Memória - 08/07/2026 - Participação: Prof. Dr. Paulo Monsores
- Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz

- 12 de jul.
- 24 min de leitura
Atualizado: 18 de jul.
CRISE ESTRUTURAL DO CAPITAL, PLATAFORMIZAÇÃO E REESTRUTURAÇÃO URBANO-REGIONAL NO BRASIL
Por Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
Introdução
As dinâmicas do capitalismo do século XXI estão induzindo mudanças profundas no mundo do trabalho e na esfera da produção social do espaço. Entre elas, cabe destacar a expansão das plataformas digitais. É nesse horizonte que se insere a contribuição do professor Paulo Monsores aos debates desenvolvidos no âmbito do projeto. Baseada na tese de doutorado recém-defendida pelo autor, sua apresentação partiu de uma questão central: de que modo a plataformização do trabalho e do urbano se articula à crise estrutural do capital, intensificando as contradições da urbanização dependente no Brasil e se manifestando, no espaço do Rio de Janeiro, em novas formas de precarização das condições laborais e de vida da classe trabalhadora?
Em nossa opinião, ao tomar como objeto privilegiado a atuação da Uber e o trabalho dos motoristas por aplicativo na cidade do Rio de Janeiro, Paulo Monsores desloca a discussão para além da análise das inovações tecnológicas ou dos novos modelos de negócio. Sua preocupação consiste em compreender como a plataformização redefine as relações entre os circuitos da economia urbana, aprofundando formas historicamente presentes de dependência, informalidade e superexploração do trabalho. Desse modo, sua pesquisa oferece importantes elementos que expressam uma das dimensões centrais da nova ordem urbano-regional-brasileira, isto é, a crescente articulação entre digitalização, financeirização e precarização das condições de reprodução social nas cidades.
Seguindo os rastros da plataformização: o percurso metodológico da pesquisa
Antes de sintetizarmos a apresentação do autor, cabe destacar a riqueza metodológica de sua tese, que ainda se encontra em processo de revisão após a defesa. Longe de restringir-se a uma investigação sobre motoristas por aplicativo, a tese articula diferentes procedimentos de pesquisa capazes de conectar a economia política do capitalismo contemporâneo às formas concretas de produção do espaço urbano. Para tanto, parte de uma ampla revisão bibliográfica, mobilizando diversos autores da tradição marxista, da geografia crítica e dos estudos urbanos. Soma-se a isso a utilização de dados estatísticos e documentais, o acompanhamento de decisões judiciais, de documentos institucionais e das estratégias de atuação das plataformas digitais. A pesquisa incorpora, igualmente, trabalhos de campo, observações diretas em diferentes pontos de concentração de motoristas no Rio de Janeiro, posteriormente sistematizadas por meio de cartografias. Reúne informações obtidas a partir do monitoramento de grupos de WhatsApp. Cabendo considerar, por fim, a própria experiência do autor como motorista de aplicativo durante um período da investigação.
O resultado é uma pesquisa que consegue articular diferentes níveis de abstração, conectando as determinações estruturais do capitalismo do século XXI às práticas cotidianas dos trabalhadores plataformizados. Sendo assim, defendemos que sua estratégia metodológica se aproxima do projeto formulado por David Harvey, em Espaços de esperança, para quem a crítica marxista deve ser capaz de percorrer sucessivamente as diferentes escalas e níveis de análise da realidade social. O que deve ser feito, ainda segundo Harvey (2009), partindo dos processos globais de acumulação para alcançar a experiência concreta dos sujeitos e, em última instância, a escala do próprio corpo.
O Capítulo 3 da tese, especialmente a seção 3.3, que sugerimos como leitura de referência, ocupa posição particularmente importante. É nele que o autor demonstra como as plataformas digitais não atuam apenas sobre os segmentos mais modernos da economia, mas subordinam diretamente o circuito inferior da economia urbana, reorganizando as formas de circulação, mobilidade, consumo e trabalho nas grandes cidades brasileiras. Trata-se, a nosso ver, de uma formulação bastante original, que atualiza e amplia um dos debates clássicos inaugurados por Milton Santos, isto é, o debate acerca das relações entre os circuitos superior e inferior da economia urbana dos países subdesenvolvidos.
Por fim, cabe destacar uma das principais contribuições da tese para o projeto: a noção de tripla dilapidação da força de trabalho. A categoria proposta pelo autor procura sintetizar diferentes mecanismos da dinâmica capitalista, articulando a superexploração do trabalho (formulada por Ruy Mauro Marini) à espoliação urbana (desenvolvida por Lúcio Kowarick) e incorporando, ainda, as novas formas de expropriação (sobretudo financeira) que acompanham a expansão das plataformas digitais. Em nossa perspectiva, trata-se de uma elaboração com grande potencial heurístico, capaz de contribuir para a compreensão das novas formas de reprodução do capitalismo dependente e de seus efeitos sobre a urbanização brasileira.
Exposição do autor: da crise estrutural do capital aos motoristas de aplicativo
Ao iniciar sua exposição, Paulo Monsores apresentou a estrutura geral da tese, organizada em três capítulos que procuram mobilizar, de forma permanente, elaboração teórica e investigação empírica. Segundo o autor, o percurso da pesquisa avança das determinações mais gerais do capitalismo contemporâneo às suas manifestações concretas na cidade do Rio de Janeiro. O primeiro capítulo discute os fundamentos da crise estrutural do capital e da reestruturação produtiva permanente. O segundo examina a manifestação dessa crise como crise urbana, enfatizando o papel da plataformização na produção do espaço. Por fim, o terceiro capítulo analisa empiricamente a uberização do trabalho na metrópole carioca, tomando-a como expressão privilegiada das transformações recentes da urbanização dependente.
Ao justificar essa opção metodológica, o autor procurou responder a uma questão aparentemente simples: por que iniciar uma pesquisa sobre motoristas por aplicativo discutindo a crise estrutural do capitalismo? Em sua perspectiva, a chamada “nova morfologia do trabalho” não pode ser compreendida como um fenômeno isolado ou exclusivamente tecnológico. Ao contrário, ela constitui uma expressão das sucessivas respostas formuladas pelo capital diante de sua crise estrutural iniciada no final da década de 1960. Assim, a expansão das plataformas digitais deve ser interpretada como parte de um processo mais amplo de reestruturação produtiva permanente, responsável por reorganizar simultaneamente a produção, o trabalho e o espaço urbano.
Recorrendo a autores como István Mészáros, Robert Kurz, Immanuel Wallerstein, Reinaldo Carcanholo e Michael Roberts, Paulo Monsores argumentou que a crise contemporânea apresenta características qualitativamente distintas das crises cíclicas tradicionais. Sua profundidade, duração e alcance global indicariam tratar-se de uma crise estrutural, marcada pela persistência de tendências de longo prazo, como a insuficiente produção de mais-valor, a queda das taxas de lucro, o enfraquecimento dos investimentos produtivos e a expansão do desemprego crônico.
Ainda segundo o autor, as respostas construídas desde os anos 1970 (entre elas a reestruturação produtiva, as políticas neoliberais, a liberalização financeira, a intensificação da abertura comercial e, mais recentemente, a digitalização da economia) não solucionaram essas contradições. Ao contrário, contribuíram para aprofundá-las. Mesmo os avanços associados à chamada Indústria 4.0 não teriam revertido essa tendência, caracterizando um longo período de estagnação e aprofundamento das dificuldades de valorização do capital. O gráfico abaixo, utilizado pelo autor, demonstra essa tendência.
Gráfico 1 – Taxa de lucro nos países do G20 (%)

Fonte: Roberts (2022).
Segundo o autor, essa dinâmica assume características particulares nas formações sociais dependentes. No caso brasileiro, a inserção subordinada na mundialização neoliberal aprofundou os traços históricos da dependência e favoreceu a consolidação de um novo padrão de reprodução do capital, identificado como rentista-neoextrativista. É nesse contexto que emerge a plataformização da economia. As plataformas digitais aparecem, assim, menos como uma ruptura tecnológica do que como uma das estratégias contemporâneas de reorganização da acumulação, permitindo ampliar mecanismos de exploração do trabalho, extração de rendas e controle territorial. A partir desse diagnóstico, o segundo capítulo da tese procura compreender de que maneira a crise estrutural e a reestruturação produtiva permanente se expressam na produção do espaço urbano.
Ao abordar essa questão, Paulo Monsores recuperou a hipótese lefebvreana da sociedade urbana, posteriormente desenvolvida por Neil Brenner sob a formulação da urbanização planetária. Segundo sua interpretação, a expansão das relações capitalistas realiza-se cada vez mais por meio da produção do espaço urbano, fazendo com que a própria urbanização constitua uma das principais formas de materialização da crise estrutural. Nesse cenário, a plataformização do trabalho e do espaço aparece como estratégia destinada a ampliar a fluidez da acumulação e a prolongar as condições de valorização do capital. Assim, as empresas-plataforma deixam de atuar apenas como intermediárias de serviços, tornando-se o núcleo organizador de um amplo ecossistema tecnológico baseado em: infraestruturas digitais, centros de dados, inteligência artificial, sistemas de monitoramento, algoritmos e redes de comunicação que atravessam praticamente todas as dimensões da vida social.
Essa reorganização das condições gerais da acumulação produz profundas transformações na própria governança urbana. O autor chamou atenção para a difusão dos chamados projetos de “cidades inteligentes”, nos quais plataformas digitais oferecem soluções para o planejamento urbano, a gestão da mobilidade e a administração de serviços públicos. O caso da cidade do Rio de Janeiro foi utilizado como exemplo dessa tendência, tanto pela consolidação de estruturas como o Centro de Operações e Resiliência quanto pelos investimentos destinados à implantação do projeto Rio AI City e pela parceria firmada entre a Prefeitura e a Uber para a instalação de um centro de desenvolvimento tecnológico. Mencionou, igualmente, iniciativas como a plataforma Uber Movement, por meio da qual a empresa compartilha dados de deslocamento com administrações públicas, buscando consolidar-se como parceira estratégica da gestão urbana e ampliar sua legitimidade institucional.
Na interpretação do autor, essas transformações revelam mudanças importantes na dinâmica dos circuitos do capital discutidos por David Harvey. A crescente articulação entre infraestruturas físicas, tecnologias digitais, finanças e produção imobiliária faz com que os circuitos secundário e terciário se tornem progressivamente indissociáveis, conferindo às plataformas papel cada vez mais central na organização da vida urbana. A Figura a seguir, igualmente utilizada pelo autor, busca demonstrar esse processo.
Figura 1 – Fusão dos circuitos secundário (imobiliário) e terciário (ciência e tecnologia), tal como originalmente concebidos por David Harvey

Fonte: Elaborado pelo autor.
Ainda conforme o autor, essas dinâmicas aprofundam processos de privatização, de empresariamento urbano e a “opacidade decisória”, uma vez que parcela significativa das decisões relativas ao funcionamento das cidades é mediada por algoritmos orientados prioritariamente pelos interesses econômicos das corporações. Tal processo contribuiria, ainda, para o aprofundamento da crise urbana, entendida, na formulação de Ribeiro, Diniz e Matela (2024), como a incapacidade das grandes aglomerações de assegurar condições adequadas de reprodução da vida social. Para Monsores, embora essa tendência também possa ser observada nas metrópoles dos países centrais, ela assume intensidade muito maior nas formações dependentes, onde a reestruturação urbano-regional acompanha a consolidação do novo padrão de reprodução do capital.
Foi justamente nesse contexto que Paulo Monsores situou sua principal contribuição ao debate sobre urbanização e dependência. Se a precarização do trabalho constitui uma novidade relativa para as economias centrais, nas formações periféricas ela sempre integrou a dinâmica do capitalismo dependente, expressando-se historicamente por meio do ganho, do bico, da viração, da marginalidade e de outras formas de inserção precária no mercado de trabalho. A novidade contemporânea, portanto, não reside na precariedade em si, mas na maneira como as plataformas digitais organizam, disciplinam e capturam essas atividades, subordinando diretamente o circuito inferior da economia urbana às estratégias de acumulação do circuito superior. Trata-se, segundo o autor, de uma nova informalidade mediada por algoritmos, na qual práticas historicamente associadas à sobrevivência popular são incorporadas aos mecanismos globais de valorização do capital, configurando uma “subsunção real da viração”, conforme os termos de Abílio (2017).
A subordinação do circuito inferior e a nova informalidade plataformizada
Como já sugerido, para o autor, aquilo que aparece como novidade nos países centrais sob a forma da gig economy corresponde, no caso brasileiro, a uma dinâmica historicamente constitutiva do capitalismo dependente. O diferencial introduzido pelas plataformas digitais consiste, portanto, na capacidade de capturar economias populares já existentes, baseadas em relações de reciprocidade, estratégias de sobrevivência e atividades tradicionalmente vinculadas ao circuito inferior da economia urbana. Em vez de eliminar essas formas de trabalho, as plataformas as subordinam diretamente. A existência de um amplo circuito inferior, caracterizado por elevada informalidade, força de trabalho sobrante e experiências anteriores de transporte alternativo, como lotações e mototáxis, aparece, nessa perspectiva, como uma das principais condições para o sucesso da Uber nas metrópoles brasileiras.
Essa interpretação foi reforçada pela própria descrição da estratégia territorial da empresa. Conforme destacou Monsores, a Uber iniciou suas operações no Brasil durante os megaeventos realizados na cidade do Rio de Janeiro, utilizando a metrópole como laboratório para consolidar seu modelo de negócios, antes de expandi-lo para as principais regiões metropolitanas do país. Ao mesmo tempo, aproveitou-se da fragmentação da regulação municipal dos transportes para introduzir seus serviços, pressionando posteriormente por marcos regulatórios mais favoráveis em escalas superiores de governo. A concentração inicial de suas operações nas maiores metrópoles e capitais regionais demonstra que a empresa depende justamente dos atributos característicos das grandes cidades periféricas: abundância de força de trabalho disponível, precariedade dos sistemas de transporte coletivo, elevados tempos de deslocamento e ampla difusão de atividades informais.
Nessas condições, as plataformas deixam de apenas coexistir com o circuito inferior da economia urbana e passam a reorganizá-lo diretamente. A Uber, empresa intensiva em capital, tecnologia e informação, típica do circuito superior, depende simultaneamente da incorporação de milhares de trabalhadores provenientes do circuito inferior e das formas precárias de trabalho que historicamente caracterizam as economias dependentes. Produz-se, assim, aquilo que o autor denomina uma subordinação direta do circuito inferior pelo circuito superior, mediante uma nova informalidade disciplinada por algoritmos.
A tripla dilapidação da força de trabalho: evidências empíricas da uberização
Partindo de dados da plataforma GigU, um aplicativo pago que auxilia os motoristas nas escolhas das corridas mais vantajosas, as observações do autor foram reforçadas por um amplo conjunto de evidências empíricas acerca das condições de vida e trabalho dos motoristas por aplicativo em todo o Brasil no ano de 2025.
Mobilizando esses dados secundários, o autor revelou, por exemplo, que a uberização está fortemente associada às dificuldades de inserção no mercado formal de trabalho. A maior parte dos motoristas possui mais de 35 anos de idade, apresenta escolaridade relativamente elevada, incluindo expressiva participação de trabalhadores com ensino superior. Muitos ingressaram na atividade por necessidade, seja em razão do desemprego, seja para complementar a renda. Para tantos outros, o trabalho por aplicativo constitui a principal ou única fonte de renda, e parcela significativa abandonaria imediatamente essa atividade caso tivesse acesso a uma ocupação mais bem remunerada.
Além disso, o autor frisou que a suposta autonomia propagandeada pelas plataformas constitui, na prática, uma forma de gerenciamento subordinado. Embora formalmente classificados como trabalhadores autônomos, os motoristas não definem o preço das corridas, desconhecem os critérios utilizados pelos algoritmos para calcular remunerações, encontram severas restrições para recusar viagens e estão sujeitos a bloqueios e desligamentos unilaterais, equivalentes a uma demissão sem qualquer proteção trabalhista. Ao mesmo tempo, a empresa controla rotas, tempos de deslocamento e diversos aspectos da prestação do serviço, configurando uma forma de comando algorítmico que combina “salário por peça”, sistemas de punição e mecanismos permanentes de vigilância.
Os indicadores econômicos apresentados pelo autor revelam a intensidade dessa exploração. Segundos os dados reunidos em sua tese, no Brasil, motoristas de aplicativo trabalham, em média, 52 horas semanais e obtêm renda líquida inferior a R$ 3 mil, sendo que mais da metade recebe menos desse valor. Na cidade do Rio de Janeiro, a jornada média alcança 54 horas semanais, para uma renda líquida aproximada de R$ 3.556. Mesmo assim, o rendimento por hora permanece inferior ao dos motoristas formais, ao passo que a contribuição previdenciária é reduzida, ampliando a vulnerabilidade futura.
A pesquisa demonstra, ainda, que a precarização do trabalho se articula diretamente à reprodução das desigualdades urbanas. Longas jornadas, ausência de descanso semanal, elevado comprometimento da renda com os custos do próprio trabalho e precariedade dos sistemas de transporte coletivo compõem aquilo que o autor identifica como um processo simultâneo de superexploração do trabalho e espoliação urbana. O autor mobilizou, por exemplo, os mapas a seguir para demonstrar como os moradores das periferias do Rio de Janeiro, muitos deles trabalhadores plataformizados, são justamente os que tem a maior parte de sua renda absorvida pelos custos com o transporte.
Figura 2 – Renda média mensal na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Fonte: Mapa da Desigualdade (Casa Fluminense).
Figura 3 – Peso da tarifa do transporte público: percentual da renda média comprometido com 44 passagens de ônibus municipais por mês.

Fonte: Mapa da Desigualdade (Casa Fluminense).
Essa situação é agravada pelo elevado nível de endividamento. Ainda conforme os dados secundários mobilizados pelo autor, 92% dos motoristas plataformizados declaram possuir dívidas. Em 68% dos casos elas comprometem despesas essenciais. Mais de 70% já deixaram de pagar contas básicas. Aproximadamente 74% trabalham simultaneamente em dois ou mais aplicativos para complementar seus rendimentos.
O autor ressaltou, ainda, o seguinte: ao oferecer linhas de crédito diretamente aos trabalhadores, inclusive mediante parcerias financeiras que permitem reter parte significativa da remuneração para pagamento das dívidas, as próprias plataformas participam dos mecanismos de expropriação financeira de seus trabalhadores. A superexploração do trabalho e a espoliação urbana são, assim, complementadas por formas contemporâneas de captura da renda por meio do endividamento, reforçadas inclusive pela incorporação de publicidade de apostas esportivas (bets) nos aplicativos.
Os impactos desses processos combinados aparecem também nas condições de saúde: cerca de 70% dos trabalhadores não possuem tempo ou renda suficientes para descansar, 89% relatam prejuízos à saúde mental e aproximadamente 40% sofreram acidentes ou adoeceram em decorrência do trabalho.
Em suma, para o autor, evidências como essas fundamentam a pertinência da noção de tripla dilapidação da força de trabalho, considerada como uma das principais expressões da urbanização dependente nos marcos do capitalismo de plataforma.
Questões e interlocuções com o autor
As questões que nós formulamos, na condição de animadores do projeto, concentraram-se, sobretudo, em três das principais contribuições da tese: a releitura da teoria dos circuitos da economia urbana, a categoria da tripla dilapidação da força de trabalho e as possibilidades de organização política dos trabalhadores plataformizados. Em todos os casos, procuramos, mais uma vez, estabelecer um diálogo entre as contribuições apresentadas e a agenda de pesquisa do projeto.
Em primeiro lugar, discutimos a hipótese de que a plataformização promove uma transformação qualitativa nas relações entre o circuito superior e o circuito inferior da economia urbana. Recuperando a formulação clássica de Milton Santos, observamos que esses circuitos mantinham relações de complementaridade, preservando, entretanto, relativa autonomia funcional. A tese de Paulo Monsores, por sua vez, sugere que essa configuração se altera profundamente à medida que as plataformas digitais passam a capturar, organizar e disciplinar diretamente atividades historicamente pertencentes ao circuito inferior. A partir dessa hipótese, estabelecemos um diálogo com um texto recente de Marcio Pochmann, no qual o autor sustenta que a plataformização consolida um modelo econômico profundamente excludente, caracterizado por um circuito superior cada vez mais sofisticado tecnologicamente, financeirizado, concentrado e empregador de um contingente proporcionalmente menor de trabalhadores. A questão colocada ao expositor consistiu, portanto, em compreender em que medida essa interpretação dialoga com sua própria formulação acerca da crescente fusão entre os circuitos da economia urbana e da capacidade das plataformas de mobilizar diretamente o trabalho e as formas de cooperação social produzidas no circuito inferior.
Ainda nesse contexto, recordamos que, conforme o debate clássico, uma das funções historicamente desempenhadas pelo circuito inferior consistia justamente em assegurar a reprodução cotidiana da imensa população pobre que permanecia relativamente à margem dos circuitos modernos da economia. Diante da hipótese apresentada por Paulo Monsores, perguntamos se a incorporação direta desse circuito às estratégias de acumulação das plataformas digitais não comprometeria precisamente essa função histórica. Em outras palavras, caso o circuito inferior deixe de operar como espaço relativamente autônomo de reprodução da vida para tornar-se parte integrante da lógica de valorização do capital monopolista digital, não estaríamos diante de um processo capaz de aprofundar significativamente a crise de reprodução social nas formações dependentes?
Como dito, a segunda questão concentrou-se sobre a noção de tripla dilapidação da força de trabalho. Conforme observado durante o debate, a categoria procura sintetizar três processos articulados entre si: a superexploração do trabalho, a espoliação urbana e as formas contemporâneas de expropriação, particularmente a expropriação financeira e a expropriação secundária de direitos historicamente conquistados pelos trabalhadores. Ressaltamos que, ao longo da apresentação, o autor demonstrou como o trabalhador plataformizado não apenas vende sua força de trabalho em condições particularmente precárias, mas financia os próprios meios de produção, assume integralmente os riscos econômicos da atividade, suporta custos crescentes associados à reprodução da vida urbana e permanece submetido a novos mecanismos de endividamento e captura de renda.
A propósito dessa elaboração, chamamos atenção para sua evidente afinidade com a teoria da superexploração formulada por Ruy Mauro Marini. Recordamos, nesse sentido, que Marini já havia demonstrado como a superexploração obriga o trabalhador a converter parte de seu fundo de consumo (destinado à alimentação, moradia, saúde etc.) em capital necessário ao processo de acumulação. A diferença observada na pesquisa residiria justamente na ampliação desse mecanismo, uma vez que o trabalhador passa também a financiar diretamente a infraestrutura material e tecnológica das grandes plataformas, adquirindo e mantendo automóveis, motocicletas, bicicletas, aparelhos celulares, planos de internet e outros meios indispensáveis ao exercício da atividade. A questão formulada ao autor procurou, assim, aprofundar essa reflexão: ou seja, considerando que a combinação entre superexploração e espoliação urbana já constituía um traço característico do capitalismo dependente, poderíamos afirmar que a expropriação financeira representa hoje o elemento distintivo da nova forma histórica de dependência, particularmente no que diz respeito às condições contemporâneas de reprodução da força de trabalho?
Por fim, discutimos as formas de conflito e resistência produzidas pelo capitalismo de plataforma. Para nós, a pesquisa demonstra de maneira convincente que o gerenciamento algorítmico tende a fragmentar e individualizar os trabalhadores, transformando antigos vínculos de solidariedade em relações de concorrência permanente. Entretanto, a própria investigação empírica identifica um movimento aparentemente contraditório. Ainda que submetidos a estratégias permanentes de isolamento, motoristas e entregadores acabam produzindo novos espaços de encontro e convivência, seja em aeroportos, postos de combustível, estacionamentos, centros comerciais ou outros pontos de concentração da demanda. Diante dessa constatação, perguntamos em que medida a própria espacialidade produzida pela plataformização recriaria, dialeticamente, condições materiais para a organização política desses trabalhadores. Em outras palavras, procuramos discutir se os mesmos processos responsáveis pela fragmentação da classe trabalhadora não estariam produzindo, simultaneamente, novas formas territoriais de solidariedade e ação coletiva.
Além das questões por nós formuladas, os demais pesquisadores presentes também contribuíram para ampliar o debate. Uma das intervenções retomou a discussão sobre os circuitos da economia urbana, perguntando em que medida a pesquisa incorporou a noção de “circuito superior marginal”. Além disso, foi questionado até que ponto governos municipais e o próprio governo federal vêm construindo políticas destinadas à inserção dos trabalhadores nas novas formas de trabalho mediadas por plataformas digitais.
Uma outra questão levantada procurou aprofundar a própria natureza do circuito inferior na conjuntura atual. Partindo da descrição apresentada pelo autor, questionou se a crescente apropriação das economias populares pelas plataformas digitais não autorizaria pensar na emergência de um novo circuito da economia urbana ou mesmo de um novo regime urbano correspondente ao capitalismo de plataforma. Nessa perspectiva, chamou-se atenção para o papel desempenhado pela financeirização e, sobretudo, pelo endividamento, observando que, independentemente de a atividade envolver automóveis, combustíveis ou outros custos operacionais, o elemento central da acumulação parece residir justamente na produção permanente de dívidas. Por fim, propôs-se uma reflexão sobre o imaginário construído em torno do automóvel e da promessa de autonomia e liberdade associada ao trabalho por aplicativos.
Respostas do autor: circuitos da economia urbana, financeirização e resistência dos trabalhadores
Ao responder às questões formuladas pelos pesquisadores, Paulo Monsores aprofundou algumas das principais hipóteses desenvolvidas ao longo da apresentação, especialmente aquelas relacionadas à reconfiguração dos circuitos da economia urbana, ao papel da financeirização na reprodução da força de trabalho e às possibilidades de organização política dos trabalhadores plataformizados.
Em relação ao debate sobre os circuitos da economia urbana, o autor reafirmou que a principal novidade introduzida pelo capitalismo de plataforma consiste no aprofundamento das relações entre o circuito superior e o circuito inferior da economia urbana. Segundo sua interpretação, a expansão das plataformas digitais tende, efetivamente, a produzir uma crise de reprodução social, uma vez que atividades historicamente desenvolvidas no âmbito do circuito inferior são progressivamente subordinadas aos mecanismos de valorização do circuito superior. Isso não significa, entretanto, o desaparecimento do circuito inferior. Pelo contrário, sua permanência continua sendo indispensável ao funcionamento das plataformas, precisamente porque elas dependem das formas populares de trabalho, dos serviços informais e das estratégias de sobrevivência construídas historicamente nas cidades periféricas. O que se altera é a natureza dessa relação: em vez de uma articulação relativamente indireta, passa a existir uma subordinação muito mais estreita e permanente do circuito inferior aos interesses do grande capital digital.
O autor observou, contudo, que essa captura nunca é completa. Mesmo no caso dos motoristas por aplicativo, permanecem práticas que escapam parcialmente ao controle das plataformas e continuam sendo organizadas segundo lógicas próprias do circuito inferior. Citou, por exemplo, os serviços informais desenvolvidos nos espaços de encontro entre motoristas, como a venda de refeições preparadas por trabalhadores para outros trabalhadores, bem como diferentes formas de cooperação cotidiana que permanecem relativamente autônomas em relação às empresas. Esses exemplos demonstrariam que a expansão das plataformas produz um maior imbricamento entre os circuitos, sem eliminar completamente as dinâmicas próprias das economias populares.
Nessa mesma direção, o autor esclareceu que talvez não seja adequado interpretar essas transformações como a constituição de um novo circuito da economia urbana. A seu ver, trata-se antes de uma nova configuração das relações entre os circuitos já identificados por Milton Santos. Também observou que, apesar do desenvolvimento posterior da noção de circuito superior marginal, essa categoria não parece adequada para caracterizar as plataformas digitais, uma vez que empresas como a Uber apresentam atributos típicos do circuito superior, especialmente no que se refere à elevada intensidade tecnológica, ao controle de grandes volumes de dados e, sobretudo, à sua crescente financeirização.
Ao comentar o diálogo estabelecido durante o debate com as formulações de Marcio Pochmann, o autor observou que não existe propriamente uma divergência entre as duas interpretações. Em sua avaliação, embora esses trabalhadores não apareçam formalmente como empregados das grandes corporações, eles permanecem amplamente controlados, organizados e mobilizados pelas plataformas digitais.
As respostas relativas à categoria da tripla dilapidação da força de trabalho concentraram-se, sobretudo, na crescente importância da expropriação financeira. Paulo Monsores observou que a dívida, evidentemente, não constitui um fenômeno novo, estando presente em diferentes momentos da história do capitalismo e mesmo em períodos anteriores. O elemento distintivo da conjuntura atual residindo no fato de que ela deixa de desempenhar um papel secundário na reprodução da força de trabalho para converter-se em um mecanismo estrutural da acumulação contemporânea. Segundo sua interpretação, grandes bancos, instituições financeiras e as próprias plataformas digitais passaram a atuar de maneira articulada para transformar os orçamentos domésticos dos trabalhadores em ativos financeiros, convertendo parcelas crescentes da renda popular em fluxos permanentes de remuneração do capital financeiro.
Nessa perspectiva, o trabalhador plataformizado não apenas financia os próprios meios de produção, mas depende cada vez mais do crédito para realizar seu “consumo produtivo”, isto é, os gastos necessários para manter sua própria atividade de trabalho. A dívida torna-se, assim, condição para a continuidade da atividade laboral e, simultaneamente, um mecanismo permanente de captura de renda. O autor ressaltou que muitos trabalhadores permanecem vinculados ao trabalho por plataformas justamente porque não conseguem romper com o serviço da dívida, inclusive quando essa é contraída junto às próprias empresas responsáveis pela intermediação do trabalho. Por essa razão, qualificou a dívida como um verdadeiro mecanismo biopolítico de controle social, capaz de manter os trabalhadores permanentemente subordinados (escravidão por dívida).
Em relação às formas de organização coletiva, reconheceu que os processos de endividamento e a própria gestão algorítmica dificultam significativamente a construção de movimentos coletivos entre os trabalhadores plataformizados. Em sua opinião, embora existam espaços de encontro, tanto presenciais quanto virtuais, eles raramente se convertem em formas estáveis de organização política. As associações existentes, segundo o autor, tendem a funcionar mais como “clubes de benefícios” do que propriamente como entidades representativas dos interesses dos trabalhadores.
O autor também destacou a dificuldade de interlocução entre esses trabalhadores e as organizações políticas tradicionais. Em sua avaliação, os mandatos parlamentares identificados com a esquerda ainda estabelecem pouco diálogo com os trabalhadores por aplicativo, ao mesmo tempo que o próprio governo federal demonstra dificuldades para compreender as especificidades desse segmento. Como exemplo, mencionou que diversos dispositivos incorporados ao projeto de regulamentação elaborado pelo governo reproduzem demandas formuladas pelas próprias empresas, como a manutenção da jornada de até doze horas diárias.
Por fim, relativizou a hipótese de que os novos espaços de encontro produzidos pela plataformização constituiriam, por si só, ambientes favoráveis à organização coletiva. Segundo relatou, embora esses pontos apresentem potencial para a construção de vínculos entre os trabalhadores, predominam neles práticas marcadas pelo isolamento e pela concorrência individual. Mesmo quando permanecem fisicamente próximos, muitos motoristas permanecem isolados em seus próprios veículos, preocupados em elaborar estratégias individuais para obter corridas ou reduzir o tempo de espera, em vez de construir formas permanentes de solidariedade. Ainda assim, o autor reconheceu que esses espaços possuem um potencial organizativo importante, desde que articulados a um trabalho político de base capaz de identificar os padrões espaciais produzidos pela própria dinâmica da plataformização e transformá-los em oportunidades para a organização coletiva dos trabalhadores.
Observações adicionais: a crise do metabolismo urbano
Como defendido por Monsores, a crise urbana contemporânea deve ser compreendida como uma das principais manifestações da crise estrutural do capital. Para nós, essa interpretação pressupõe reconhecer que o papel desempenhado pelo espaço urbano na dinâmica capitalista sofreu uma transformação profunda nas últimas décadas. Façamos, então, algumas observações adicionais a respeito desse aspecto.
Durante o capitalismo industrial, a cidade constituía o espaço privilegiado da concentração produtiva. Sua função consistia em reunir matérias-primas, infraestrutura, ferrovias, portos e força de trabalho em torno das grandes unidades industriais, reduzindo custos de circulação e ampliando a produtividade. Ao mesmo tempo, o urbano desempenhava um papel decisivo na reprodução da força de trabalho, mediante a provisão de moradia operária, transporte coletivo, saneamento e outros equipamentos públicos indispensáveis ao funcionamento da grande indústria. Não por acaso, as reformas urbanas do final do século XIX e início do século XX foram um verdadeiro laboratório de experimentação institucional, acompanhando a consolidação da grande indústria e das primeiras políticas que, posteriormente, dariam origem ao Estado de Bem-Estar Social. Durante esse período, ainda que de forma contraditória, estabeleceu-se uma relativa convergência entre as necessidades da reprodução do capital e da reprodução da força de trabalho, funcionando como uma importante contratendência às crises do capitalismo industrial.
No capitalismo de plataforma, essa relação é profundamente alterada. O urbano deixa de constituir apenas uma condição geral da produção para transformar-se na própria infraestrutura de circulação de dados, logística, controle algorítmico e extração de valor. As plataformas digitais utilizam o território metropolitano como matéria-prima de seus processos de acumulação, apropriando-se da infraestrutura urbana existente para extrair rendas derivadas da circulação, da intermediação de serviços e da captura de dados.
Essa transformação altera igualmente as formas de reprodução da força de trabalho. Os custos anteriormente assumidos pelas empresas são progressivamente transferidos aos próprios trabalhadores, que financiam seus instrumentos de trabalho (veículos, motocicletas, bicicletas, aparelhos celulares, planos de internet e combustível) sob a ideologia do empreendedorismo. Por sua vez, a moradia torna-se crescentemente financeirizada, enquanto os espaços destinados ao descanso, à alimentação e à reprodução cotidiana tornam-se fragmentados. O urbano assume, assim, uma feição marcada pela uberização da vida cotidiana, na qual tanto o trabalho quanto as próprias condições de reprodução social convertem-se em novas fronteiras da valorização do capital.
Também o papel do Estado sofre uma inflexão significativa. Se, durante o capitalismo industrial, sua atuação esteve associada à construção das condições gerais de reprodução da força de trabalho e ao planejamento urbano, no capitalismo de plataforma o Estado tende a assumir a posição de facilitador da financeirização e da digitalização da cidade. A expansão das parcerias público-privadas, a flexibilização das normas urbanísticas e trabalhistas, a exploração comercial da infraestrutura pública por empresas privadas e a difusão das chamadas Smart Cities expressam essa mudança. O Estado deixa de atuar prioritariamente como construtor da cidade para adequá-la às exigências dos fluxos financeiros, digitais e logísticos, recorrendo cada vez mais ao uso de dados produzidos pelas próprias plataformas para fins de gestão urbana, segurança e controle da circulação.
Em nossa perspectiva, essa dinâmica pode ser compreendida a partir das categorias de “parasitismo espacial” e “gestão tecnocrática da crise”. De um lado, plataformas como Uber e Airbnb utilizam ruas, calçadas, infraestrutura viária e o próprio estoque imobiliário produzido historicamente com recursos públicos para extrair valor e dados, sem arcar proporcionalmente com os custos de manutenção dessas estruturas nem com os direitos sociais dos trabalhadores que garantem seu funcionamento. De outro, o enfrentamento da crise urbana tende a ser substituído por formas crescentes de vigilância, monitoramento algorítmico e gestão tecnocrática da circulação, deslocando o foco das determinações estruturais da desigualdade para soluções baseadas em tecnologias de controle e eficiência urbana.
Nesse contexto, entendemos que a crise urbana dever interpretada como uma crise do metabolismo urbano. Como se sabe, a cidade constitui um ecossistema artificializado que depende de fluxos permanentes de energia, água, alimentos e matérias-primas, devolvendo resíduos, calor e poluição ao meio ambiente. Sob a lógica da acumulação capitalista, esse metabolismo entra em crise crônica. A expansão imobiliária exige volumes crescentes de cimento, aço, água e energia, destruindo as próprias bases biofísicas da reprodução urbana, mediante a impermeabilização dos solos, a destruição de mananciais, a canalização dos rios e a produção permanente de escassez ambiental.
Mas é necessário dizer, por fim, que essa ruptura metabólica se manifesta de forma profundamente desigual. Enquanto os espaços valorizados concentram infraestruturas modernas, áreas verdes, abastecimento de água e equipamentos urbanos de qualidade, as periferias convertem-se em verdadeiras zonas de descarte, reunindo lixões, aterros, indústrias poluentes, áreas sujeitas a deslizamentos e inundações, além dos principais impactos dos eventos climáticos extremos. As enchentes deixam de constituir simples desastres naturais para revelar a combinação entre especulação imobiliária, racismo ambiental e degradação biofísica do território. Em suma, ao destruir o patrimônio das famílias trabalhadoras, interromper sua mobilidade cotidiana, ampliar seu endividamento e agravar processos de adoecimento físico e mental, esses eventos expressam a própria incapacidade do capitalismo contemporâneo de reproduzir-se sem destruir, simultaneamente, as condições sociais e ecológicas que sustentam a vida urbana.
Sínteses complementares entre a pesquisa do autor, as hipóteses e os eixos analíticos do projeto
Como se observa no quadro a seguir, a pesquisa de Paulo Monsores oferece importantes elementos para compreender a plataformização como um dos principais vetores da reestruturação da ordem urbano-regional brasileira. Sem dúvida, essas sínteses reforçam o potencial da tese para subsidiar o desenvolvimento das hipóteses e da agenda de pesquisa coletiva do projeto.
Eixos analíticos | Sínteses e/ou desdobramentos possíveis |
Urbanização planetária e/ou extensiva | A pesquisa atualiza o debate sobre a urbanização planetária ao demonstrar que a plataformização constitui uma das principais formas contemporâneas de produção do espaço urbano. Retomando Lefebvre e Neil Brenner, o autor argumenta que as plataformas digitais deixaram de atuar apenas como intermediárias de serviços para assumir funções centrais na organização da produção, da circulação e da gestão urbana. A expansão das chamadas cidades inteligentes, a incorporação crescente de sistemas algorítmicos e a atuação das plataformas como parceiras das administrações públicas evidenciam novas formas de extensão da urbanização, mediadas pela digitalização e pela captura de dados. |
Homogeneização e diferenciação do território | A pesquisa demonstra que a expansão das plataformas digitais difunde formas relativamente homogêneas de organização do trabalho, gestão algorítmica e captura de dados em diferentes cidades e países. Entretanto, essa racionalidade geral adapta-se às especificidades das formações dependentes, apropriando-se de estruturas historicamente constituídas do circuito inferior da economia urbana. A homogeneização promovida pelas plataformas realiza-se, portanto, mediante a incorporação diferenciada de formas locais de informalidade, mobilidade e reprodução social. |
Urbanização subdesenvolvida | Um dos principais argumentos da tese consiste em demonstrar que a plataformização não supera os traços históricos da urbanização dependente, mas se apoia precisamente neles para ampliar a acumulação. A existência de elevado desemprego estrutural, ampla informalidade, precariedade dos sistemas de transporte e profundas desigualdades urbanas constitui uma das principais vantagens competitivas das plataformas digitais nos países periféricos. A urbanização subdesenvolvida deixa de representar apenas um obstáculo ao desenvolvimento capitalista para converter-se em condição ativa de reprodução do capitalismo de plataforma. |
Fragmentação do território | A pesquisa evidencia que as plataformas digitais reforçam processos de fragmentação territorial e social. Além de aprofundarem a individualização e o isolamento dos trabalhadores, exploram a fragmentação institucional da gestão urbana, particularmente da regulação municipal dos transportes, para consolidar sua inserção territorial. Ao mesmo tempo, embora produzam novos pontos de concentração espacial dos trabalhadores, predominam estratégias de gestão que dificultam sua organização coletiva e reforçam a concorrência individualizada entre motoristas e entregadores. |
Desconcentração/ reconcentração urbana | Embora o trabalho não tenha esse eixo como foco principal, demonstra que a expansão das plataformas ocorre de maneira altamente concentrada nas principais metrópoles brasileiras e em suas áreas de influência regional. O Rio de Janeiro foi utilizado como laboratório inicial da Uber no país, antes da expansão para as demais regiões metropolitanas e capitais regionais. A pesquisa sugere, assim, que a digitalização não elimina a centralidade metropolitana, mas reforça o papel das grandes cidades como espaços privilegiados de experimentação, comando e difusão das novas formas de acumulação. |
Conexão entre a precariedade do trabalho e a precariedade da vida urbana | Trata-se, provavelmente, do principal ponto de convergência entre a tese e as hipóteses do projeto. O autor demonstra que a precarização do trabalho plataformizado é inseparável da precarização das condições urbanas de reprodução da força de trabalho. Longos deslocamentos, deficiência do transporte público, elevados custos de mobilidade, endividamento, jornadas extensas, deterioração da saúde física e mental e dificuldades de acesso a direitos sociais articulam-se em um mesmo processo. A categoria da tripla dilapidação da força de trabalho sintetiza precisamente essa convergência entre superexploração, espoliação urbana e expropriação financeira, oferecendo uma importante contribuição para compreender as novas formas assumidas pela urbanização dependente. |
Promoção estatal do novo padrão de reprodução do capital | A apresentação também reforça a hipótese de que o Estado desempenha papel decisivo na consolidação do capitalismo de plataforma. O autor demonstrou que a expansão da Uber dependeu tanto da exploração das lacunas regulatórias existentes quanto da posterior institucionalização de marcos legais favoráveis às empresas. Além disso, destacou as crescentes parcerias entre plataformas e administrações públicas, tanto na área da mobilidade quanto nos projetos de cidades inteligentes, evidenciando que a digitalização da gestão urbana constitui uma dimensão importante da promoção estatal do novo padrão de reprodução do capital. |
Referências
ABÍLIO, L. C. Uberização do trabalho: subsunção real da viração. Blog da Boitempo, 22 fev. 2017. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2017/02/22/uberizacao-do-trabalho-subsuncao-real-da-viracao/.
HARVEY, D. Espaços de esperança. São Paulo: Loyola, 2009.
RIBEIRO, L. C. de Q.; MATELA, I. P.; DINIZ, N. O urbano como antinação: para entender a crise das metrópoles brasileiras. Cadernos Metrópole, São Paulo, v. 26, n. 59, p. 309-331, jan./abr. 2024.
ROBERTS, M. A world rate of profit: important new evidence. 2022. Disponível em: <https://thenextrecession.wordpress.com/2022/01/22/a-world-rate-of-profit-important-new-evidence/>.



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