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Memória - 20/05/2026 - Reunião de balanço

  • Foto do escritor: Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
    Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
  • 25 de mai.
  • 15 min de leitura

O novo padrão de reprodução do capital e a reestruturação da ordem urbano-regional brasileira





Introdução


Nossa apresentação, realizada âmbito do projeto O padrão de acumulação rentista-neoextrativista e a reestruturação da ordem urbano-regional: novas tendências, dinâmicas e morfologias socioterritoriais, teve como objetivo central sistematizar e desenvolver as principais hipóteses que vêm orientando nossa investigação coletiva. Tratou-se, mais especificamente, de um balanço realizado após um ciclo de debates que contou com a participação dos seguintes pesquisadores convidados: Hipólita Siqueira, Fernando Cézar de Macedo, Roberto Monte-Mór e Carlos Vainer.


As sessões anteriores, com a presença desses convidados, tiveram o objetivo de aprofundar o marco teórico, analítico e conceitual do projeto, permitindo desenvolver hipóteses relativas às transformações contemporâneas do capitalismo brasileiro, às novas formas da dependência e às mudanças em curso na ordem urbano-regional do país. Nossa apresentação buscou, justamente, sintetizar criticamente as principais contribuições e questões surgidas ao longo desse percurso coletivo de discussão teórica.


Partimos da compreensão de que o Brasil atravessa uma reestruturação profunda de sua ordem urbano-regional, associada à consolidação de uma nova forma histórica de dependência e à emergência de um padrão de reprodução do capital marcado pela convergência entre reprimarização, financeirização, desindustrialização e plataformização da economia.

Nossa exposição buscou, antes de tudo, realizar um exercício de síntese e recapitulação crítica do percurso já desenvolvido pelo projeto, incorporando contribuições surgidas ao longo do ciclo de debates realizado. Procuramos demonstrar que esses encontros permitiram aprofundar conceitos fundamentais, desenvolver hipóteses iniciais e incorporar novas mediações analíticas, especialmente no que se refere às dimensões políticas, ideológicas e conflituais da produção social do espaço.


Nesse sentido, propusemos que a análise da reestruturação contemporânea da ordem urbano-regional brasileira exige articular três níveis fundamentais: i) as transformações recentes do capitalismo dependente; ii) o novo padrão de reprodução do capital; e iii) as formas específicas pelas quais tais processos reorganizam o território, as cidades, as regiões e as relações socioespaciais em geral. Nossa perspectiva inscreve-se, portanto, no interior do que se poderia chamar de uma economia política da urbanização dependente, interessada em compreender os nexos entre poder, acumulação e produção social do espaço.


A ordem urbano-regional como matriz espacial da formação social

Um dos primeiros esforços da apresentação consistiu em tornar mais precisa nossa definição de ordem urbano-regional. Retomando formulações anteriormente mobilizadas pelo Observatório das Metrópoles, indicamos a necessidade de compreender a ordem urbano-regional como a matriz espacial de uma formação social específica. Isto é, trata-se, acima de tudo, do arranjo socioterritorial por meio do qual se organizam a produção, a circulação e a apropriação do excedente econômico.


Entretanto, procuramos enfatizar que essa matriz espacial não se define apenas a partir de determinações econômicas, mas também das relações políticas, sociais e institucionais que estruturam historicamente a sociedade. Ou seja, a ordem urbano-regional expressa não apenas uma determinada divisão territorial do trabalho. Ela também resulta de correlações de força, formas de dominação e segregação, conflitos sociais, estratégias estatais, entre outros fatores, inclusive culturais e ideológicos.


Além disso, essa definição implica reconhecer que a configuração territorial de países dependentes como o Brasil não pode ser analisada separadamente de sua inserção subordinada na divisão internacional do trabalho. Isso significa que, em formações sociais dependentes, as formas de organização do território respondem, em larga medida, às exigências impostas pelos diferentes momentos históricos da acumulação capitalista em escala mundial. Em outras palavras, as dinâmicas territoriais internas não decorrem exclusivamente de fatores nacionais ou regionais, mas são profundamente condicionadas pela posição ocupada pelo país na economia mundial e pelos modos específicos de articulação entre capital internacional, Estado e classes dominantes internas.


Assim, conforme nossas hipóteses, as transformações recentes do capitalismo brasileiro não alteram apenas sua base econômica, mas reconfiguram simultaneamente a rede urbana, as relações campo-cidade, os padrões de regionalização, formas de integração territorial etc. Em suma, reconfiguram a ordem urbano-regional. 


Desse modo, é possível dizer, por exemplo, que, atualmente, a expansão das fronteiras do agronegócio, da mineração e a criação de novas infraestruturas logísticas constituem vetores que redefinem centralidades urbanas, impulsionam o crescimento de cidades médias vinculadas aos circuitos exportadores e reforçam processos altamente seletivos de produção do espaço. Ao mesmo tempo, aprofundam-se dinâmicas de fragmentação, enclavamento e desigualdade regional, uma vez que parcelas crescentes do território passam a ser organizadas prioritariamente em função das exigências da competitividade internacional e da circulação global de mercadorias, capitais e informações.


Para além das cidades, rumo à urbanização extensiva


Foi nesse sentido que destacamos a importância da noção de urbanização extensiva, sobretudo a partir do diálogo com Roberto Monte-Mór. Acompanhando as elaborações do autor, mas também de Neil de Brenner, sustentamos que o urbano já não pode ser compreendido apenas como aquilo que se concentra nas cidades ou metrópoles tradicionais. Ao contrário, o urbano deve ser entendido como uma lógica socioterritorial generalizada, que difunde por todo o território as condições de produção, circulação e reprodução social associadas ao capitalismo rentista-neoextrativista.


Essa perspectiva implica reconhecer que a urbanização contemporânea ultrapassa os limites morfológicos clássicos da cidade. O urbano, hoje, incorpora fronteiras agrícolas, corredores logísticos, plataformas de exportação, territórios minerados, redes energéticas, complexos portuários, sistemas de armazenamento, centros de distribuição, infraestruturas digitais, entre outros fixos e fluxos. Quer dizer, o processo de urbanização passa a envolver a produção ampliada de espaços híbridos e complexos funcionalmente integrados às exigências da acumulação capitalista.


Procuramos demonstrar, assim, que a urbanização extensiva corresponde à generalização das condições urbanas de reprodução do capital em escala territorial ampliada. Isso significa que mesmo áreas aparentemente “não urbanas” são organizadas segundo racionalidades urbanas (técnicas, financeiras, culturais, normativas etc.). O avanço do agronegócio altamente mecanizado, por exemplo, depende de redes sofisticadas de transporte, armazenamento, crédito, informação, conectividade e serviços especializados, articulando cidades médias, mercados financeiros, plataformas digitais e cadeias globais de circulação de commodities. E o mesmo pode ser observado nas regiões mineradoras e nos grandes corredores de exportação.


Ademais, sublinhamos que a urbanização extensiva assume características particulares em formações dependentes como a brasileira. Em vez de expressar prioritariamente a integração nacional e a expansão relativamente articulada do mercado interno, como ocorreu, em parte, durante o período urbano-industrial, ela tende a se organizar crescentemente em função das exigências da competitividade internacional e da inserção subordinada do território nos circuitos globais de valorização. O resultado é uma expansão territorial seletiva, marcada simultaneamente por especialização funcional e fragmentação socioterritorial.


Urbanização extensiva e generalização dos conflitos socioterritoriais: o aprofundamento do urbano antinação


Também procuramos enfatizar que a urbanização extensiva amplia e generaliza a própria escala dos conflitos socioterritoriais. Isto é, aquilo que é mais importante e decisivo em termos de disputa pelo território já não se restringe aos espaços metropolitanos tradicionais nem aos conflitos urbanos clássicos em torno da moradia, da infraestrutura ou do acesso aos serviços urbanos. Ao contrário, uma série de conflitos aparentemente desconectados se estendem progressivamente por todo o território, alcançando áreas indígenas, regiões amazônicas, fronteiras agrícolas, cidades médias interiorizadas, zonas mineradoras, corredores logísticos estratégicos, áreas de expansão energética etc.


Procuramos mostrar, portanto, que a expansão do urbano corresponde igualmente à expansão das contradições sociais, ambientais e políticas associadas ao atual padrão de reprodução do capital. Ou seja, a urbanização extensiva implica também uma extensão territorial dos conflitos produzidos pela acumulação capitalista dependente.


Ao longo da exposição deste tópico, retomamos também as contribuições clássicas de Francisco de Oliveira, especialmente a formulação apresentada em Acumulação Monopolista, Estado e Urbanização: A Nova Qualidade do Conflito de Classes (1977), segundo a qual praticamente toda dimensão da vida nacional tende a explodir como problema urbano. Argumentamos que essa formulação se torna ainda mais verdadeira na conjuntura atual, na medida em que as principais contradições “urbanas” da acumulação capitalista extrapolam os limites tradicionais das metrópoles e grandes cidades e atravessam cidades médias, fronteiras agrícolas, territórios minerados, regiões logísticas etc.


Procuramos demonstrar, portanto, que o avanço do agronegócio, da mineração, dos serviços plataformizados, das atividades logísticas, portuárias, turístico-imobiliárias, energéticas etc. amplia e complexifica a escala do que costumamos chamar de “problemas urbanos”. As cidades do agronegócio, por exemplo, revelam combinações particularmente intensas entre concentração de riqueza, precarização do trabalho, desigualdades socioespaciais, espoliação urbana e vulnerabilidade social. Isto é, embora frequentemente apresentadas como símbolos de modernização, eficiência e dinamismo econômico, essas cidades expressam formas profundamente desiguais e seletivas de produção social do espaço.


O conceito de padrão de reprodução do capital


Outro eixo central da apresentação consistiu no aprofundamento da discussão sobre o conceito de padrão de reprodução do capital, mobilizado a partir da tradição da Teoria Marxista da Dependência (TMD) e das contribuições de Fernando Cézar de Macedo. Defendemos que essa categoria é particularmente importante porque permite estabelecer uma mediação entre níveis mais abstratos de análise (como modo de produção capitalista e sistema mundial) e níveis histórico-concretos (como formações econômico-sociais, conjunturas e a própria ordem urbano-regional).


Ao comparar diferentes padrões históricos de reprodução do capital na América Latina, sustentamos que o atual padrão exportador de especialização produtiva se distingue profundamente do antigo padrão urbano-industrial. Enquanto o último se organizava em torno da industrialização, da integração produtiva nacional e da expansão do mercado interno (ainda que com profundas desigualdades e sem romper com a dependência), o padrão contemporâneo estrutura-se prioritariamente em função da exportação de commodities e da integração subordinada aos circuitos globais de valorização financeira.


Demonstramos que essa diferença não é apenas setorial ou econômica, mas envolve uma transformação mais ampla das formas de organização do território, do papel do Estado, das relações entre regiões e das próprias bases da integração nacional.


Durante o período urbano-industrial, apesar de suas limitações estruturais e do caráter dependente da industrialização brasileira, consolidou-se um aparelho produtivo complexo, diversificado e articulado, para utilizar a expressão de Marcio Pochmann. A expansão industrial exigia integração de mercados, ampliação das infraestruturas nacionais, articulação entre regiões (em que pese, mais uma vez, as desigualdades), urbanização acelerada e concentrada etc. Nesse contexto, o mercado interno desempenhava papel estratégico como dimensão importante não só da criação, mas da realização do valor.


O padrão exportador de especialização produtiva, por sua vez, opera segundo uma lógica distinta. A centralidade desloca-se da integração produtiva interna para a inserção competitiva nos mercados globais de commodities, energia, minérios e produtos agroindustriais. Em vez de uma estrutura econômica relativamente articulada nacionalmente, observa-se o fortalecimento de circuitos econômicos cada vez mais vinculados às demandas externas, aos fluxos financeiros internacionais e às grandes cadeias globais de valor. Isso implica uma reorganização seletiva do território, orientada prioritariamente pelas exigências da exportação, da logística e da valorização financeira.


Argumentamos, contudo, que esse novo padrão não é apenas exportador. Ele é simultaneamente exportador e importador, articulando de forma contraditória especialização regressiva, financeirização e dependência tecnológica. Trata-se de um padrão que exporta commodities agrícolas e minerais, rendas, lucros e, cada vez mais, dados e ativos associados à economia digital, ao mesmo tempo que importa produtos industriais de maior complexidade tecnológica, além de bens e serviços digitais de alto valor agregado.


Sustentamos, por conseguinte, que a própria dinâmica do mercado interno se transforma profundamente. Diferentemente do período urbano-industrial, quando a industrialização dependente buscava, ainda que de maneira limitada e contraditória, estruturar cadeias produtivas relativamente articuladas nacionalmente, o padrão contemporâneo passa a operar por meio de uma crescente dissociação entre consumo e produção. Parcelas cada vez maiores da demanda doméstica, por exemplo, são atendidas por mercadorias importadas, frequentemente produzidas em cadeias globais altamente internacionalizadas.


O caso de Itajaí, em Santa Catarina, estudado por Fernando Cézar de Macedo, foi mobilizado precisamente como exemplo dessa dinâmica. Argumentamos que a expansão de suas funções portuárias, logísticas e comerciais está profundamente vinculada ao crescimento da importação de mercadorias. Nesse processo, destacamos também a chamada “guerra dos portos”, isto é, a disputa entre estados e complexos portuários por vantagens fiscais e logísticas voltadas à atração de fluxos de importação.


Hipóteses sobre a nova ordem urbano-regional


A parte final da exposição foi dedicada ao desenvolvimento das hipóteses do projeto, organizadas em torno de sete eixos analíticos fundamentais: i) expansão da urbanização extensiva e rearticulação das hinterlândias; ii) produção simultânea de homogeneização e diferenciação socioterritorial; iii) atualização da urbanização subdesenvolvida; iv) fragmentação crescente do território nacional; v) relação entre desconcentração produtiva e reconcentração do comando metropolitano; vi) intensificação da precarização do trabalho e da precariedade da vida urbana; e vii) papel do Estado na sustentação do novo padrão de acumulação e da competitividade territorial.


No primeiro eixo (expansão da urbanização planetária/extensiva e rearticulação das hinterlândias), sustentamos que a urbanização extensiva constitui elemento central para compreender a reestruturação contemporânea da ordem urbano-regional brasileira, sobretudo quando observamos a reorganização das hinterlândias e a constituição daquilo que Neil Brenner e Christian Schmid denominam “paisagens operacionais”. Com base nessas referências, defendemos que estamos diante de uma nova forma de articulação entre centros urbanos consolidados, especialmente as metrópoles, e novos espaços híbridos, fronteiras de recursos e hinterlândias, operacionalizados para impulsionar processos de circulação do capital tanto no eixo exportador quanto no eixo importador do novo padrão de reprodução do capital.


Assim, o que tradicionalmente era compreendido como “campo”, por exemplo, funciona, atualmente, como espaço agromineral industrializado, ainda que marcado por baixa complexidade econômica e articulado prioritariamente ao mercado externo. Além disso, cidade e campo tendem a se aproximar em sua conversão simultânea em plataformas de circulação e consumo de mercadorias e serviços, inclusive digitais, frequentemente importados e controlados por grandes corporações multinacionais.


O segundo eixo (homogeneização, diferenciação e novas morfologias socioterritoriais) procurou captar um dos movimentos mais contraditórios da nova ordem urbano-regional brasileira. Nossa hipótese central é a de que o atual padrão de reprodução do capital produz simultaneamente diversificação das formas espaciais e homogeneização das condições estruturais necessárias à valorização do capital. 


Assim, observamos a emergência de morfologias socioterritoriais bastante diferenciadas (cidades do agronegócio, cidades mineradoras, cidades petrolíferas, complexos portuários, cidades logísticas, cidades dos galpões, polos de armazenagem e centros de distribuição vinculados ao comércio eletrônico etc.) cujas especificidades derivam dos diferentes encadeamentos setoriais e valores de uso produzidos. Entretanto, todas essas formas espaciais respondem, em nossa opinião, ao mesmo imperativo sistêmico: a reorganização do território em função das exigências da competitividade global e da reprodução ampliada do capital.


O terceiro eixo (atualização da urbanização subdesenvolvida) retomou criticamente formulações clássicas de Milton Santos e outros autores acerca, por exemplo, da urbanização corporativa e fragmentada. Sustentamos que muitas das morfologias socioterritoriais contemporâneas funcionam como verdadeiras cidades-empresa, organizadas prioritariamente para atender às necessidades das grandes corporações e dos circuitos globais de valorização. 


Reafirmamos, nesse sentido, a hipótese de que as cidades dos países dependentes frequentemente operam como “corpos estranhos, alógenos”, cuja racionalidade responde mais às exigências de agentes externos do que às necessidades internas da população e do território. Os municípios minerados foram apresentados como exemplos particularmente paradigmáticos dessa dinâmica, expressando a radicalização dos nexos entre vulnerabilidade social e degradação ambiental.


O quarto eixo (fragmentação crescente do território) concentrou-se na hipótese de aprofundamento das economias de enclave e da formação de novos recortes espaciais competitivos. Argumentamos que o atual padrão de reprodução do capital tende a enfraquecer encadeamentos intersetoriais e inter-regionais, aprofundando desigualdades territoriais. 


Colocamos em questão, assim, a formação de enclaves competitivos voltados à exportação, relativamente desconectados da integração nacional, bem como a constituição de “recortes espaciais competitivos”, cuja lógica já não corresponde ao enquadramento clássico da questão regional como “problema de integração e redução de desigualdades”. O caso de MATOPIBA foi mobilizado como exemplo paradigmático dessa dinâmica, expressando a expansão recente da fronteira agrícola brasileira articulada ao imperativo da inserção competitiva global.


Também discutimos o conceito de capital switching, mobilizado a partir de David Harvey, para analisar a possível transferência de capitais dos circuitos rentista-neoextrativistas para os circuitos imobiliários e turístico-imobiliários. Nesse ponto, destacamos fenômenos como o “agroluxo”, buscando interpretá-los à luz da noção de “enclaves fortificados”, desenvolvida por Teresa Pires Caldeira.


O quinto eixo (desconcentração e reconcentração urbana, com centralidade das metrópoles) buscou interpretar a dinâmica contraditória pela qual parte do dinamismo econômico e demográfico se desloca para cidades médias e regiões ligadas ao agronegócio, à mineração e à logística exportadora, enquanto as metrópoles preservam e reforçam suas funções de comando financeiro, tecnológico, corporativo e político. Em nossa opinião, ocorre uma combinação entre desconcentração produtiva e reconcentração do controle econômico e político, mantendo as metrópoles como nós estratégicos dos circuitos globais de valorização.


O sexto eixo (relação entre precarização do trabalho e precariedade da vida urbana) retomou a formulação da “tripla dilapidação da força de trabalho”, desenvolvida por Paulo Monsores, articulando superexploração do trabalho, espoliação urbana e expropriação secundária e financeira. Procuramos demonstrar que o atual padrão de reprodução do capital e a nova forma histórica da dependência aprofundam, simultaneamente, a precarização das relações de trabalho e a precariedade das condições de reprodução da vida urbana, intensificando e combinando exploração, endividamento e desigualdades socioespaciais.


Por fim, o sétimo eixo (papel do Estado na sustentação do novo padrão de acumulação) concentrou-se na transformação das funções estatais no contexto da transição do padrão urbano-industrial para o padrão exportador de especialização produtiva. Estabelecemos que o antigo Estado planejador e indutor do desenvolvimento cede lugar a um Estado crescentemente orientado pela promoção de parcerias público-privadas, concessões, flexibilização regulatória e incentivos às grandes empresas multinacionais e grupos financeiros. O comando dos investimentos estratégicos, das infraestruturas e dos circuitos logísticos torna-se, assim, cada vez mais subordinado às exigências da competitividade global e da valorização privada do capital. Destacamos, ainda no que tange a esse eixo, a importância dos grandes projetos de desenvolvimento e do neolocalismo competitivo na reorganização contemporânea da ordem urbano-regional brasileira.



Ideias urbanas, legitimação da nova ordem e formação de sujeitos coletivos


Nas considerações finais, enfatizamos duas dimensões que passaram a adquirir maior centralidade em nossa investigação: a dimensão da legitimação ideológica da ordem urbano-regional contemporânea e a questão da formação de sujeitos coletivos capazes de disputar os rumos de um novo projeto de desenvolvimento nacional.


Defendemos que a dependência contemporânea não se reproduz apenas no plano econômico-material, mas também no plano simbólico e epistemológico, por meio da difusão de ideias urbanas hegemônicas, como “cidade inteligente”, “cidade criativa” e “cidade global”. Esses modelos contribuem para legitimar a competitividade territorial, a flexibilização regulatória e a subordinação das cidades e regiões do país aos circuitos globais.


Ao mesmo tempo, as contradições produzidas pelo atual padrão de reprodução do capital colocam como desafio político e histórico a construção de novos sujeitos coletivos, capazes de construir alternativas à hegemonia do bloco rentista-neoxtrativista de poder.


Ressaltamos, no que concerne a esse aspecto, que processos como a precarização do trabalho, a fragmentação territorial, a espoliação urbana e o avanço do neoextrativismo tendem a produzir experiências sociais comuns (ainda que dispersas e/ou atomizadas) entre trabalhadores precarizados, populações periféricas, movimentos urbanos, povos tradicionais, grupos atingidos por grandes projetos e pela expansão das fronteiras de recursos. Contudo, procuramos enfatizar, igualmente, que essa articulação não está dada previamente nem ocorre de forma automática. Ela constitui, antes, uma possibilidade histórica aberta pelas próprias contradições da urbanização dependente contemporânea.


Reflexões críticas e desafios teórico-políticos suscitados pelo debate


A etapa final da seção, após a apresentação, foi marcada por um amplo debate com pesquisadoras e pesquisadores presentes, cujas intervenções contribuíram para aprofundar questões teóricas, metodológicas e políticas associadas às hipóteses do projeto. As discussões revelaram, sobretudo, a necessidade de avançar na compreensão das formas contemporâneas de constituição dos sujeitos, das novas modalidades de conflito socioterritorial e das dimensões ideológicas que sustentam a atual ordem urbano-regional.


Uma das primeiras reflexões levantadas tomou como referência o caso de Goiânia, especialmente no que se refere às transformações recentes do mercado imobiliário e à dimensão simbólica e ideológica de legitimação da nova ordem urbano-regional. Chamou-se atenção para o fato de que parte importante da hegemonia correspondente ao advento do novo padrão de reprodução do capital parece apoiar-se na difusão de um imaginário associado aos modos de vida das novas elites ligadas ao agronegócio, às finanças, ao setor imobiliário e aos circuitos globais de consumo. Isto é, destacou-se como determinados estilos de vida, padrões de consumo e formas espaciais operam como referências aspiracionais, produzindo identificação social e adesão simbólica a valores associados ao empreendedorismo, à riqueza patrimonial e à competitividade individualizada etc.


O tema do chamado “agroluxo” surgiu como exemplo particularmente importante para compreender a dimensão cultural e ideológica da urbanização contemporânea, evidenciando como formas seletivas e ostentatórias de consumo e moradia ajudam a legitimar e naturalizar a nova ordem urbano-regional. Argumentou-se, assim, que a força desse imaginário constitui um elemento central para compreender as dificuldades de construção de alternativas políticas.


No debate sobre o setor portuário, foi sublinhada a importância de considerar a dimensão da ação dos sujeitos na análise dos processos de reestruturação que estão em curso no país. Sustentou-se que pesquisas sobre a expansão das áreas portuárias e retroportuárias deveriam incorporar não apenas a análise das infraestruturas e fluxos econômicos, mas também as experiências concretas dos trabalhadores submetidos a essas transformações, especialmente estivadores e trabalhadores portuários. Trata-se de investigar como esses sujeitos vivenciam, efetiva e cotidianamente, o advento da nova ordem urbano-regional.


Foi nesse espírito que emergiu, igualmente, uma reflexão mais ampla sobre os próprios “espaços” de constituição dos sujeitos coletivos. Defendeu-se que, diferentemente do período urbano-industrial, o atual padrão de reprodução do capital já não produz grandes espaços concentrados de sociabilidade operária, organização política e construção de identidades coletivas, seja na esfera da produção propriamente dita, seja nas formas clássicas de associação e representação sindical. A fragmentação territorial, a dispersão produtiva, a plataformização do trabalho e a diversificação das formas de exploração tendem a produzir conflitos mais pulverizados e experiências sociais mais heterogêneas.


Ou seja, uma das questões centrais levantadas no debate foi justamente como identificar os pontos de convergência, identidade e articulação possíveis entre atores sociais submetidos a formas distintas, embora articuladas, de precarização, expropriação e espoliação. Colocou-se, portanto, o desafio de compreender em que espaços, escalas e condições poderiam emergir novas formas de articulação política capazes de reunir trabalhadores precarizados, populações periféricas, grupos atingidos pelo neoextrativismo etc. Mencionou-se, inclusive, a possibilidade de incorporar o conceito de multidão, associado às formulações de Antonio Negri e Michael Hardt, como chave analítica potencial para pensar formas mais heterogêneas e descentralizadas de composição política.


Também se destacou a dificuldade metodológica e política de realizar pesquisas com novos segmentos submetidos à disciplina do trabalho plataformizado, especialmente trabalhadores de galpões logísticos e entregadores vinculados às plataformas digitais. O medo de retaliações, a extrema precarização das relações de trabalho e a ausência de formas mais estáveis de organização coletiva tornam particularmente difícil o acesso a esses trabalhadores e a construção de investigações de maior profundidade qualitativa. Por outro lado, as formas atuais de representação sindical desses segmentos frequentemente assumem caráter mais adaptativo e corporativo, funcionando mais como mecanismos de mediação e contenção dos conflitos do que propriamente como instrumentos de organização política e luta social.


No debate sobre as metrópoles, surgiu uma importante reflexão em torno do par metropolização/desmetropolização. Sustentou-se, mais uma vez, que a aparente perda de centralidade produtiva de determinadas metrópoles não implica necessariamente redução de seu poder econômico e político. Assim, seria necessário recuperar categorias clássicas como cidades primadas e colonialismo interno, utilizada por autores como Anibal Quijano, para interpretar dialeticamente essa dualidade. 


O conceito de colonialismo interno, particularmente, permitiria enfatizar precisamente a função das metrópoles na mediação entre a reprodução do capital nacional e os circuitos globais do capital. Foi assinalada, igualmente, a necessidade de avançar na análise das estratégias contemporâneas da produção imobiliária e seus impactos nas distintas modalidades de incorporação.


Retomando o debate sobre a questão dos sujeitos, acrescentou-se, além disso, a importância das contribuições de Ernesto Laclau para compreender os processos contemporâneos de fragmentação política. A teoria do populismo desse autor poderia oferecer elementos importantes para pensar os mecanismos de construção contingente de identidades coletivas em contextos marcados por heterogeneidade social e dispersão dos conflitos.


Por fim, a discussão sobre a bacia do Rio Doce e os sujeitos atingidos pelos desastres da mineração permitiu aprofundar a reflexão acerca das formas contemporâneas de constituição dos conflitos socioterritoriais. Defendeu-se que os processos de organização coletiva nesses contextos frequentemente não se estruturam a partir de identidades estritamente classistas ou corporativas, mas por meio da experiência comum do desastre e da desterritorialização. Quer dizer, a própria experiência da destruição ambiental, da perda das condições de vida e da ruptura dos vínculos territoriais constitui um elemento articulador entre sujeitos extremamente heterogêneos (trabalhadores, pequenos produtores, pescadores, moradores urbanos, comunidades tradicionais, populações deslocadas etc.). Foram feitas, quanto a esse aspecto, referências aos conceitos de desastralização e refugiados do desenvolvimento.


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Elaboração: El Homo Urbanus.

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