotada na pesquisa. Para ele, de fato, o indicador utilizado representa, fundamentalmente, uma de suas possíveis manifestações, relacionada ao nível de rendimento dos trabalhadores, não incorporando diretamente outras dimensões destacadas pela teoria marxista da dependência, como a extensão da jornada e a intensificação do trabalho. Nesse sentido, o autor concordou que se trata de uma aproximação empírica parcial, construída sobretudo em função da necessidade de dispor de informações comparáveis para o universo dos municípios brasileiros.


No que se refere à financeirização, Omena destacou que essa é uma frente de investigação ainda em desenvolvimento no âmbito do DePoLiCi. Segundo o coordenador do grupo, o indicador relativo à presença de ativos de Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) vem permitindo problematizar a expansão da financeirização para “lugares não tão óbvios assim”, isto é, para além dos grandes espaços urbanos e metropolitanos tradicionalmente privilegiados pelos estudos sobre o tema. A título de ilustração, Omena mencionou a pesquisa conduzida por Bianca Cezar sobre Campo Grande (RS), que vem permitindo aprofundar a compreensão das articulações entre financeirização, mercado imobiliário e expansão do agronegócio. Essa agenda abre, assim, a oportunidade de investigar a expansão das fronteiras da financeirização urbana, especialmente em cidades médias e em territórios fortemente articulados às atividades primário-exportadoras.


Quanto à escala de análise, Omena considerou pertinente a sugestão de explorar recortes supramunicipais. Ressaltou que a forma como a base de dados e os procedimentos de tratamento foram construídos permite, em princípio, reproduzir parte dos exercícios em outras escalas territoriais, mediante agregações. Em sua perspectiva, no que concerne a esse aspecto, a disponibilização dos scripts utilizados é uma dimensão importante do trabalho, uma vez que possibilita refazer os procedimentos adotados em outras escalas. A discussão apontou, portanto, para a possibilidade de complementar a leitura municipal com recortes capazes de apreender relações que extrapolam os limites administrativos dos municípios.

Omena também se mostrou receptivo à proposta de incorporar informações mais detalhadas sobre a estrutura econômico-produtiva dos territórios. A possibilidade de articular os indicadores de integração dependente com bases e tipologias construídas a partir da estrutura do emprego e das atividades econômicas foi considerada um caminho promissor para qualificar a interpretação dos resultados.


Em relação aos próximos passos, o autor destacou a intenção do grupo de avançar na realização de estudos de caso. Uma possibilidade mencionada consiste em escolher casos situados próximos aos centroides dos diferentes agrupamentos, isto é, municípios que apresentem características particularmente representativas de cada tipo. A análise qualitativa desses casos permitiria aprofundar a compreensão dos mecanismos subjacentes às associações identificadas estatisticamente e examinar mais detidamente as especificidades das distintas modalidades territoriais de integração dependente.


Por fim, Omena defendeu o caráter aberto e cumulativo da pesquisa. Segundo seu relato, a intenção do grupo é disponibilizar publicamente a base de dados e os scripts utilizados em sua construção e análise, favorecendo tanto a replicação dos resultados quanto sua atualização e exploração por outros pesquisadores. O trabalho deverá ainda ser apresentado e debatido em outros espaços acadêmicos, entre eles a Semana IPPUR 2026 e o ENANPUR 2027. Esses desdobramentos foram apresentados como parte de um processo permanente de aperfeiçoamento teórico e metodológico da pesquisa.


Observações adicionais

Ao final da sessão, o professor Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro retomou algumas das questões suscitadas pelo debate para enfatizar as possibilidades de articulação entre a pesquisa desenvolvida pelo DePoLiCi e um conjunto de experiências metodológicas acumuladas pelo Observatório das Metrópoles.


Um primeiro aspecto destacado diz respeito à escala de análise. Embora o município constitua uma unidade importante para a investigação proposta, foram reiterados os argumentos sobre os limites de tomar seus contornos político-administrativos como referência exclusiva para a apreensão de processos que, por sua própria natureza, ultrapassam essa escala. Foi novamente sugerida a possibilidade de experimentar a escala das microrregiões, sem que isso implique abandonar a análise municipal, mas buscando complementá-la com outros recortes espaciais.


Além disso, foi proposto que a tipologia construída pelo grupo fosse colocada em diálogo com outros experimentos de classificação territorial desenvolvidos pelo Observatório das Metrópoles. Destacam-se, nesse sentido, três dimensões que vêm sendo trabalhadas de maneira relativamente autônoma: a estrutura sócio-ocupacional, desenvolvida sobretudo a partir dos dados censitários; a estrutura econômico-produtiva, construída com base em informações sobre atividades econômicas e emprego; e as condições urbanas de vida, objeto das experiências relacionadas ao Índice de Bem-Estar Urbano (IBEU). Para Ribeiro, a articulação desses diferentes planos com a tipologia da integração dependente poderia contribuir para compreender de maneira mais sistemática as relações entre as formas de inserção nos circuitos de acumulação, as estruturas produtiva e socioespacial e as condições urbanas de reprodução da população. Ao mesmo tempo, assinalou o risco de produzir modelos excessivamente saturados quando variáveis referentes a essas diferentes dimensões são incorporadas simultaneamente a uma mesma operação classificatória, sugerindo a pertinência de construí-las separadamente para, em seguida, investigar as relações entre elas.


Por fim, gostaríamos de registrar alguns comentários adicionais, que não foram levantados durante a sessão, sobre a associação encontrada entre maior integração aos circuitos internacionalizados de acumulação e menores níveis médios de precarização do trabalho e de superexploração aguda. Como vimos, esse resultado foi apresentado como um “aparente paradoxo”, na medida em que entraria em contradição com uma relação imediata entre dependência e deterioração das condições de trabalho e de vida. Em nossa opinião, porém, esse resultado pode ser interpretado justamente à luz das formulações clássicas da teoria marxista da dependência, particularmente das contribuições de Ruy Mauro Marini.


Com efeito, em Marini, a integração dependente não pressupõe que a superexploração da força de trabalho se manifeste de maneira homogênea no interior da economia nacional, tampouco que seja necessariamente mais intensa justamente nos setores mais modernos e diretamente articulados ao capital internacional. Na verdade, a reprodução do capitalismo dependente pode combinar atividades de maior produtividade, formalização e remuneração com amplos segmentos produtivos e parcelas da força de trabalho submetidos a condições muito mais precárias. Desse ponto de vista, a superexploração deve ser compreendida como um mecanismo estrutural da reprodução da economia dependente, sem que isso implique sua distribuição uniforme entre setores, atividades e segmentos da força de trabalho.


Sendo assim, é possível levantar a hipótese de que os municípios mais intensamente integrados aos circuitos internacionalizados concentrem justamente parte das atividades mais produtivas, formalizadas e relativamente mais bem remuneradas, enquanto outros municípios, articulados de maneira complementar a esses mesmos circuitos, concentrem parcelas mais expressivas das atividades e da força de trabalho submetidas a condições precárias. Nesse caso, a diferenciação interna característica da acumulação dependente adquiriria também uma expressão territorial.


Sob essa perspectiva, a menor incidência média dos indicadores de precarização e superexploração nos municípios mais integrados não significaria necessariamente uma atenuação dessas características no âmbito mais amplo da economia dependente. Poderia expressar, ao menos em parte, sua distribuição territorial desigual, isto é, uma divisão espacial das atividades econômicas e das condições de reprodução da força de trabalho pela qual municípios que ocupam posições distintas nos mesmos circuitos de acumulação apresentam condições também distintas de emprego, remuneração e reprodução social. Em resumo, o que aparece como um paradoxo quando os municípios são considerados isoladamente pode adquirir outro significado quando eles são analisados relacionalmente.


Sínteses complementares entre a pesquisa do grupo, as hipóteses e os eixos analíticos do projeto


Para concluir, apresentamos uma síntese das principais contribuições da pesquisa desenvolvida por Erick Omena e pelo DePoLiCi à luz dos eixos analíticos que estruturam nosso projeto. O objetivo, como tem sido o caso em outras oportunidades e sessões, é destacar os pontos de maior interlocução entre as duas agendas de investigação, assim como questões e possibilidades de aprofundamento que emergiram ao longo da exposição e do debate.


Quadro 1 – Sínteses e desdobramentos possíveis entre a pesquisa do grupo e os eixos analíticos do projeto.

Eixos analíticos

Sínteses e/ou desdobramentos possíveis

Urbanização planetária e/ou extensiva

A pesquisa oferece uma base empírica para investigar como diferentes parcelas do território brasileiro são incorporadas aos circuitos internacionalizados de acumulação. Embora o estudo não tome diretamente a urbanização extensiva como objeto, a territorialização das distintas modalidades de integração permite identificar a difusão desses circuitos.

Homogeneização e diferenciação do território

Esse é um dos eixos de interlocução mais direta com a pesquisa. Os resultados demonstram que a integração dependente não se distribui uniformemente pelo território nacional, mas assume intensidades e modalidades distintas. A tipologia construída pelo grupo permite observar empiricamente essa diferenciação.

Urbanização subdesenvolvida

A articulação entre os indicadores de integração dependente e aqueles reunidos sob a dimensão do “desenvolvimento do subdesenvolvimento” oferece elementos particularmente importantes para atualizar esse eixo. Os resultados mostram que a inserção nos circuitos internacionalizados de acumulação não elimina as desigualdades e contradições características da urbanização dependente. 

Fragmentação do território

A diferenciação das modalidades e intensidades de integração oferece elementos para pensar a fragmentação como expressão de uma incorporação desigual e seletiva do território aos circuitos contemporâneos de acumulação. A pesquisa identifica municípios intensamente conectados a determinados circuitos internacionalizados ao lado de uma ampla parcela do território caracterizada por níveis reduzidos de integração.

Desconcentração/

reconcentração urbana

A pesquisa oferece instrumentos promissores para investigar a difusão territorial de atividades econômicas e circuitos de valorização para além das grandes metrópoles. A identificação de modalidades de integração financeira, imobiliária, tecnológica, exportadora e creditícia em diferentes parcelas do território pode contribuir para compreender movimentos de desconcentração territorial da acumulação. Ao mesmo tempo, a discussão realizada durante a sessão reforçou a necessidade de avançar para análises relacionais e escalas supramunicipais, capazes de investigar como essa dispersão se articula às hierarquias da rede urbana e à localização dos centros de comando e decisão.

Conexão entre a precariedade do trabalho e a precariedade da vida urbana

A pesquisa oferece uma contribuição muito importante para este eixo ao reunir, em uma mesma perspectiva analítica, indicadores referentes às condições de trabalho e às condições extrassalariais de reprodução social. Os resultados permitem investigar em que medida precarização do trabalho e precariedade da vida urbana se reforçam mutuamente ou, ao contrário, apresentam comportamentos distintos conforme as modalidades de integração dependente.

Promoção estatal do novo padrão de reprodução do capital

Embora a dimensão estatal não constitua o foco principal da pesquisa apresentada, seus resultados abrem questões importantes sobre as mediações políticas e institucionais da integração dependente. A coexistência entre diferentes modalidades de inserção nos circuitos de acumulação e condições também diferenciadas de reprodução social coloca em questão o papel do Estado na provisão de infraestruturas e serviços urbanos, na regulação das atividades econômicas e na produção das condições territoriais da acumulação. Como ressaltado no debate, a incorporação das coalizões políticas locais e dos regimes urbanos poderá contribuir para compreender as mediações entre integração econômica e seus diferentes resultados territoriais.

Fonte: elaboração dos autores.


Referências

GUNDER FRANK, A. The development of underdevelopment. Monthly Review, New York, v. 18, n. 4, p. 17-31, 1966.


MARINI, R. M. O ciclo do capital na economia dependente. In: FERREIRA, C.; OSORIO, J.; LUCE, M. (org.). Padrão de reprodução do capital: contribuições da teoria marxista da dependência. São Paulo: Boitempo, 2012. p. 21-35.


OMENA, E. S.; PAEZ, S.; CEZAR, B.; SERODIO, B.; MEL, L.; CAMPBEL, I. A urbanização dependente nos municípios brasileiros: alicerces da dependência e suas variações subnacionais. Rio de Janeiro: DePoLiCi; IPPUR/UFRJ, 2026. Relatório de pesquisa.





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Elaboração: El Homo Urbanus.

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