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Memória - 11/03/2026 - Participação: Hipólita Siqueira

  • Foto do escritor: Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
    Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
  • 13 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 8 de abr.

Reprimarização territorial no Brasil: implicações para o desenvolvimento regional e a urbanização em contexto de transições e policrises


Reunião do grupo de pesquisa - 11/03/2026
Reunião do grupo de pesquisa - 11/03/2026



Em sua apresentação, a professora Hipólita Siqueira analisou o processo de reprimarização territorial no Brasil, destacando seus impactos sobre o desenvolvimento regional e a organização do território. A autora partiu de abordagens críticas da Economia Política Regional e da Geografia Econômica para argumentar que o país ainda apresenta fortes desigualdades regionais e que as transformações econômicas em curso devem ser compreendidas a partir de uma perspectiva multiescalar, relacionando dinâmicas globais, nacionais e regionais. Nesse sentido, foram discutidas as mudanças recentes na economia mundial, como disputas geopolíticas, crises econômicas e ambientais e a reorganização das cadeias produtivas globais, que influenciam a posição do Brasil na divisão internacional do trabalho.


A autora destacou que, desde os anos 1990, o Brasil vem passando por um processo de reprimarização das exportações, caracterizado pelo aumento da participação das commodities agrícolas, minerais e energéticas e pela desindustrialização relativa. Segundo a análise apresentada, esse processo implica perda de complexidade tecnológica e enfraquecimento das cadeias produtivas industriais. Também foi ressaltado que essas transformações produzem efeitos territoriais importantes, favorecendo especializações produtivas baseadas na extração de recursos naturais e, em alguns casos, a formação de enclaves produtivos, com baixa integração às economias locais e forte dependência dos mercados externos.


Outro ponto discutido foi a formação de economias rentistas, nas quais parte significativa da dinâmica econômica regional depende da captura de rendas provenientes da exploração de recursos naturais. Nesse contexto, o estado do Rio de Janeiro foi apresentado como um exemplo relevante, devido à concentração da produção de petróleo offshore e da arrecadação de royalties, que influenciam a dinâmica econômica de diversos municípios (Maricá, Niterói, Saquarema etc.).


Esse processo implica perda de complexidade tecnológica e enfraquecimento das cadeias produtivas industriais.

A partir da apresentação da autora, foram levantadas três questões principais pertinentes ao desenvolvimento do projeto. A primeira dizia respeito a como articular o debate sobre o possível surgimento desses novos enclaves territoriais com a discussão, já presente desde os anos 1990, sobre a fragmentação do território e da nação. A segunda questão tratou de como interpretar atualmente as dinâmicas de concentração, desconcentração e reconcentração regional, considerando que elas já não parecem ser regidas pelos mesmos fatores do período da industrialização e que, como sugerido pela própria autora, o foco exclusivo nessas dinâmicas pode ser limitado. Por fim, retomando discussões presentes em trabalhos anteriores da autora, perguntou-se se suas pesquisas mais recentes já permitiriam identificar quais seriam, hoje, os principais vetores de reorganização da dinâmica urbano-regional nas diferentes regiões brasileiras, sobretudo em um contexto marcado por crises econômicas e múltiplas instabilidades.


Parte significativa da dinâmica econômica regional depende da captura de rendas provenientes da exploração de recursos naturais.

Além dessas questões, surgiram outras perguntas durante o debate. Discutiu-se, por exemplo, como o processo de reprimarização se manifesta de forma diferenciada nas diversas macrorregiões brasileiras; o que haveria de realmente novo nesse processo, tendo em vista casos históricos de ciclos extrativos, como o de Minas Gerais; e ainda o papel das coalizões neoextrativistas na produção de processos de fragmentação nacional.


Em suas respostas, a professora destacou que, durante o período da ordem industrial, a integração era o processo dominante na organização da divisão espacial do trabalho. Já no contexto atual de reprimarização, observar-se-ia uma força que tende a operar no sentido contrário, enfraquecendo os nexos produtivos entre regiões. Nesse ponto, mencionou debates clássicos, como a controvérsia entre Carlos Américo Pacheco e Wilson Cano, lembrando que este último não identificava esse esgarçamento do tecido produtivo como um vetor efetivo de fragmentação territorial.


Ao tratar da questão da fragmentação, a autora argumentou que ela deveria ser compreendida mais como uma tendência ou ameaça do que como um processo plenamente consolidado. Segundo ela, a ausência de políticas industriais e de estratégias de fortalecimento do tecido produtivo poderia levar a um nível de desadensamento capaz de produzir, no limite, efeitos políticos de fragmentação territorial. Nesse sentido, regiões excluídas poderiam constituir o “caldo” social e econômico para tensões desse tipo.


A fragmentação deveria ser compreendida mais como uma tendência ou ameaça do que como um processo plenamente consolidado.

Sobre o debate em torno dos enclaves produtivos, a professora observou que já existiriam evidências empíricas dessa tendência, embora ainda predominantemente qualitativas, devido às limitações de dados disponíveis: como a ausência de estatísticas detalhadas de matrizes insumo-produto que permitam mapear de forma mais precisa os encadeamentos inter-regionais. Ainda assim, ela sugeriu que já seria possível falar em certo grau de fragmentação do ponto de vista produtivo.


Em relação às dinâmicas de concentração e desconcentração regional, a autora afirmou que seria necessário lidar mais diretamente com as especificidades setoriais e com as particularidades de cada cadeia de valor. Por isso, em sua avaliação, a divisão espacial do trabalho deveria continuar sendo a categoria analítica central para compreender essas transformações.


A professora também ressaltou que nem todos os processos econômicos atuais poderiam ser explicados pela reprimarização. Embora se trate de uma força relevante na economia brasileira contemporânea, ela não se manifesta da mesma forma em todo o território nacional.


Os processos contemporâneos apresentam novas características, relacionadas às transformações tecnológicas e à crescente demanda por recursos estratégicos, como lítio e terras raras. [...] Qualquer interpretação sobre esses processos é necessariamente parcial, sendo fundamental partir de referenciais teóricos claros para testar hipóteses.

Ao responder à pergunta sobre a novidade do atual ciclo extrativo, a autora reconheceu que a exploração de recursos naturais sempre esteve presente na história econômica brasileira e que ciclos de esgotamento, como os observados em Minas Gerais, já haviam sido analisados pela literatura urbano-regional. No entanto, destacou que os processos contemporâneos apresentam novas características, relacionadas às transformações tecnológicas e à crescente demanda por recursos estratégicos, como lítio e terras raras, essenciais para processos de eletrificação e transição energética. Esses avanços tecnológicos ampliaram a capacidade de exploração, mas também trouxeram novos impactos socioambientais, como observado em regiões como o Vale do Jequitinhonha.


Encerrando o debate, a professora ressaltou ainda a importância de que pesquisas nessa área sejam realizadas de forma colaborativa, uma vez que qualquer interpretação sobre esses processos é necessariamente parcial. Para ela, é fundamental partir de referenciais teóricos claros e utilizá-los como base para testar hipóteses e aprofundar a compreensão das transformações territoriais em curso.

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Elaboração: El Homo Urbanus.

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