top of page

Memória - 10/06/2026 - Participação: Prof. Dr. Aldo Garcia Jr.

  • Foto do escritor: Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
    Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
  • 14 de jun.
  • 21 min de leitura

URBANIZAÇÃO EXTENSIVA DEPENDENTE E ENCLAVES LOGÍSTICOS: CONTRIBUIÇÕES PARA A COMPREENSÃO DA REESTRUTURAÇÃO URBANO-REGIONAL BRASILEIRA


Por Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz



Introdução


O crescimento acelerado do comércio eletrônico (e-commerce) nas últimas décadas reforça a necessidade de investigar uma das transformações mais significativas do capitalismo na passagem do século XX ao XXI: a crescente centralidade da logística e das infraestruturas (fixos) que viabilizam a circulação (fluxos) de mercadorias, informações e capitais. Como se sabe, no Brasil e no mundo, a expansão das plataformas digitais, dos centros de distribuição, dos corredores e condomínios logísticos e dos grandes complexos de armazenagem vem alterando profundamente a organização do espaço, redefinindo relações entre cidades e regiões, reconfigurando centralidades econômicas e produzindo novos arranjos multiescalares.


No caso brasileiro, tais mudanças assumem importância ainda maior porque evidenciam novos mecanismos de inserção subordinada na divisão internacional do trabalho. E é nesse contexto que se insere a contribuição de Aldo Garcia aos debates realizados no âmbito do projeto. Sem dúvida, ao examinar a crescente centralidade da logística na organização do território e na reprodução ampliada do capital, o autor lança nova luz sobre um conjunto de problemas que dialogam diretamente com os objetivos e hipóteses que orientam nossa investigação coletiva.


A apresentação do pesquisador marca, assim, uma nova etapa na trajetória do projeto. Após um ciclo de encontros voltado ao diálogo com pesquisadores convidados, cujas contribuições foram fundamentais para o refinamento de nossas questões teóricas e hipóteses de trabalho, inicia-se agora uma fase dedicada à discussão das pesquisas mais consolidadas desenvolvidas, até aqui, pelos próprios integrantes do projeto.


A tese de doutorado de Aldo Garcia, recém-publicada na coleção Teses e Dissertações do Observatório das Metrópoles, sob o título Urbanização extensiva dependente: enclaves logísticos na periferia de regiões metropolitanas brasileiras, oferece uma interpretação bastante original das relações entre logística, dependência, rentismo e produção do espaço. Ao propor a categoria de urbanização extensiva dependente, estabelece um diálogo fecundo com a tradição iniciada por Roberto Monte-Mór, ao mesmo tempo que abre caminhos para interlocuções com a Teoria Marxista da Dependência (TMD), especialmente com as contribuições de Ruy Mauro Marini e Jaime Osorio acerca dos padrões de reprodução do capital e da superexploração do trabalho.


Simultaneamente, sua investigação dialoga com diversos pesquisadores do campo dos estudos urbanos e regionais, como David Harvey, Neil Brenner, Sandra Lencioni, Milton Santos, Martín Arboleda, entre tantos outros. O resultado é uma pesquisa empírica e teórica de grande densidade, capaz de demonstrar como a disseminação dos galpões e condomínios logísticos constitui uma das expressões espaciais mais significativas das transformações do capitalismo brasileiro. Desse modo, a pesquisa de Aldo Garcia oferece importantes elementos para compreender aquilo que o projeto vem interpretando como uma nova configuração da urbanização dependente, mediada pelas transformações recentes do padrão de reprodução do capital e que resultam na reestruturação da ordem urbano-regional do país.



Exposição do autor: urbanização extensiva dependente e a ascensão da racionalidade logístico-rentista


A exposição do autor teve início com uma contextualização das transformações estruturais do capitalismo brasileiro nas últimas décadas. Assim, podemos dizer que, segundo sua interpretação, a crescente centralidade da logística deve ser compreendida no interior de processos mais amplos, como a neoliberalização da economia, a desindustrialização, a abertura comercial e financeira e a reconfiguração da divisão internacional do trabalho. Em sua opinião, tudo isso conferiu novo protagonismo às atividades logísticas (“como ciência da circulação”) e às infraestruturas voltadas ao transporte, armazenamento e distribuição, que desempenham papel cada vez mais estratégico na organização do território.


Como o próprio autor deixou explícito, essa contextualização dialoga diretamente com diferentes tradições teóricas mobilizadas ao longo de sua pesquisa, cabendo ressaltar algumas delas. Em primeiro lugar, como já sugerido, aproxima-se da noção de urbanização extensiva formulada por Roberto Monte-Mór, ao evidenciar a expansão das condições gerais de produção e reprodução social urbano-industriais para além dos limites tradicionais das cidades e regiões metropolitanas, alcançando vastas porções do território nacional por meio de redes, infraestruturas e sistemas logísticos. Em segundo lugar, converge com a leitura da urbanização dependente por nós desenvolvida, ao indicar que as mudanças urbano-regionais em curso no país só podem ser adequadamente compreendidas quando relacionadas às novas formas de inserção subordinada do Brasil na economia mundial. Por fim, a centralidade atribuída aos fluxos, às redes e à reorganização das relações entre cidade e região estabelece importantes pontos de contato com as formulações de Sandra Lencioni.


A partir desse enquadramento teórico, o autor apresentou os objetivos e hipóteses centrais de sua pesquisa. Em linhas gerais, seu propósito consistiu em compreender como a expansão dos condomínios (ou enclaves) logísticos vem reconfigurando a urbanização brasileira no contexto das transformações recentes do capitalismo dependente. Mais especificamente, investigou de que maneira a centralidade da circulação de mercadorias, associada à expansão do e-commerce, à financeirização do setor imobiliário e à reorganização das cadeias produtivas globais, tem produzido novas formas de uso e ocupação do território, particularmente nas periferias metropolitanas.


No que se refere aos procedimentos metodológicos, o autor destacou que sua pesquisa foi construída a partir de uma abordagem predominantemente indutiva, articulando elaboração teórica e investigação empírica. Como já está claro, o ponto de partida consistiu no diálogo com diferentes interpretações da urbanização contemporânea, especialmente aquelas voltadas à realidade brasileira, bem como com a literatura que examina as relações entre logística, rentismo, financeirização e produção do espaço. Além disso, a pesquisa combinou diferentes procedimentos de análise: a realização de estudos de caso, a produção e interpretação de material cartográfico, a coleta sistemática de dados sobre o setor logístico, o levantamento de informações relativas aos agentes econômicos envolvidos e a consulta a marcos regulatórios e legislações em diferentes escalas de governo (sobretudo municipais).


Outro aspecto importante das estratégias metodológicas adotadas pelo autor diz respeito à definição dos recortes espaciais da pesquisa. Partindo de um amplo levantamento sobre a distribuição dos condomínios logísticos no território nacional, sua pesquisa identificou os principais vetores de expansão desse segmento e suas distintas expressões regionais. Tal como defendido, os dados coletados revelaram um crescimento extraordinário do setor entre 2005 e 2023. Ao mesmo tempo, constatou-se forte concentração espacial desses empreendimentos nas regiões metropolitanas.


A fim de captar simultaneamente os padrões gerais e as especificidades regionais desse processo, o autor optou por selecionar uma região metropolitana representativa em cada uma das cinco macrorregiões brasileiras. Foi escolhida a Região Metropolitana de São Paulo, utilizada como caso de referência em razão de sua posição hegemônica na rede logística nacional, além das Regiões Metropolitanas de Recife, Manaus, Curitiba e Goiânia, representando, respectivamente, as regiões Nordeste, Norte, Sul e Centro-Oeste.


Segundo o autor, essa escolha foi orientada pela relevância dos condomínios logísticos em termos de quantidade de empreendimentos, área construída e inserção nos principais circuitos de circulação de mercadorias. Tal procedimento permitiu construir, na sequência, uma análise comparativa capaz de apreender tanto as características comuns da expansão logística quanto as particularidades assumidas pelo fenômeno em diferentes contextos.


A tabela e os mapas a seguir, utilizados pelo autor e indicando a quantidade, a área ocupada pelos condomínios logísticos e seu grau de concentração em algumas capitais e regiões metropolitanas, ajudam a compreender os critérios de escolha, assim como antecipam alguns de seus resultados.


Tabela 1 – Quantidade, área construída e participação dos condomínios logísticos por região metropolitana e capital.

Fonte: elaboração do autor (Aldo Garcia Junior).


Figura 1 – Concentração da área de condomínios logísticos e fluxos de origem e destino de cargas no território brasileiro.


Fonte: elaboração do autor (Aldo Garcia Junior).


Como se pode notar, os dados demonstram não apenas a expressiva concentração desses empreendimentos no Sudeste, responsável por 75,5% da área total construída, mas também a predominância das grandes regiões metropolitanas (e da “região concentrada”, se utilizarmos a regionalização de Milton Santos) na organização logística do território brasileiro.


O autor dedicou a parte final da apresentação à identificação das principais convergências e especificidades observadas nos diferentes contextos analisados. Conforme sua exposição, embora cada região apresente trajetórias históricas, estruturas econômicas e condicionantes territoriais particulares, a comparação permitiu identificar um conjunto de regularidades que apontam para a existência de uma lógica comum (logístico-rentista) de produção do espaço associada à expansão dos enclaves logísticos. Assim, considerando conjuntamente os argumentos desenvolvidos na apresentação e as análises sistematizadas em sua tese, os principais padrões construídos podem ser sintetizados da forma que se segue.


Em primeiro lugar, os condomínios logísticos tendem a localizar-se em áreas dotadas de elevada acessibilidade territorial, próximas a rodovias estruturantes, portos, aeroportos e demais infraestruturas de circulação. Em segundo lugar, sua expansão é impulsionada pela atuação articulada de grandes incorporadoras imobiliárias, fundos de investimento, gestoras globais de ativos e operadores logísticos, evidenciando a crescente integração entre logística, mercado imobiliário e finanças. Em terceiro lugar, a pesquisa demonstrou a presença recorrente do Estado na viabilização desses empreendimentos, seja por meio de investimentos em infraestrutura, incentivos fiscais, flexibilizações regulatórias ou alterações de zoneamento. Por fim, observou-se que os enclaves logísticos tendem a se instalar em áreas periféricas ou periurbanas, frequentemente marcadas por vulnerabilidades sociais e ambientais, ainda que fortemente conectadas às principais redes de circulação. O esquema a seguir, igualmente elaborado pelo autor, ajuda a compreender o que está em questão.


Figura 2 – Esquema da articulação entre financeirização, mercado imobiliário, sistema produtivo e Estado na produção do espaço logístico.

Fonte: elaboração do autor (Aldo Garcia Junior).


Ao lado dessas convergências, foram identificadas, ainda, especificidades regionais relevantes, que assinalam a maneira geograficamente desigual pela qual a urbanização extensiva dependente se manifesta no território brasileiro. Examinemos, sumariamente, esse aspecto.


A Região Metropolitana de São Paulo destacou-se pela elevada concentração de condomínios logísticos, pela forte presença do capital financeiro-imobiliário e pela intensificação dos conflitos socioambientais decorrentes da expansão dos empreendimentos sobre áreas periféricas e ambientalmente sensíveis (como áreas de nascentes). Manaus, por sua vez, apresentou uma configuração singular, condicionada pela baixa densidade da urbanização amazônica, pela centralidade da Zona Franca e pelas limitações impostas pela infraestrutura regional. Em Recife, a expansão logística revelou-se particularmente associada a territórios marcados por alta vulnerabilidade socioeconômica, em estreita relação com os processos de reestruturação espacial vinculados ao Complexo Industrial e Portuário de Suape. Curitiba destacou-se pela dispersão recente dos investimentos em direção aos municípios periféricos da região metropolitana, acompanhando a expansão dos eixos rodoviários e a desconcentração de atividades logísticas. Já Goiânia apresentou o crescimento mais recente e acelerado entre os casos estudados, impulsionado pela disponibilidade fundiária, pela posição estratégica no sistema de circulação do Centro-Oeste e pela consolidação de novas funções logísticas associadas à expansão da fronteira agroexportadora.


Seja como for, apesar das diferenças observadas entre os casos estudados, a apresentação e a tese convergem para uma mesma conclusão: os enclaves logísticos constituem uma expressão privilegiada das transformações recentes do capitalismo dependente brasileiro. De acordo com o autor, a investigação permitiu confirmar duas teses centrais. A primeira é a de que a urbanização periurbana metropolitana contemporânea vem sendo organizada por uma racionalidade logístico-rentista, que subordina a produção do espaço à fluidez dos fluxos de mercadorias e capitais, articulando logística, valorização imobiliária, financeirização e estratégias de captura de renda. A segunda é, justamente, a de que a configuração espacial resultante desse processo deve ser interpretada por meio da categoria-síntese da urbanização extensiva dependente.


Em suma, a partir da análise da expansão dos condomínios logísticos nas periferias das regiões metropolitanas brasileiras, o autor propõe a categoria de urbanização extensiva dependente para designar uma forma específica de produção do espaço. Poderíamos dizer que, em sua interpretação, os condomínios logísticos constituem a expressão material da difusão das condições gerais de produção, circulação, distribuição e consumo para além dos tecidos urbanos consolidados, promovendo a incorporação de áreas periurbanas aos circuitos nacionais e globais de acumulação. Tudo isso em uma fase de aprofundamento da condição de dependência do país.


Questões de articulação entre a pesquisa do autor e as hipóteses do projeto


A riqueza das contribuições apresentadas pelo autor, somada à leitura prévia de sua tese, suscitou um conjunto de questões que dialogam diretamente com as hipóteses centrais do projeto. Como vem ocorrendo nas sessões/memórias anteriores, o objetivo desse exercício não consiste apenas em formular perguntas sobre aspectos específicos da pesquisa/abordagem apresentada, mas sobretudo em explorar seus pontos de convergência, tensão e complementaridade em relação ao quadro teórico-metodológico que estamos construindo coletivamente. Nesse caso em particular, buscamos identificar de que maneira os resultados alcançados pelo autor podem contribuir para o aprofundamento de nossas reflexões sobre: i) o uso da categoria de padrão de reprodução do capital nos estudos urbanos e regionais; ii) a superexploração do trabalho; iii) a cisão dos ciclos do capital; e iv) a transição do antigo padrão urbano-industrial de reprodução do capital para um novo padrão.


Assim sendo, um primeiro bloco de questões concentrou-se no conceito de padrão de reprodução do capital e em suas potencialidades para os estudos urbanos e regionais. Partimos da constatação de que, embora a categoria apareça em diversos momentos da tese, o próprio autor assinala a necessidade de aprofundar sua elaboração para utilizá-la nesse campo em particular. Procuramos, além disso, discutir em que medida essa categoria pode contribuir para compreender a centralidade adquirida pela logística nas transformações contemporâneas do espaço. Mais especificamente, perguntamos se a logística deveria ser entendida como um setor-eixo da acumulação no atual período histórico ou, antes, como uma racionalidade mais ampla (aquilo que o autor denomina racionalidade logístico-rentista) capaz de atravessar e articular diferentes setores estratégicos da economia. Do nosso ponto de vista, a questão mostrou-se particularmente relevante diante de uma das principais hipóteses que orientam nosso projeto, segundo a qual o atual padrão de reprodução do capital estaria estruturado em torno de três grandes eixos (agromineral, financeiro e plataformizado) cuja articulação redefine a inserção subordinada do país na economia mundial.


Um segundo conjunto de questões voltou-se para o tema do trabalho e da reprodução do capital. Considerando que a pesquisa demonstrou a tendência dos enclaves logísticos de se instalarem em áreas periféricas marcadas pela disponibilidade de força de trabalho barata e pela vulnerabilidade socioeconômica, exploramos as possíveis conexões entre a expansão da logística e a categoria de superexploração do trabalho. Indagamos, assim, se os ganhos de eficiência, velocidade e redução de custos característicos da racionalidade logístico-rentista não dependeriam, em larga medida, da intensificação dos ritmos de trabalho e da ampliação das formas de precarização observadas nos sistemas de armazenagem, transporte e entrega. Também procuramos discutir se a crescente centralidade da logística na esfera da circulação poderia contribuir para aprofundar uma das características clássicas do capitalismo dependente identificadas pela TMD: a separação entre os espaços de produção e os espaços de realização do valor, ampliando e/ou modificando a questão da cisão dos ciclos do capital.


Por fim, em um terceiro bloco de questões, refletimos sobre o lugar da logística na transição entre o antigo padrão urbano-industrial e as novas formas de acumulação associadas ao rentismo, à financeirização e à plataformização da economia. Partimos da hipótese de que o atual padrão de reprodução do capital não elimina completamente as estruturas produtivas herdadas do período anterior, mas as reorganiza e subordina a novas lógicas de valorização. Nesse sentido, os condomínios logísticos pareceram constituir um objeto particularmente revelador, pois, ao mesmo tempo que viabilizam a integração aos circuitos globais de circulação, tornam-se cada vez mais indispensáveis à reprodução das atividades produtivas industriais e comerciais já estabelecidas no país. A partir dessa constatação, perguntamos se a expansão das plataformas digitais e dos sistemas logísticos contemporâneos não estaria promovendo novas formas de captura de renda por parte de operadores logísticos, plataformas de comércio eletrônico, fundos imobiliários e agentes financeiros. Em termos mais objetivos, a questão consistiu em saber se a logística pode ser compreendida como um dos principais vetores através dos quais setores anteriormente centrais para a acumulação industrial passam a ser progressivamente subordinados às dinâmicas do capitalismo rentista.


Ampliando o debate: intervenções e contribuições dos demais pesquisadores e pesquisadoras


As questões formuladas por nós mesmos, na condição de animadores do projeto, foram complementadas por um conjunto de intervenções realizadas pelos demais pesquisadores e pesquisadoras presentes, ampliando significativamente o escopo do debate. Assim como vem ocorrendo nas demais sessões do projeto, os/as participantes puderam levantar questões adicionais, estabelecer conexões com suas próprias agendas de pesquisa e considerar possíveis desdobramentos teóricos. Em geral, tais contribuições exploraram dimensões que, embora diretamente relacionadas aos resultados da pesquisa apresentada, também dialogam com os objetivos e hipóteses do projeto, à medida que avançamos na construção de um arcabouço teórico-conceitual comum para a interpretação da atual reestruturação da ordem urbano-regional brasileira.


Uma primeira intervenção voltou-se para o estatuto teórico da categoria de urbanização extensiva dependente. Considerando a centralidade que o conceito de urbanização extensiva ocupa tanto na pesquisa do autor quanto em nossos debates, foi levantada a hipótese de que talvez seja necessário aprofundar simultaneamente a análise dos processos de metropolização. Discutiu-se em que medida os processos de urbanização extensiva e de metropolização poderiam ser concebidos como complementares e mutuamente constitutivos, funcionando como uma espécie de par dialético capaz de iluminar as formas contemporâneas da urbanização dependente.


Outra linha de questionamento concentrou-se nas diferenças observadas entre os casos analisados. Embora a pesquisa tenha destacado importantes convergências estruturais, chamou-se atenção para a necessidade de aprofundar as especificidades de cada contexto regional. Foram mencionados, por exemplo, o peso do Complexo de Suape na conformação da dinâmica logística pernambucana, a presença de formas particulares de poder territorial em determinadas regiões metropolitanas (como o crime organizado no Rio de Janeiro) e as distintas trajetórias de urbanização observadas nos casos estudados.


Nesse momento, emergiu, igualmente, uma questão relacionada à formação dos sujeitos coletivos capazes de se opor, digamos, à racionalidade logístico-rentista: considerando a concentração de grandes contingentes de trabalhadores nos condomínios logísticos, esses espaços poderiam constituir novos terrenos de mobilização coletiva e de resistência, mesmo diante da crescente fragmentação das relações laborais e das dificuldades enfrentadas pelas formas tradicionais de organização sindical?


A terceira intervenção enfatizou a importância de situar a expansão dos enclaves logísticos em uma perspectiva de longa duração da formação social brasileira. A partir desse ponto de vista, foram formuladas questões e reflexões sobre as continuidades históricas entre as novas formas de valorização associadas à logística e ao rentismo e as estruturas mais antigas de concentração fundiária e poder territorial. Tomando o caso de Cajamar (e da família Abdalla) como referência, discutiu-se, por exemplo, como os grandes proprietários de terra se inserem nos novos circuitos de acumulação logístico-rentista e de que maneira se articulam com incorporadoras, fundos imobiliários e agentes financeiros. Da mesma forma, foram enfatizadas questões sobre o papel desempenhado pelo Estado em diferentes escalas de governo, tanto no que diz respeito à expansão das condições gerais de produção e reprodução do capital quanto na viabilização institucional e regulatória dos empreendimentos logísticos.


Nessa mesma intervenção, surgiu, ainda, uma questão de natureza conceitual bastante importante para o desenvolvimento do projeto. Considerando que a maior parte dos condomínios logísticos se localiza em periferias metropolitanas, integrando diretamente os processos contemporâneos de reestruturação das metrópoles, questionou-se em que medida sua expansão deveria ser interpretada como expressão da urbanização extensiva ou da própria metropolização. A questão mostrou-se particularmente relevante por remeter à necessidade de explicitar melhor as relações (e eventuais diferenças analíticas) entre urbanização extensiva e metropolização na interpretação das transformações urbano-regionais que estão em curso no país.


Por fim, foram formuladas questões acerca dos arranjos de poder que sustentam a urbanização logística contemporânea, ressaltando a necessidade de identificar os principais agentes envolvidos (agentes da produção social do espaço), os mecanismos de coordenação entre Estado e capital e as formas específicas de governança territorial que surgem à medida que avança a reestruturação da ordem urbano-regional brasileira.


Respostas do autor: a reafirmação da categoria-síntese de urbanização extensiva dependente


Ao responder às questões formuladas pelos participantes, o autor retomou diversos aspectos centrais de sua pesquisa, aprofundando temas que haviam emergido tanto nas perguntas de articulação formuladas pelos animadores quanto nas intervenções dos demais pesquisadores e pesquisadoras. Em conjunto, suas respostas permitiram esclarecer melhor o lugar da logística nas transformações contemporâneas da urbanização brasileira, bem como explicitar algumas das implicações teóricas da categoria de urbanização extensiva dependente.


No que se refere ao debate sobre o padrão de reprodução do capital, o autor considerou particularmente promissora a aproximação entre sua pesquisa e as formulações desenvolvidas por autores como Jaime Osorio, Fernando Cézar de Macedo e Luiz Filgueiras. Reconheceu, contudo, que ainda é necessário avançar na construção de procedimentos metodológicos capazes de identificar empiricamente os setores-eixo responsáveis por estruturar a acumulação em cada período histórico. Mesmo assim, o autor pareceu mais inclinado a defender que a logística não constitui propriamente um setor-eixo, mas uma lógica geral que atravessa e articula os diferentes componentes do padrão contemporâneo de reprodução do capital. Trata-se, retomando seus próprios termos, de uma racionalidade logístico-rentista que sustenta, conecta e potencializa distintas formas de rentismo, funcionando como uma espécie de vetor que atravessa e sustenta os setores eixo do novo padrão.


As respostas do autor também dialogaram diretamente com as questões relativas ao trabalho e à formação de sujeitos coletivos. Nesse aspecto, foi enfático ao afirmar que a pesquisa encontrou evidências robustas de superexploração do trabalho nos casos investigados. Como forma de qualificar esse argumento, mencionou produções cinematográficas recentes que retratam a precarização do trabalho nos setores logísticos e do comércio eletrônico nos países centrais, como Nomadland e Sorry We Missed You. Podemos dizer que a referência a esses filmes teve como objetivo destacar que tendências frequentemente apresentadas como novidades nas economias centrais assumem contornos ainda mais agudos em formações dependentes como a brasileira, onde a precarização laboral é histórico-estrutural e se articula com níveis elevados de espoliação urbana. Ademais, o autor reiterou que os condomínios logísticos tendem a se localizar justamente em áreas marcadas por baixos salários, elevada vulnerabilidade socioambiental e precárias condições de reprodução da força de trabalho. Dessa forma, os ganhos de eficiência, velocidade e redução de custos associados à racionalidade logístico-rentista não podem, de fato, ser dissociados das condições concretas de vida e trabalho que sustentam sua operação cotidiana nas periferias metropolitanas.


Ao desdobrar esse aspecto, o autor mencionou o caso da ocupação Queixadas, em Cajamar (SP), onde parte significativa dos moradores trabalha nos galpões logísticos da região, ao mesmo tempo que enfrenta dificuldades relacionadas à mobilidade cotidiana, ao acesso a serviços urbanos e às condições de moradia. Também mencionou episódios extremos, como um caso de suicídio registrado em um centro de distribuição, para enfatizar os custos humanos associados aos imperativos de velocidade, produtividade e eficiência que caracterizam os sistemas logísticos contemporâneos. Resumindo, em sua avaliação, a categoria de superexploração do trabalho revela-se bastante adequada para compreender tais dinâmicas nas periferias metropolitanas brasileiras.


Ao comentar as questões relativas à circulação, ao consumo e à cisão do ciclo do capital, o autor ponderou que o fenômeno assume hoje formas mais complexas do que aquelas tradicionalmente descritas pela literatura da dependência. Chamou atenção para o fato de que trabalhadores submetidos a condições de superexploração também participam dos mercados consumidores viabilizados pelas plataformas digitais, adquirindo produtos comercializados por empresas como Shopee, Shein e Mercado Livre. Essa observação levou-o a sugerir a necessidade de aprofundar investigações capazes de compreender de forma mais precisa as relações contemporâneas entre produção, circulação e consumo, bem como os novos mecanismos de realização do valor associados à expansão das plataformas digitais e do e-commerce.


Em um desdobramento, talvez seja o caso de considerar a questão do crédito e do endividamento das famílias populares como uma resposta à clássica cisão entre produção e consumo. Do ponto de vista metodológico, seria importante analisar, tomando algum caso de referência, o fluxo de mercadorias para “áreas nobres” e “periferias”.

As respostas do autor também permitiram avançar no debate sobre as relações entre urbanização extensiva e metropolização. Em concordância com uma das intervenções realizadas, ele afirmou que ambos os processos devem ser pensados de forma articulada e complementar. Assim, podemos dizer que, em consonância com sua interpretação, a urbanização extensiva e a metropolização constituem dimensões indissociáveis das transformações territoriais contemporâneas, especialmente quando observadas a partir das periferias metropolitanas.


Para sustentar esse argumento, o autor recorreu, mais uma vez, à sua leitura da obra de Roberto Monte-Mór, enfatizando que a urbanização extensiva não deve ser compreendida apenas como um fenômeno associado às hinterlândias ou à incorporação de espaços distantes. Ao contrário, ela se manifesta, antes de tudo, nos espaços periurbanos. Nesse sentido, argumentou que a urbanização extensiva se torna especialmente visível nas áreas de transição que circundam as grandes metrópoles, onde ocorre a ativação e a reativação de espaços que passam a desempenhar funções estratégicas para o metabolismo urbano-metropolitano. Portanto, a expansão dos condomínios logísticos evidenciaria precisamente esse movimento, ao transformar áreas periféricas em suportes fundamentais da circulação, do armazenamento e da distribuição de mercadorias.


Aqui, cumpre fazer uma observação. Não estamos afirmando, de maneira alguma, que as metrópoles brasileiras perderam seu protagonismo econômico, político e social, sem contar seu peso demográfico (uma vez que aproximadamente 40% da população do país, cerca de 80 milhões de pessoas, segue vivendo em Regiões Metropolitanas). O que temos defendido, no âmbito do projeto, é que a correta compreensão, digamos, desse “metabolismo metropolitano” exige considerar outras tendências da reestruturação da ordem urbano-regional brasileira, dentre as quais se destacam aquelas oriundas da urbanização extensiva.


Em relação às diferenças entre os casos estudados, o autor reiterou a importância de considerar as especificidades regionais apontadas pelos participantes. Embora não tenha estudado diretamente o caso do Rio de Janeiro, observou que a presença de formas particulares de poder territorial, incluindo aquelas associadas ao crime organizado, tende a ser incorporada pelos agentes econômicos como um elemento de “risco calculado” no processo de tomada de decisões.


Por fim, ao responder às questões relativas à longa duração da formação social brasileira, o autor confirmou a existência de importantes continuidades entre os novos circuitos logístico-rentistas e as estruturas históricas de concentração fundiária e poder territorial. Destacou que situações semelhantes à observada em Cajamar podem ser encontradas em outras regiões do país. Em Recife, por exemplo, identificou a presença de grandes proprietários fundiários beneficiados pela valorização imobiliária decorrente da expansão logística. Em Curitiba, chamou atenção para processos nos quais famílias historicamente vinculadas ao capital comercial passaram a atuar como rentistas patrimoniais.


No que concerne ao Estado e aos arranjos de poder, enfatizou sobretudo a escala local, destacando, novamente, o papel desempenhado pelas administrações municipais na adaptação da regulação urbanística, na flexibilização de normas e na criação das condições institucionais necessárias à implantação dos empreendimentos.


Os galpões como objeto-síntese da nova urbanização dependente


Encerrando a sessão, o professor Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro apresentou algumas observações que apontaram caminhos promissores para o aprofundamento futuro das discussões desenvolvidas no âmbito do projeto.


Em primeiro lugar, sugeriu que os condomínios logísticos e os galpões poderiam ser compreendidos como uma espécie de “objeto-síntese” da atual reestruturação da ordem urbano-regional brasileira. Isso porque, segundo sua interpretação, esses empreendimentos materializam, simultaneamente, diferentes dimensões do padrão contemporâneo de reprodução do capital, articulando os eixos exportador, importador, financeiro e plataformizado que vêm sendo discutidos no projeto. Ou seja, nessa perspectiva, os galpões aparecem como um espaço privilegiado para observar a convergência territorial de processos que, embora frequentemente analisados de forma separada, operam de maneira integrada na conformação da atual dinâmica de acumulação.


Em segundo lugar, destacou que a pesquisa também contribui para pensar a própria noção de reestruturação, entendida não como simples ruptura com formas espaciais anteriores, mas como um processo que transforma e reconfigura dinâmicas, tendências e morfologias herdadas. A persistência de rugosidades, mais uma vez no sentido de Milton Santos, isto é, de temporalidades acumuladas no espaço, faz com que a reestruturação nunca se realize como substituição integral do passado, mas como recombinação de formas novas e antigas.


Por fim, retomando uma preocupação presente em diversos momentos do debate, levantou a hipótese de que os condomínios logísticos expressam uma contradição particularmente relevante para a compreensão do período atual. De um lado, alimentam-se dos processos de fragmentação do trabalho e de dispersão das experiências coletivas que marcaram as transformações recentes do capitalismo brasileiro e mundial. De outro, ao concentrarem grandes contingentes de trabalhadores em espaços comuns, podem criar condições para a emergência de novas formas de sociabilidade, experiência e resistência coletiva.


Sínteses complementares entre a pesquisa do autor, as hipóteses e os eixos analíticos do projeto


Considerando que o projeto ingressa agora em uma nova etapa, marcada pela apresentação e discussão de pesquisas mais consolidadas desenvolvidas por seus participantes, parece oportuno incorporar às memórias um esforço mais sistemático de interlocução entre os resultados apresentados e as hipóteses que vêm orientando nossa investigação coletiva. Nessa direção, passaremos a incluir, sempre que pertinente, um quadro sintético de articulações, destinado a explicitar os principais pontos de convergência entre cada pesquisa e os eixos analíticos organizadores das hipóteses do projeto. Não se trata de mobilizar, exaustivamente, todos os eixos analíticos e hipóteses em cada caso, mas de destacar aquelas que revelam conexões particularmente relevantes ou que sugerem desdobramentos promissores para o avanço de nossa agenda comum de pesquisa.


Quadro 1 – Sínteses e desdobramentos possíveis entre a pesquisa do autor e os eixos analíticos do projeto.

Eixos analíticos

Sínteses e/ou desdobramentos possíveis

Urbanização planetária e/ou extensiva

A pesquisa oferece importantes subsídios para o aprofundamento do debate sobre a urbanização extensiva. Ao analisar a disseminação dos condomínios logísticos nas periferias metropolitanas, o autor demonstra como novas infraestruturas, equipamentos e funções urbanas passam a incorporar áreas cada vez mais amplas ao metabolismo urbano-regional. O que é feito tanto por dinâmicas de expansão (“ativação”) quanto de reestruturação (“reativação”). Assim, suas reflexões contribuem para qualificar as relações entre urbanização extensiva e metropolização, sugerindo que ambos os processos operam de forma articulada na transformação contemporânea do tecido urbano.

Homogeneização e diferenciação do território

A pesquisa permite explorar simultaneamente tendências de homogeneização e diferenciação territorial. De um lado, a expansão dos condomínios logísticos difunde padrões espaciais relativamente uniformes, marcados pela presença de infraestruturas semelhantes, modelos empresariais e institucionais recorrentes, agentes globais comuns e formas padronizadas de produção do espaço. De outro, a comparação entre São Paulo, Recife, Manaus, Curitiba e Goiânia demonstra que essa racionalidade geral se materializa de maneira diferenciada em cada contexto regional, combinando-se com estruturas produtivas, dinâmicas metropolitanas e formas históricas de uso do território específicas. A pesquisa oferece, portanto, elementos para compreender como a “homogeneização” promovida pelo capital se realiza por meio da produção contínua de “diferenciações” espaciais.

Urbanização subdesenvolvida

A pesquisa sugere que a expansão das infraestruturas logísticas não representa uma superação das características históricas da urbanização periférica brasileira, mas sua reconfiguração sob novas condições. Embora os condomínios logísticos incorporem tecnologias avançadas, grandes volumes de investimento e elevada conectividade aos circuitos nacionais e globais de acumulação, sua implantação ocorre, em geral, em territórios marcados por vulnerabilidade social, precariedade dos serviços urbanos e profundas desigualdades socioespaciais. Os condomínios logísticos aparecem, assim, como uma expressão contraditória da urbanização subdesenvolvida: espaços altamente modernos e integrados aos fluxos do capital coexistem com condições precárias de reprodução da vida social em seus entornos imediatos.

Fragmentação do território

A pesquisa oferece importantes elementos para compreender as formas contemporâneas de fragmentação socioespacial associadas à reestruturação do capitalismo dependente. Ao mobilizar a categoria de enclave logístico, o autor demonstra que a expansão dos galpões produz uma incorporação altamente seletiva de determinados espaços aos circuitos nacionais e globais de acumulação. Embora fortemente conectados entre si por redes de transporte, comunicação e finanças, esses empreendimentos frequentemente mantêm relações frágeis com os territórios imediatos em que se inserem, reforçando processos de segregação, especialização funcional e fragmentação socioespacial. Em diversos casos analisados, os enclaves logísticos aparecem cercados por áreas marcadas por vulnerabilidade social, precariedade urbana e baixa (ou instável) integração aos benefícios econômicos gerados pelos próprios empreendimentos.

Desconcentração/reconcentração urbana

Um dos resultados mais interessantes do trabalho consiste em mostrar que a urbanização extensiva observada pelo autor se manifesta predominantemente em áreas periurbanas fortemente articuladas às dinâmicas metropolitanas. Nesse sentido, os casos analisados revelam uma combinação entre desconcentração (ainda que relativa) e reconcentração territorial: determinadas atividades econômicas e infraestruturas deslocam-se para espaços periféricos em busca de terra mais barata, acessibilidade logística e menores custos operacionais, mas permanecem funcionalmente subordinadas aos grandes complexos metropolitanos. A forte concentração dos empreendimentos nas principais regiões metropolitanas e corredores logísticos do país evidencia, assim, que as metrópoles desindustrializadas continuam exercendo papel central não apenas como espaços de comando, gestão e coordenação dos fluxos econômicos, mas também como nós estratégicos das atividades de circulação, armazenamento e distribuição de mercadorias.

Conexão entre a precariedade do trabalho e a precariedade da vida urbana

Este é um dos pontos de maior convergência entre a pesquisa e as hipóteses do projeto. Os condomínios logísticos tendem a se localizar em territórios marcados simultaneamente por baixos salários, elevada vulnerabilidade socioambiental e condições precárias de reprodução da força de trabalho. As evidências apresentadas pelo autor sugerem que os ganhos de eficiência característicos da racionalidade logístico-rentista estão profundamente associados à combinação entre superexploração do trabalho e espoliação urbana.

Promoção estatal do novo padrão de reprodução do capital

A investigação enfatiza a atuação decisiva do Estado na produção das condições gerais necessárias à expansão da logística contemporânea. Alterações de zoneamento, investimentos em infraestrutura, incentivos fiscais, flexibilizações regulatórias e políticas de atração de investimentos aparecem como elementos recorrentes nos diferentes casos estudados. Os resultados reforçam a hipótese de que a reestruturação da ordem urbano-regional brasileira não decorre apenas da ação dos agentes privados, mas envolve a participação ativa do Estado na viabilização/promoção territorial e institucional do novo padrão de reprodução do capital.

Fonte: elaboração do autor (Aldo Garcia Junior).

Comentários


  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn
  • YouTube

© 2026 Observatório das Metrópoles. Todos os direitos reservados.

Elaboração: El Homo Urbanus.

bottom of page