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Memória - 15/04/2026 - Participação: Prof. Dr. Roberto Luís de Melo Monte-Mór

  • Foto do escritor: Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
    Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
  • há 5 dias
  • 14 min de leitura

URBANIZAÇÃO EXTENSIVA, REPRODUÇÃO DO CAPITAL E TRANSIÇÕES SOCIOESPACIAIS


Por Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz





A presente “memória” insere-se no esforço coletivo do projeto de compreender as transformações recentes do capitalismo brasileiro, partindo da hipótese central de que está em curso uma profunda reestruturação da ordem urbano-regional industrial consolidada entre as décadas de 1940 e 1980. Em nossa opinião, esse processo se manifesta por meio de dinâmicas articuladas de desindustrialização, reprimarização e reperiferização, que reconfiguram tanto a base produtiva quanto as formas de inserção do país na economia global.


No caso brasileiro, a desindustrialização assume características particulares. Diferentemente do que ocorreu nos países centrais, não se trata de um deslocamento associado à expansão de serviços produtivos sofisticados no contexto da reestruturação produtiva, mas de um processo precoce e regressivo. Sua expressão não se limita à redução da participação da indústria no PIB, mas envolve, sobretudo, a descomplexificação da estrutura produtiva e o enfraquecimento das cadeias produtivas, com impactos profundos sobre a capacidade de dinamização econômica e de articulação territorial.


Paralelamente, observa-se a consolidação de um processo de reprimarização que ultrapassa a simples ampliação da participação de commodities na pauta exportadora. Trata-se da crescente centralidade de um setor agropecuário altamente tecnificado e capitalizado, sob forte comando de grandes corporações, articulado à formação de um bloco de poder no qual as forças ruralistas assumem papel estratégico na condução da economia política nacional.


Essas dinâmicas se articulam à reperiferização do país, entendida como a fragilização das capacidades econômicas, políticas, institucionais e tecnológicas de controle sobre sua inserção no capitalismo global. Tal processo limita a possibilidade de construção de um projeto nacional de desenvolvimento, comprometendo a redução das desigualdades sociais e regionais, bem como a afirmação da soberania e a melhoria das condições de vida da população.


Do ponto de vista teórico, essas transformações são interpretadas como expressão de um novo estágio da dependência, marcado pela centralidade das lógicas do rentismo e do neoextrativismo, que atravessam tanto o campo quanto as cidades e as metrópoles. Configura-se, assim, um padrão de reprodução do capital baseado na especialização exportadora de commodities agrominerais, na transferência de rendas em múltiplas formas (incluindo aquelas associadas ao controle de dados) e na crescente dependência da importação de bens industriais, tecnologias e serviços digitais.


Essa nova inserção subordinada se efetiva de maneira particularmente significativa na esfera da circulação do capital, reinstalando no capitalismo brasileiro a clássica cisão entre produção e realização do valor, característica histórica das economias dependentes. Trata-se, portanto, de uma dinâmica que reforça a heteronomia estrutural e redefine os nexos entre território, economia e poder.


Diante desse quadro, torna-se fundamental investigar como essas mudanças estruturais se expressam na ordem urbano-regional, especialmente no que se refere às novas dinâmicas de urbanização, às morfologias urbanas emergentes, às transformações nas relações socioespaciais, aos padrões de metabolismo urbano e à intensificação dos conflitos sociais.


Uma das hipóteses centrais do projeto aponta para a exacerbação, aceleração e possível redefinição dos conteúdos e das formas do processo de urbanização extensiva, conceito formulado por Roberto Luís de Melo Monte-Mór. Ao iluminar a generalização das relações urbano-industriais de produção e de reprodução social para além dos limites tradicionais da cidade, esse conceito se mostra particularmente fecundo para interpretar as novas configurações territoriais do capitalismo contemporâneo no Brasil.


É nesse horizonte que se insere o diálogo com o autor, cuja presença e contribuição agradecemos enormemente, não apenas pela generosidade em compartilhar suas reflexões, mas também pela relevância de sua obra para a compreensão crítica das transformações em curso. O que se segue é uma tentativa de sistematizar a apresentação e a interação que estabelecemos com o autor.


Exposição do autor: trajetória, conceitos e inflexões analíticas


A exposição do autor revelou uma trajetória intelectual marcada por diferentes momentos, ainda que profundamente articulados entre si. O professor Roberto Luís de Melo Monte-Mór, docente e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com atuação sobretudo no CEDEPLAR, possui uma obra marcada pela elaboração e desenvolvimento do conceito de urbanização extensiva, com investigações sobre as dinâmicas territoriais, metropolitanas, regionais e ambientais. Ao longo de sua carreira, tem articulado reflexão teórica, pesquisa empírica e participação em redes acadêmicas, contribuindo de maneira decisiva para o debate sobre as transformações contemporâneas do urbano.


Seu percurso inicial remonta aos estudos realizados no IPPUR, com foco na Amazônia, especialmente a partir de sua experiência em Ji-Paraná (Rondônia). Nesse contexto, identificou que a fronteira amazônica não era composta por uma população estritamente camponesa, mas por sujeitos que demandavam condições de vida urbana. Essa constatação levou à formulação do conceito de “base urbana”, evidenciando a necessidade de articulação entre, digamos, residência rural e inserção urbana.


Segundo o relato do autor, essa primeira fase já indicava uma questão central que atravessaria toda sua obra: a impossibilidade de compreender o território brasileiro a partir de uma dicotomia rígida entre urbano e rural.


Posteriormente, suas pesquisas no CEDEPLAR e a influência de autores como Francisco de Oliveira, Henri Lefebvre e Milton Santos contribuíram para a formulação do conceito de urbanização extensiva. Nos anos 1980, o autor identificou que o processo de urbanização no Brasil não poderia mais ser entendido apenas como crescimento das cidades, mas como a extensão das condições urbano-industriais (de produção e reprodução social) ao conjunto do território, resultado da dinâmica de implosão-explosão das metrópoles e centralidades urbanas tradicionais.


O autor enfatizou que esse processo não se limita à materialidade da urbanização, mas envolve também a constituição de um espaço abstrato, nos termos lefebvrianos, produzido pela ação combinada do capital e do Estado.


Ao longo do tempo, contudo, sua abordagem passou por uma inflexão teórica significativa, que redefiniu o alcance e o sentido de sua interpretação sobre a urbanização. Se, em um primeiro momento, o foco recaía predominantemente sobre a expansão das condições gerais de produção (isto é, sobre a difusão das infraestruturas, das relações urbano-industriais e dos mecanismos necessários à acumulação do capital), progressivamente o autor deslocou sua análise para um plano mais amplo, no qual ganham centralidade as condições de reprodução social. Esse movimento implica considerar não apenas como o espaço é produzido, mas sobretudo como a vida é sustentada e organizada no território, incorporando dimensões como o consumo, o acesso a serviços, as formas de sociabilidade e as estratégias cotidianas de sobrevivência.


Paralelamente, emerge com força a dimensão da politização do espaço (polis e civitas), entendida como a generalização de conflitos, lutas e formas de organização social que extrapolam o âmbito estritamente urbano e passam a atravessar o conjunto do território, envolvendo movimentos sociais diversos (não apenas urbanos), populações tradicionais e novas formas de engajamento. Por fim, essa inflexão também se expressa na incorporação crescente da questão ambiental, que deixa de ser um elemento periférico para se tornar estruturante da análise, evidenciando tanto os limites ecológicos do padrão de desenvolvimento quanto a necessidade de pensar alternativas que articulem urbanização, natureza e reprodução da vida.


Essa inflexão teórica também se articula a uma leitura mais ampla das transformações históricas do urbano, que pode ser compreendida como uma passagem do urbano-industrial ao urbano-utopia e, mais recentemente, ao urbano-natureza. No primeiro momento, o urbano-industrial aparece como expressão da centralidade da produção, estruturado pela lógica da fábrica, da concentração metropolitana e da organização do espaço em função da acumulação.

Com o esgotamento relativo desse modelo e a generalização da urbanização extensiva, abre-se a possibilidade do urbano-utopia, entendido não como projeção abstrata, mas como campo de experimentação de alternativas concretas de vida, nas quais se articulam práticas sociais insurgentes, formas cooperativas de organização e novas territorialidades que tensionam a lógica dominante. 


É nesse horizonte que se delineia, de forma ainda incipiente e contraditória, a emergência do urbano-natureza, no qual a questão ambiental deixa de ser um limite externo e passa a constituir um princípio organizador das práticas espaciais, integrando dimensões ecológicas, sociais e políticas. Trata-se, portanto, de um deslocamento que aponta para a construção de modos de vida que buscam recompor as relações entre sociedade e natureza, abrindo caminho para formas híbridas (urbano-camponesas, urbano-florestais, urbano-indígenas) que sinalizam possibilidades de reorganização do espaço para além da racionalidade estritamente capitalista.


Podemos dizer, portanto, para estabelecer uma síntese da apresentação do autor que a urbanização extensiva passa, então, a ser reinterpretada não apenas como um processo de expansão do espaço abstrato (ou seja, como a difusão das lógicas homogêneas, funcionais e instrumentalizadas do capital sobre o território), mas também como um campo de tensão permanente. De um lado, observa-se a intensificação da integração capitalista do território, por meio da ampliação das redes logísticas, dos fluxos de mercadorias, capitais e informações e da generalização das formas de consumo e reprodução social subordinadas ao capital. De outro lado, esse mesmo movimento engendra, de forma simultânea e contraditória, a emergência de espaços diferenciais, ainda nos termos de Henri Lefebvre, nos quais se afirmam práticas sociais, econômicas e políticas que resistem, desviam ou reinventam as lógicas dominantes. Esses espaços não se situam, portanto, “fora” da urbanização extensiva, revelando que o processo de urbanização é um terreno de conflitos, disputas e possibilidades abertas para a construção de alternativas.


Articulações entre a abordagem do autor e as hipóteses do projeto


Na elaboração e sistematização de nossas questões, partimos da leitura de alguns dos principais textos do autor, sobretudo os intitulados “Urbanização extensiva e novas fronteiras urbanas no Brasil” e “Urbanização, sustentabilidade, desenvolvimento: complexidades e diversidades contemporâneas na produção do espaço urbano”.


A partir dessas referências, destacamos que o conceito de urbanização extensiva é mobilizado pelo autor como chave interpretativa central para compreender a transformação do território brasileiro ao longo do século XX, ao mesmo tempo em que permite apreender tendências emergentes nas primeiras décadas do século XXI.


Reconhecemos que se trata de um conceito que permite apreender a extensão do tecido urbano para além dos limites imediatos das cidades, alcançando espaços próximos e distantes e promovendo a expansão das condições gerais de produção (e reprodução social) por todo o território. Em termos mais diretos, o conceito alude à generalização das condições e relações urbano-industriais para além da forma urbana tradicional, fazendo com que essas relações se tornem dominantes mesmo em áreas de baixa densidade ou que não apresentam morfologia urbana clássica.


Com base nessa leitura, enfatizamos que os textos do autor evidenciam um processo histórico de longa duração, no qual o Brasil passa de uma estrutura predominantemente rural, marcada por uma rede urbana rarefeita, pouco articulada e fortemente dependente de dinâmicas regionais isoladas, para um período de urbanização acelerada impulsionada pela industrialização. Isso ocorreu, particularmente, entre as décadas de 1930 e 1960, período em que se consolidam os principais centros metropolitanos do país e se intensificam, de maneira decisiva, os fluxos econômicos, os movimentos migratórios e a expansão das infraestruturas, configurando as bases de uma rede urbana mais articulada e integrada.


Esse movimento, contudo, não se esgota na formação da cidade industrial concentrada, mas desdobra-se em uma etapa posterior, evidente nos anos 1970-1980, caracterizada pela difusão ampliada das condições urbanas pelo território. Trata-se de um momento no qual as infraestruturas, serviços, redes técnicas, formas de regulação do trabalho e padrões de consumo passam a se estender para além dos limites físicos das cidades, integrando regiões distantes e redefinindo as relações entre urbano e rural. Em suma, trata-se de um processo que não apenas amplia a escala da urbanização, mas também transforma qualitativamente o território, ao generalizar a lógica urbana como princípio organizador da vida social em múltiplas escalas.


A partir desse entendimento, formulamos questões buscando aprofundar e atualizar essa abordagem com base na hipótese do advento de um novo padrão de acumulação (e de reprodução do capital) nos marcos do aprofundamento da histórica condição de dependência brasileira. O que, no limite, se expressa na forma da reperiferização do país.


Em primeiro lugar, questionamos em que medida o conceito de urbanização extensiva poderia ser reinterpretado à luz da emergência do novo padrão de acumulação rentista-neoextrativista, associado à reprimarização, à desindustrialização, à financeirização e à plataformização da economia brasileira. Indagamos, desse modo, sobre as continuidades e rupturas em relação à expansão da fronteira e do padrão urbano-industrial clássicos.


Em segundo lugar, levantamos a hipótese de que a urbanização contemporânea envolveria não apenas a expansão das condições gerais de produção e reprodução, mas também das condições de circulação (de mercadorias, capitais, informações etc.), considerando a centralidade assumida pelos circuitos logísticos e financeiros. 


Em terceiro lugar, ao retomarmos a noção de fronteiras urbanas presente nos textos do autor, propusemos uma reflexão sobre sua configuração atual em termos de territórios do rentismo-neoextrativismo (como cidades do agronegócio, da mineração, da logística etc.), questionando como articular, nesse contexto, as dinâmicas simultâneas de concentração e desconcentração, bem como de homogeneização e diferenciação do território.


Por fim, problematizamos a hipótese, trabalhada no projeto, de uma crescente fragmentação territorial no Brasil do século XXI, associada ao novo padrão de reprodução do capital (exportador de especialização produtiva, mas, simultaneamente, importador) e ao enfraquecimento do papel integrador do Estado, perguntando em que medida a urbanização ainda poderia desempenhar uma função integradora ou se passaria a expressar predominantemente processos seletivos, fragmentários e espoliativos de uso do território.


Todas essas questões foram elaboradas não só absorvendo o conceito de urbanização extensiva, mas com base em nossa própria caracterização do padrão de reprodução do capital exportador de especialização produtiva (PRCEEP). Para nós, um dos traços mais marcantes desse padrão é seu caráter simultaneamente exportador e importador, o que revela uma inserção internacional profundamente dependente e assimétrica. De um lado, o país se especializa na exportação de commodities agrícolas, minerais e energéticas, reforçando processos de reprimarização e a centralidade de atividades intensivas em recursos naturais. De outro, mantém e, em muitos casos, aprofunda sua dependência da importação de bens industriais, tecnologias, insumos estratégicos e, mais recentemente, serviços digitais e plataformizados.


Em nossa perspectiva, essa dupla dinâmica não apenas demonstra a fragilidade estrutural da economia, mas também reorganiza o território, na medida em que articula espaços voltados à produção para exportação com circuitos de consumo e circulação dependentes de fluxos externos.


Em suas respostas às questões formuladas no âmbito do projeto, o autor indicou que a urbanização extensiva, em sua leitura atual, deve ser compreendida em estreita articulação com as transformações profundas do capitalismo contemporâneo. Destacou a centralidade assumida pela logística, pela mobilidade e pela comunicação, enfatizando que a integração territorial passa a ocorrer cada vez mais por meio de infraestruturas logísticas e redes informacionais complexas, responsáveis por viabilizar a circulação ampliada de mercadorias, capitais e informações. Essa dinâmica redefine o papel do território, que se torna simultaneamente suporte e produto desses fluxos, o que, para nós, evidencia o deslocamento da centralidade da produção para a circulação.


Ao mesmo tempo, o autor ressaltou que essa integração não se dá apenas pelo lado da produção, mas também, e de forma crescente, pelo consumo. Segundo ele, a reprodução social passa a ser mediada por padrões de consumo ampliados, frequentemente sustentados por processos de endividamento, o que reconfigura a relação entre população e território e aprofunda a inserção dos sujeitos nas dinâmicas do capital. Nesse sentido, a urbanização extensiva deve ser entendida também como expansão das condições de consumo, o que amplia seu alcance para além das formas clássicas da urbanização industrial e ressalta, em nossa opinião, a centralidade dos novos bens e serviços digitais/plataformizados.


Outro ponto destacado foi a articulação direta entre urbanização extensiva e economias de commodities. O autor argumentou que esse processo está profundamente conectado às dinâmicas de exportação de recursos naturais, à produção de energia e à constituição de infraestruturas logísticas, configurando aquilo que pode ser entendido como “paisagens operacionais” do capital contemporâneo, segundo a abordagem de autores como Neil Brenner. Do nosso ponto de vista, essas dinâmicas deixam claro que a expansão do urbano não pode mais ser dissociada das formas específicas de inserção internacional da economia, particularmente em contextos marcados pela especialização produtiva e pela centralidade dos recursos naturais.


Por fim, o autor chamou atenção para a emergência de uma nova forma de dependência, associada à crescente centralidade das tecnologias e plataformas digitais. Sem dúvida, como temos defendido no âmbito do projeto, essa dependência tecnológica e informacional redefine os termos da integração territorial, na medida em que o controle dos fluxos de dados e das infraestruturas digitais passa a desempenhar papel estratégico.


Espaços diferenciais: resistências e lutas pelo comum


No diálogo sobre a dimensão das utopias e dos urbanismos insurgentes, foi colocada a questão de como compreender experiências territoriais situadas no entorno de grandes cidades e em outros espaços (como as comunas do MST) que articulam o acesso a serviços urbanos sem, contudo, dissolver as ruralidades e os modos de vida alternativos. Aqui, também foram ressaltadas experiências como o urbanismo de cuidados.


Em sua resposta, o autor tensionou os próprios termos do debate ao afirmar que o conceito de urbanização, tal como usualmente empregado, é bastante limitado (retomando, de passagem, uma “polêmica” com José Eli da Veiga) e insistindo que o urbano não se reduz à cidade, mas designa um processo socioespacial mais amplo.


Ao fazê-lo, interpretou experiências como a do MST não como exteriores ao urbano, mas como expressão de uma “utopia urbano-camponesa”, isto é, algo como formas híbridas que combinam práticas urbanas e rurais de maneira alternativa. Ao mesmo tempo, destacou que o urbanismo dos cuidados aponta para uma direção convergente com a construção dos comuns, indicando a emergência de formas de organização da vida que desafiam a lógica dominante de produção do espaço.


Essa discussão foi aprofundada por uma questão relativa à reversão da crise ecológica, diante da qual o autor enfatizou que, embora os movimentos ecológicos ainda ocupem uma posição marginal no interior da economia dominante, sua relevância tende a crescer, desde que sejam capazes de incorporar uma compreensão mais consistente da dinâmica econômica. Nesse horizonte, ganha centralidade o cruzamento entre diferentes dimensões (urbano-natural, urbano-camponês, urbano-ecológico etc.), apontando para formas híbridas e experimentais de organização territorial que articulam reprodução social, sustentabilidade e autonomia, reforçando o caráter político e utópico das alternativas em construção.


Dependência e urbanização logística


No diálogo estabelecido a partir das intervenções de outros pesquisadores, partiu-se do reconhecimento do caráter pioneiro das referências brasileiras sobre a produção do espaço (tanto do próprio autor quanto de Bertha Becker) para enfatizar o papel da logística como expressão contemporânea da urbanização extensiva, especialmente em áreas periurbanas organizadas para atender ao consumo concentrado nas metrópoles.


Ressaltou-se o caráter dependente desse processo, marcado pela superexploração do trabalho, pela espoliação urbana, pela degradação ambiental e pela drenagem de recursos nacionais. A questão foi então orientada no sentido de problematizar o potencial utópico e transformador das lutas que emergem no interior dessas dinâmicas, como os “breques” dos trabalhadores de aplicativos, as mobilizações em galpões logísticos e as formas de organização dos moradores desses territórios.


Foi levantada, do mesmo modo, uma questão que assumiu um caráter mais reflexivo e biográfico, buscando compreender como o autor avalia sua própria relação com o tema da dependência, tendo em vista sua centralidade para o projeto, e como interpreta a retomada dos estudos sobre a urbanização dependente.


Em suas respostas, o autor destacou que comunicação e mobilidade constituem, hoje, elementos centrais da urbanização extensiva, sendo a logística um eixo estruturante desse processo. Ressaltou que a conjuntura recente, marcada, entre outros fatores, por conflitos internacionais, evidencia a profundidade da integração global, ao mesmo tempo em que revela novas formas de dependência, especialmente associadas à precariedade das infraestruturas logísticas nos países periféricos e à forte subordinação às grandes plataformas tecnológicas. Sugeriu, portanto, que estamos diante da constituição de uma nova dependência, que se expressa tanto na circulação quanto no controle informacional, e que precisa ser enfrentada em um contexto de enfraquecimento relativo dos centros hegemônicos.


Ao tratar especificamente da questão da dependência, o autor reconheceu a influência de sua formação em um ambiente intelectual marcado pelo pensamento cepalino, mas destacou que, posteriormente, houve um movimento de abandono e apagamento dessa tradição, o que contribuiu para o esvaziamento da perspectiva da dependência e mesmo para o afastamento entre os autores que originalmente dialogavam com esse referencial.


Questão complementar: urbanização extensiva, articulações interescalares e interiorização do crescimento


Por fim, adicionamos uma questão complementar, como desdobramento das discussões realizadas. Partindo da definição do autor, segundo a qual a urbanização extensiva corresponde à extensão das condições gerais de produção urbano-industriais para além das cidades, tornando dominantes as relações socioespaciais urbano-industriais independentemente da densidade urbana, podemos questionar em que medida seria possível reinterpretá-la, também, como a extensão das articulações interescalares próprias das metrópoles, produzidas sobretudo pelo grande capital, para espaços próximos e longínquos.


Nessa perspectiva, a urbanização extensiva não se limitaria à difusão de infraestruturas e condições de produção, mas envolveria a incorporação de territórios a dinâmicas ampliadas de poder, decisão e coordenação, integrando-os a sistemas urbanos mais complexos e hierarquizados, que extrapolam os sistemas locais nos quais esses espaços se inserem diretamente.


Essa hipótese pode ser colocada em diálogo com os resultados empíricos apresentados por Fernando Cézar de Macedo acerca do padrão de reprodução do capital exportador de especialização produtiva (PRCEE), especialmente no que se refere ao processo de interiorização do crescimento econômico no Brasil contemporâneo. Como destacado pelo autor, a expansão das atividades voltadas à exportação, notadamente de commodities, tem acionado de maneira crescente a base territorial de municípios menores, situados fora das regiões metropolitanas e das capitais estaduais, conferindo protagonismo aos chamados Centros Locais na geração de divisas e na sustentação da capacidade de importação do país.


A tabela abaixo, retirada da obra Desenvolvimento Regional no Brasil no Século XXI (Macedo, 2023, p. 200-201) reforça empiricamente essa tendência, ao evidenciar a crescente participação relativa dos Centros Locais (CL) tanto nas exportações quanto nas importações ao longo das últimas décadas. Enquanto, no ano 2000, esses centros respondiam por uma parcela reduzida dos fluxos comerciais, observa-se, ao longo do tempo, um aumento consistente de sua participação, indicando sua incorporação progressiva às dinâmicas econômicas nacionais e internacionais.




Esse movimento sugere que a interiorização do crescimento não implica uma desconexão em relação às dinâmicas centrais, mas, ao contrário, uma integração subordinada e funcional a circuitos mais amplos de acumulação, organizados em escala nacional e global. Nesse sentido, os Centros Locais passam a desempenhar um papel estratégico na produção e exportação de bens primários, ao mesmo tempo em que permanecem dependentes de fluxos externos de bens industriais, tecnologia e serviços.

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Elaboração: El Homo Urbanus.

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