Memória - 24/06/2026 - Participação: Profa. Dra. Denise Elias
- Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz

- 27 de jun.
- 25 min de leitura
AGRONEGÓCIO, DEPENDÊNCIA E REESTRUTURAÇÃO URBANO-REGIONAL NO BRASIL
Por Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
Introdução
A expansão do agronegócio, ao menos nas últimas cinco décadas, constitui uma das transformações mais significativas da formação socioespacial brasileira. Impulsionado pela crescente demanda internacional por commodities e por novas formas de inserção subordinada do país na divisão internacional do trabalho, o agronegócio ocupa, atualmente, uma posição de destaque tanto na economia quanto na organização do território.
É nesse contexto que se insere a contribuição da professora Denise Elias aos debates realizados no âmbito do projeto. Isso porque, ao examinar a expansão (espacialmente seletiva, economicamente concentradora, socialmente excludente e ambientalmente devastadora) do agronegócio, a autora construiu uma obra que se tornou, para nós, referência incontornável.
Tomando como marco inicial a defesa de sua tese de doutorado sobre Ribeirão Preto, em 1996, já são três décadas de pesquisas dedicadas ao estudo das práticas espaciais do agronegócio globalizado, com dezenas de artigos e livros publicados sobre o tema. Reunidos, esses trabalhos permitem compreender como essas práticas se converteram em um poderoso vetor de urbanização e reestruturação urbano-regional, revelando uma das expressões mais significativas daquilo que temos interpretado como a nova urbanização dependente.
Desconstruindo a fábula do agronegócio
Tomando como referência principal o livro A produção da fábula do agronegócio no Brasil: novas e velhas faces da dependência, recentemente publicado, a autora apresentou uma síntese madura de sua trajetória intelectual. Para nós, essa obra representa não apenas uma sistematização abrangente e acessível de mais de trinta anos de pesquisa, mas também uma elaboração teórica de grande alcance, capaz de articular diferentes vertentes da economia política, da geografia urbana e regional e do pensamento crítico latino-americano. É particularmente instigante encontrar, do começo ao fim do livro, a mobilização de categorias centrais do pensamento de Milton Santos, a começar pelo próprio título, que sugere o desvelamento de uma fábula cuidadosamente construída em torno do agronegócio brasileiro.
Cumpre enfatizar esse estreito diálogo com o legado teórico de Milton Santos, orientador de sua tese de doutorado. Conceitos como meio técnico-científico-informacional, verticalidades e horizontalidades, lugares do fazer e lugares do reger, circuitos espaciais da produção, círculos de cooperação e uso corporativo do território são elementos fundamentais da abordagem desenvolvida pela autora. Além disso, ao menos do nosso ponto de vista, suas formulações permitem estabelecer interlocuções com a tradição da teoria marxista da dependência, contribuindo para demonstrar como as transformações recentes do agronegócio atualizam mecanismos históricos de subordinação econômica, política e territorial do Brasil aos centros de comando da economia mundial.
As teses centrais do livro encontram-se claramente delimitadas, ainda que possam parecer contraintuitivas para o leitor menos familiarizado com o tema. E aqui cabe recorrer, diretamente, às palavras da autora:
As discussões apresentadas alicerçam-se em algumas teses interligadas e complementares que defendo. Duas delas são centrais e estruturam o desenvolvimento do pensamento contido neste livro. A primeira refere-se ao fato de que o agronegócio globalizado é um dos principais vetores de reorganização do território brasileiro, especialmente desde os anos 1970, sendo responsável pela reestruturação não apenas do espaço agrícola, mas também dos espaços urbano e regional em diferentes partes do país, incrementando a urbanização e a (re)estruturação urbano-regional. A segunda tese é a de que a difusão do agronegócio no país ocorre de forma espacialmente seletiva, economicamente concentradora, socialmente excludente e ambiental e culturalmente devastadora, promovendo cada vez mais a concentração de riquezas e o crescimento da pobreza estrutural, além de acirrar as desigualdades socioespaciais por todo o território nacional, no campo e nas cidades (Elias, 2025, p. 15).
Em outras palavras, a autora demonstra que, da perspectiva dos estudos urbanos e regionais, a compreensão do agronegócio exige deslocar o olhar para além dos espaços classicamente vinculados à produção agropecuária, alcançando as cidades, as redes urbanas, as regiões (inclusive as metropolitanas), as infraestruturas logísticas e os diversos serviços responsáveis por assegurar a reprodução ampliada dos capitais investidos nesse complexo e multifacetado segmento econômico.
Nesse sentido, o quinto capítulo do livro acima mencionado, que sugerimos como texto de referência, ocupa posição vertebral em sua argumentação. Ao analisar a economia política da urbanização funcional ao agronegócio, Denise Elias elaborou duas categorias que se tornaram centrais em sua produção intelectual: as regiões produtivas do agronegócio (RPAs) e as cidades do agronegócio. Em ambos os casos, para usar os termos precisos da autora, trata-se dos espaços nos quais se encontram reunidas e articuladas as “condições gerais de produção e de reprodução do capital do agronegócio globalizado”.
Ademais, cabe mencionar que, para a autora, as cidades do agronegócio constituem, em muitos aspectos, o avesso do direito à cidade. São territórios nos quais a concentração de riqueza e o dinamismo econômico convivem com a disseminação da pobreza, da segregação socioespacial e da exclusão social. No capítulo supracitado, tal interpretação é sustentada por dois importantes estudos de caso: o da região produtiva da fruticultura irrigada do Semiárido nordestino, envolvendo áreas do Rio Grande do Norte e do Ceará, e o da região do Matopiba, especializada na produção de grãos.
Por fim, cumpre destacar, do mesmo modo, a relevância do capítulo subsequente (Capítulo 6), dedicado à operacionalização das pesquisas sobre regiões produtivas e cidades do agronegócio. Do nosso ponto de vista, além de sistematizar procedimentos metodológicos e caminhos de investigação, esse esforço oferece importantes subsídios para a compreensão de outras tendências, morfologias e dinâmicas socioterritoriais que vêm sendo estudadas no âmbito do projeto, iluminando possibilidades de análise comparativa entre diferentes expressões contemporâneas da urbanização dependente brasileira.
Exposição da autora: regiões produtivas e cidades do agronegócio
No início de sua exposição, a professora Denise Elias deixou claro que sua apresentação deveria ser entendida não como o resultado de uma pesquisa em particular, mas como uma síntese de diversas pesquisas desenvolvidas ao longo de décadas. Assim, retomando questões que acompanham sua trajetória intelectual ao menos desde a defesa da já mencionada tese sobre Ribeirão Preto, em meados dos anos 1990, a autora procurou situar o agronegócio contemporâneo no contexto mais amplo das transformações do capitalismo ocorridas desde os anos 1970. Ao Para tanto, destacou processos como a reestruturação produtiva permanente, o avanço do neoliberalismo, a financeirização e, mais recentemente, a plataformização de diversas atividades econômicas.
Em seguida, defendeu que, no caso brasileiro, essas transformações estiveram associadas a mudanças profundas na divisão territorial do trabalho. A autora chamou atenção para fenômenos como a desindustrialização, o esvaziamento de antigas áreas industriais metropolitanas, a reprimarização da pauta exportadora e sua regressão qualitativa. Paralelamente, salientou a tendência de crescimento econômico e demográfico de diversas regiões do interior do país, especialmente as vinculadas à expansão da produção de commodities agrícolas.
Ainda nessa fase inicial, ressaltou a necessidade de incorporar o conceito de neoextrativismo como uma chave de interpretação privilegiada das mudanças que estão em curso no país. Ao fazê-lo, apresentou uma definição desse conceito que enfatiza o advento de um modelo econômico baseado na exploração intensiva dos recursos naturais, na produção de bens com reduzido valor agregado e na orientação prioritária para os mercados externos. Além disso, sustentou que esse modelo reforça formas históricas de dependência, aprofundando a inserção subordinada do país na economia mundial.
A partir dessas referências preliminares, a autora apresentou algumas das teses centrais que estruturam suas pesquisas sobre o tema. Em primeiro lugar, sustentou que o agronegócio globalizado constitui um dos principais vetores de reorganização do território brasileiro, sendo responsável, como já sugerido, por importantes transformações não apenas nos espaços agrícolas altamente racionalizados, mas também nos espaços urbanos e regionais. Em seguida, reiterou que a difusão do agronegócio ocorre de maneira profundamente desigual, produzindo usos seletivos do território e aprofundando desigualdades preexistentes. Por fim, argumentou que o fortalecimento do agronegócio representa, igualmente, um fator de fragilização da democracia.
A autora deixou claro que, do seu ponto de vista, o agronegócio deve ser compreendido como um novo paradigma do capitalismo agrário, consolidado sobretudo a partir das últimas décadas do século XX, momento em que o uso do vocábulo ganhou proeminência. Em conformidade com esse paradigma, o objetivo principal das atividades agropecuárias deixa de ser a produção de alimentos para o abastecimento interno, assumindo cada vez mais protagonismo a produção de commodities agrícolas, agrocombustíveis e matérias-primas voltadas aos mercados globais. Segundo a autora, a esse paradigma corresponde um conjunto de atividades intensivas em capital, baseadas na adoção de pacotes tecnológicos padronizados, fortemente apoiadas em créditos estatais, pesquisas agropecuárias e sistemas avançados de informação.
A autora destacou, ainda, que o agronegócio contemporâneo opera por meio de uma complexa organização em rede. Desse modo, sua reprodução depende da articulação entre múltiplos agentes e atividades: centros de pesquisa, empresas de assistência técnica, instituições financeiras, operadores logísticos, armazenadores, startups, corporações agroindustriais etc. E é por essa razão que não é possível compreender o agronegócio restringindo a análise aos espaços da produção agrícola propriamente dita. Por conseguinte, o estudo desse complexo segmento econômico exige, segundo a professora Denise Elias, abordagens intersetoriais, multiescalares e capazes de captar os circuitos globais que articulam produção, circulação, financiamento, inovação e consumo, entre outros dimensões.
Foi nesse momento que a autora atribuiu papel central às corporações transnacionais. Em sua perspectiva, empresas agrícolas, agroindustriais, agroquímicas, fumageiras e de biotecnologia figuram entre os principais agentes responsáveis pela expansão do agronegócio globalizado. Assim, acompanhando os argumentos da autora, podemos dizer que o poder dessas corporações decorre não apenas da escala das operações ou do volume de recursos mobilizados, mas também da capacidade de controlar extensas áreas, coordenar atividades dispersas territorialmente e influenciar decisões estatais por meio de mecanismos permanentes de pressão política e lobby institucional.
Daí a ênfase da autora na expansão espacial do agronegócio, outro tema amplamente discutido. Para ela, os avanços tecnológicos permitiram incorporar sucessivamente novos territórios aos circuitos globais de produção de commodities, num processo de ocupação do “exército de lugares de reserva”. Inicialmente concentrada no Cerrado e no Centro-Oeste, essa expansão passou a atingir, sobretudo a partir dos anos 1990, praticamente todos os biomas brasileiros, incluindo o Semiárido nordestino e a Amazônia. Ao mesmo tempo, verificou-se a intensificação produtiva nas áreas já consolidadas das regiões Sul e Sudeste. O resultado foi uma profunda transformação dos usos dos espaços agrários.
Nesse ponto, a autora dialogou com as formulações de Ariovaldo Umbelino de Oliveira, destacando dois processos complementares: a territorialização das corporações do agronegócio no espaço agrário e a monopolização desse mesmo espaço por grandes grupos econômicos. Cabendo lembrar que se trata de uma pequena variação do argumento original de Oliveira, que utiliza as expressões territorialização do capital monopolista e monopolização do território pelo capital. Aqui, pela importância desses conceitos para o desenvolvimento do projeto, cabe recorrer às definições originais de Oliveira (1999). Em suas palavras:
[...] a territorialização do capital monopolista [...] ocorre quando o capitalista da indústria, o proprietário da terra e o capitalista da agricultura são uma mesma pessoa ou empresa, como é frequente acontecer no setor sucroalcooleiro – nesses casos, predomina o estabelecimento da monocultura. [...] a monopolização do território pelo capital [ocorre] quando este não se territorializa como proprietário da terra, mas subordina a produção que é realizada nela ao seu controle via monopólio da circulação – situação que comporta a possibilidade de criação e reprodução camponesa e de formas de cultivo mais diversificadas (p. 105-106).
A autora também se referiu ao diálogo com Rogério Haesbaert, prefaciador de seu livro, chamando a atenção para os processos de desterritorialização que atingem agricultores familiares, comunidades quilombolas, povos indígenas e outros grupos tradicionais, frequentemente submetidos a processos de expropriação, expulsão e intensificação dos conflitos fundiários.
A autora também se ocupou das transformações promovidas pelo agronegócio nas relações sociais de produção e no mercado de trabalho. Ao fazê-lo, observou a formação de um mercado de trabalho agrícola cada vez mais complexo, marcado pela coexistência de trabalhadores altamente qualificados e de contingentes submetidos a formas intensas de superexploração. Destacou, ainda, a emergência de uma figura cada vez mais comum nas regiões produtivas: trabalhadores que residem em cidades e se deslocam diariamente para atividades agrícolas. Além disso, recuperou a formulação de José de Souza Martins acerca da sujeição formal do trabalho ao capital, identificando sua presença em setores como a avicultura, a fumicultura e a pecuária leiteira, o que encontra correspondência no já mencionado conceito de monopolização do território pelo capital.
A autora também dedicou uma parte de sua exposição para refletir sobre os impactos do agronegócio sobre a dinâmica demográfica do país. Se até a década de 1970 predominavam os fluxos migratórios dirigidos às grandes metrópoles, nas décadas seguintes observou-se o fortalecimento de movimentos voltados para cidades médias e pequenas, inclusive aquelas inseridas nas áreas de expansão do agronegócio.
Na sequência, a autora apresentou uma das suas principais contribuições teóricas: a categoria de regiões produtivas do agronegócio (RPAs). Trata-se de espaços marcados pela articulação entre áreas agrícolas altamente modernizadas e um conjunto de centros urbanos especializados no atendimento das demandas do agronegócio (consumo produtivo). Em sua opinião, nessas regiões, a dicotomia tradicional entre campo e cidade torna-se insuficiente para compreender a dinâmica territorial. E isso ocorre sobretudo porque elas estão inseridas em circuitos espaciais da produção e em círculos de cooperação que articulam diferentes lugares e escalas, subordinando crescentemente os interesses locais às exigências dos mercados globais.
Inspirada em Milton Santos, a autora argumentou que as regiões produtivas do agronegócio constituem espaços nos quais a solidariedade organizacional, associada às corporações e às redes empresariais, tende a sobrepor-se à solidariedade orgânica dos lugares. Ou seja, são territórios fortemente marcados pelas verticalidades, em outras palavras, pelas relações estabelecidas com centros externos de poder econômico e político. Daí a retomada da oposição entre lugares do fazer e lugares do reger: as regiões produtivas do agronegócio aparecendo como lugares do fazer, integrados a centros nacionais e globais de comando. O exemplo mais conhecido mencionado pela autora foi o da região de Matopiba, cuja institucionalização, em 2015, expressa esse processo de regionalização funcional às demandas do agronegócio.
A partir dessa elaboração, a autora apresentou sua segunda categoria central: as cidades do agronegócio. Nesse caso, trata-se de centros urbanos não metropolitanos nos quais se materializa parte importante das condições gerais de reprodução do capital do agronegócio. Essas cidades concentram serviços especializados, atividades financeiras, assistência técnica, comércio de insumos, gestão empresarial, armazenagem, logística, pesquisa científica e diversos outros serviços indispensáveis ao funcionamento das cadeias produtivas. Ao polarizarem extensas áreas agrícolas dinâmicas, tornam-se centros estratégicos da nova ordem urbano-regional do país.
Note-se que a autora fez questão de frisar o uso do conceito no plural. Isso porque, embora compartilhem funções semelhantes, as cidades do agronegócio apresentam trajetórias bastante distintas. Algumas correspondem a cidades preexistentes que foram refuncionalizadas pela expansão do agronegócio, como Santarém (PA), Barreiras (BA) e Balsas (MA). Outras surgiram diretamente desse processo, por meio de desmembramentos municipais e novas frentes de ocupação econômica, como Luiz Eduardo Magalhães (BA) e Nova Mutum (MT). Em todos os casos, contudo, observa-se intenso crescimento demográfico, expansão urbana acelerada e crescente especialização funcional. Para ilustrar o aspecto demográfico, a autora utilizou as seguintes tabelas.
Tabela 1 – Região Centro-Oeste: municípios inseridos em RPAs — população total e urbana (1991 e 2022).
Município | Total (1991) | Urbana (1991) | Total (2022) | Urbana (2022) |
Dourados (MS) | 135.984 | 122.856 | 243.367 | 228.516 |
Lucas do Rio Verde (MT) | 6.693 | 4.332 | 83.798 | 80.626 |
Nova Mutum (MT) | 5.542 | 2.108 | 55.839 | 49.471 |
Rondonópolis (MT) | 126.627 | 113.032 | 244.911 | 236.494 |
Sinop (MT) | 38.374 | 33.253 | 196.312 | 190.451 |
Sorriso (MT) | 16.107 | 11.325 | 110.635 | 104.672 |
Rio Verde (GO) | 96.309 | 84.142 | 225.696 | 212.580 |
Fonte: IBGE, Censos Demográficos de 1991 e 2022.
Tabela 2 – Variação da população urbana dos municípios inseridos em RPAs do Centro-Oeste (1991–2022).
Município | Variação Absoluta | Variação (%) |
Dourados (MS) | 105.660 | 86,00 |
Lucas do Rio Verde (MT) | 76.294 | 1.761,17 |
Nova Mutum (MT) | 47.363 | 2.246,82 |
Rondonópolis (MT) | 123.462 | 109,23 |
Sinop (MT) | 157.198 | 472,73 |
Sorriso (MT) | 93.347 | 824,26 |
Rio Verde (GO) | 128.438 | 152,64 |
Fonte: IBGE, Censos Demográficos de 1991 e 2022.
A autora ressaltou que as cidades do agronegócio não podem ser compreendidas isoladamente. Quer dizer, essas cidades mantêm relações permanentes com metrópoles nacionais e cidades globais, estabelecendo conexões diretas com centros financeiros, bolsas de mercadorias, instituições estatais e sedes corporativas. A seu ver, essa dinâmica produz rearranjos importantes na rede urbana brasileira, reduzindo parcialmente a macrocefalia que durante décadas caracterizou sua estrutura. Isso não significa, entretanto, a perda de centralidade das metrópoles. Ao contrário, a autora retomou a distinção entre lugares do fazer e lugares do reger para destacar que os principais centros de gestão do agronegócio continuam concentrados em cidades como São Paulo e Brasília. Enquanto a primeira abriga parcela expressiva das sedes corporativas do setor, a segunda concentra importantes estruturas de representação política e institucional do agronegócio.
As cidades do agronegócio: o avesso do direito à cidade
Ao encaminhar sua exposição para a conclusão, Denise Elias retomou outra de suas teses centrais: a de que a difusão do agronegócio ocorre de forma espacialmente seletiva, economicamente concentradora, socialmente excludente e ambientalmente devastadora. Conforme a autora, embora frequentemente associadas a indicadores de dinamismo econômico, as regiões produtivas e as cidades do agronegócio revelam os limites e as contradições desse modelo.
A autora sublinhou o fato de que a expansão da riqueza produzida pelo agronegócio não se traduz, automaticamente, em melhoria das condições de vida da população local. Ao contrário, as mesmas cidades que concentram investimentos, infraestrutura e serviços especializados tendem a apresentar novas formas de desigualdade socioespacial, expressas na ampliação do déficit habitacional, no surgimento de favelas, cortiços e loteamentos irregulares, na manutenção de extensos vazios urbanos e na precarização das condições de reprodução da vida cotidiana para amplos segmentos da população trabalhadora.
Em consonância com a autora, podemos dizer que tal situação decorre do próprio caráter corporativo desses espaços. Organizadas prioritariamente para atender às necessidades dos circuitos de acumulação do agronegócio, essas cidades tendem a privilegiar os interesses das grandes empresas e dos agentes econômicos dominantes, subordinando as demandas sociais da população local. Nesse sentido, a autora afirmou que as cidades do agronegócio constituem, em muitos aspectos, o avesso do direito à cidade. O crescimento econômico e a modernização convivendo com a ampliação da pobreza estrutural, da segregação socioespacial e das múltiplas formas de exclusão social.
A dimensão ambiental dessa forma de urbanização corporativa também foi enfatizada. A partir de dados produzidos pelo MapBiomas, a autora destacou os impactos da expansão das monoculturas, especialmente da soja, sobre os diferentes biomas brasileiros. Para evidenciar a magnitude dessas transformações, apresentou mapas do Atlas da Questão Agrária Brasileira comparando a evolução das áreas ocupadas por lavouras de soja e arroz nas últimas décadas, revelando o avanço da primeira cultura e o recuo da segunda.
Figura 1 – Quantidade produzida de soja no Brasil (1996 e 2017).

Fonte: Atlas da Questão Agrária Brasileira.
Figura 2 – Quantidade produzida de arroz no Brasil (1996 e 2017).

Fonte: Atlas da Questão Agrária Brasileira.
Como se vê, a comparação entre os mapas de expansão da soja e de retração das áreas cultivadas com arroz evidencia que a difusão do agronegócio produz consequências que vão muito além da devastação ambiental. Ao privilegiar a produção de commodities destinadas ao mercado mundial, esse processo reforça um padrão de especialização produtiva característico das economias dependentes. Conforme sugerem as formulações de Ruy Mauro Marini, a dinâmica da reprodução do capital nas formações dependentes é orientada fundamentalmente pelas exigências da acumulação em escala internacional, e não pelas necessidades de consumo da população nacional. Assim, enquanto se expandem as áreas destinadas à produção de bens voltados para a exportação, perdem importância cultivos essenciais ao abastecimento alimentar interno. Recolocam-se, portanto, os problemas da segurança e da soberania alimentar, ao mesmo tempo que se aprofunda uma das marcas estruturais da dependência: a dissociação entre a estrutura produtiva e as necessidades da nação.
A psicosfera do agronegócio e a fragilização da democracia
A dimensão política da expansão do agronegócio constituiu o último eixo da exposição. Retomando uma preocupação presente em toda a sua obra, a autora argumentou que a consolidação do agronegócio globalizado não depende apenas de infraestruturas materiais, investimentos produtivos ou inovações tecnológicas. Ela exige igualmente a construção de uma poderosa psicosfera capaz de legitimar socialmente esse modelo.
Mais uma vez inspirada nas elaborações de Milton Santos, a autora utilizou o conceito de psicosfera para designar o conjunto de discursos, representações, valores e imagens que contribuem para naturalizar a expansão do agronegócio e obscurecer seus efeitos sociais, territoriais e ambientais. Trata-se, portanto, da produção sistemática de um imaginário favorável ao setor, difundido por meio da publicidade, dos meios de comunicação, de instituições empresariais, de centros de pesquisa e de diferentes aparelhos privados de hegemonia.
Como exemplo emblemático, mencionou a ampla repercussão da campanha “Agro é tech, agro é pop, agro é tudo”, que contribuiu para consolidar uma representação do agronegócio associada à modernidade, à eficiência econômica e ao progresso nacional. Segundo a autora, a força dessa narrativa reside justamente em sua capacidade de ocultar as contradições inerentes ao modelo, transformando interesses particulares em supostos interesses gerais da sociedade brasileira.
Por fim, a autora destacou que a crescente influência política dos agentes do agronegócio constitui outro elemento fundamental para compreender sua força contemporânea. Em sua perspectiva, a expressiva presença da chamada bancada ruralista no Congresso Nacional, articulada a organizações empresariais e a diferentes instâncias de representação setorial, demonstra a capacidade desses grupos de influenciar decisões estatais, moldar políticas públicas e defender seus interesses em escala nacional.
Contudo, a expansão desse poder não ocorre sem tensões e resistências. Ao contrário, ela está associada à intensificação dos conflitos fundiários, territoriais e ambientais em diferentes regiões do país, envolvendo agricultores familiares, povos indígenas, comunidades quilombolas, populações tradicionais e trabalhadores rurais. Nessa perspectiva, a expansão do agronegócio aparece não apenas como um processo econômico ou produtivo, mas também como uma disputa permanente pelo controle da terra, dos recursos naturais, das políticas públicas e dos próprios sentidos atribuídos ao desenvolvimento nacional.
Questões e interlocuções com o projeto
Como de costume, a etapa final do encontro foi dedicada ao debate com a autora. Mais uma vez, inicialmente, nós mesmos, na condição de animadores do projeto, formulamos um conjunto de questões diretamente relacionadas às hipóteses que vêm orientando o desenvolvimento de nossa pesquisa coletiva. Em seguida, o debate foi ampliado pelas intervenções das demais pesquisadoras e pesquisadores presentes.
A primeira questão partiu de uma preocupação metodológica. Observou-se que, ao longo do livro, a professora Denise Elias demonstra como a expansão do agronegócio produz simultaneamente tendências à homogeneização e à diferenciação dos territórios. De um lado, verifica-se a difusão de sistemas técnicos, normas, infraestruturas e formas organizacionais semelhantes. De outro, cada região produtiva apresenta características próprias, determinadas pelas especificidades dos produtos cultivados, das cadeias produtivas e dos mercados aos quais se vinculam. A questão dialogava diretamente com a abordagem do padrão de reprodução do capital, que enfatiza a necessidade de compreender como a lógica geral da acumulação se materializa em valores de uso, setores econômicos e configurações territoriais específicas. Nesse sentido, perguntamos à autora como articular, metodologicamente, a análise das diferenças concretas sem perder de vista a unidade do processo. Em outras palavras, como reconhecer, por trás da diversidade das regiões produtivas do agronegócio, a operação de uma lógica comum? A questão possui relevância particular para o projeto, uma vez que a pesquisa busca construir sínteses capazes de articular fenômenos distintos (como agronegócio, mineração, logística etc.) sem dissolver suas especificidades.
A segunda pergunta aprofundou essa preocupação em uma chave mais conceitual. Partindo da definição das regiões produtivas e cidades do agronegócio como espaços nos quais as verticalidades tendem a subordinar as horizontalidades, questionamos em que medida os pares de categorias mobilizados pela autora (ordem global e ordem local, lugares do fazer e lugares do reger, solidariedade organizacional e solidariedade orgânica) poderiam ser aplicados à compreensão de outras morfologias socioterritoriais contemporâneas. O interesse dessa questão consistia em avaliar o potencial dessas categorias, próprias da obra de Milton Santos, para a construção de uma interpretação mais abrangente dos processos contemporâneos de reestruturação da ordem urbano-regional brasileira.
A terceira questão voltou-se para o papel das metrópoles na organização territorial do agronegócio. Como ficou claro, as pesquisas da autora demonstram que, embora determinadas cidades do agronegócio exerçam centralidade sobre extensas regiões produtivas, elas permanecem fundamentalmente como lugares do fazer. Isso porque o comando efetivo dos circuitos econômicos continua concentrado em centros superiores da hierarquia urbana, particularmente em São Paulo, onde se localizam importantes sedes corporativas, instituições financeiras e estruturas de gestão empresarial. Assim, tomando como referência debates anteriores do projeto, especialmente a discussão sobre colonialismo interno, questionamos se as metrópoles brasileiras não desempenhariam um papel simultaneamente contraditório de dominação e subordinação. Dominação em relação aos territórios produtivos sobre os quais exercem funções de comando; subordinação em relação aos centros globais de decisão que condicionam os rumos da acumulação. A pergunta procurava explorar a hipótese de que cidades como São Paulo poderiam ser interpretadas como lugares do reger subalternos ou como nós de comando da própria dependência.
A quarta questão abordou diretamente a dimensão política da expansão do agronegócio. Considerando as evidências apresentadas pela autora sobre a influência das associações empresariais, dos aparelhos privados de hegemonia e da presença recorrente de representantes do setor em cargos políticos locais, regionais e nacionais, questionamos qual seria, afinal, o lugar ocupado pelo agronegócio no bloco no poder brasileiro. A questão remetia a um debate clássico e procurava esclarecer se o agronegócio deveria ser compreendido como uma fração burguesa efetivamente hegemônica na condução da política econômica e territorial do país, sobretudo após a ascensão do bolsonarismo, ou se sua atuação continua subordinada à hegemonia mais ampla exercida pelo capital financeiro.
O debate foi enriquecido por mais duas intervenções. Em primeiro lugar, foram recuperadas as contribuições de Bertha Becker para questionar o papel estratégico da Amazônia no contexto da expansão do agronegócio. Seja como for, a intervenção estava mais voltada para questionar quais seriam, hoje, os principais “espaços de esperança” e as possibilidades concretas de enfrentamento das contradições produzidas por essa expansão, sobretudo diante da crescente alienação promovida pela difusão da psicosfera do agronegócio.
Por sua vez, a segunda intervenção procurou aprofundar a discussão sobre a natureza específica da modernização promovida pelo agronegócio. Partindo do entendimento de que o capitalismo dependente brasileiro historicamente se reproduz mediante a apropriação simultânea do fundo do trabalho, do fundo da natureza e do fundo público, observou-se que a modernização tecnológica do setor não elimina mecanismos tradicionais de exploração e expropriação. A questão procurou avaliar em que medida as inovações técnicas associadas ao agronegócio estariam menos orientadas para um processo efetivo de modernização produtiva e mais voltadas para ampliar a capacidade de apropriação territorial do capital. Em outras palavras, perguntou-se se a modernização observada não reforçaria, paradoxalmente, mecanismos de acumulação por espoliação, permitindo a contínua incorporação de novas terras, recursos naturais e populações aos circuitos de valorização do capital.
Respostas da autora: agronegócio, dependência e alternativas
Ao responder às questões formuladas pelos animadores do projeto e pelos demais participantes, a autora retomou diversos aspectos centrais de sua trajetória intelectual, oferecendo esclarecimentos metodológicos, teóricos e políticos que ajudaram a aprofundar os temas discutidos ao longo da exposição.
Em relação à primeira questão, sobre o desafio de articular homogeneização e diferenciação na análise das regiões produtivas do agronegócio, a autora enfatizou a importância de partir de um quadro teórico sólido e claramente delimitado. Embora suas pesquisas possuam forte ancoragem empírica, destacou que a investigação nunca pode perder de vista os processos mais gerais que orientam a produção do espaço. Nesse sentido, observou que a construção teórica não é uma etapa posterior à pesquisa, mas algo que a acompanha desde o início, servindo como guia para a seleção dos fenômenos relevantes e para a interpretação das evidências empíricas. Segundo a autora, o primeiro passo consiste em definir, com clareza, quais são os processos que se pretende investigar. Somente a partir dessa definição torna-se possível comparar lugares distintos sem perder de vista a unidade do fenômeno estudado. Para tanto, é necessário identificar os principais agentes, práticas e relações sociais envolvidos em cada caso, observando, por exemplo, as articulações entre Estado e mercado, entre agentes tradicionais e novos agentes econômicos, bem como as diferentes combinações entre formas antigas e novas de organização da produção e do território. Em síntese, a autora argumentou que a análise comparativa exige simultaneamente atenção às particularidades dos lugares e rigor na definição dos processos estruturantes que conferem unidade ao objeto de estudo.
A resposta à segunda questão seguiu direção semelhante. Ao ser indagada sobre a possibilidade de aplicar os pares conceituais mobilizados em suas pesquisas sobre o agronegócio à análise de outras morfologias socioterritoriais, a autora reiterou que a validade dessas categorias depende, antes de tudo, da consistência da construção teórica. Observou que não existe uma teoria única capaz de explicar a totalidade dos fenômenos espaciais, mas ressaltou a extraordinária potência analítica do legado de Milton Santos para a compreensão de diferentes processos contemporâneos de reorganização territorial. Além disso, ponderou que a escolha das categorias deve sempre considerar as especificidades do objeto investigado, o que frequentemente exige certo ecletismo teórico.
A discussão sobre o papel das metrópoles permitiu à autora estabelecer um diálogo mais direto com as hipóteses do projeto. Retomando formulações já presentes em A urbanização brasileira, de Milton Santos, a professora Denise Elias observou que muitos dos processos atualmente associados à expansão do agronegócio e à reestruturação urbano-regional já haviam sido identificados há décadas. Em particular, destacou a importância da noção de involução metropolitana para compreender as transformações recentes da rede urbana brasileira. Segundo sua interpretação, as metrópoles não perderam centralidade econômica, política ou funcional. O que ocorreu foi a difusão de parte do dinamismo econômico para outros espaços do território nacional, especialmente aqueles vinculados às novas fronteiras de acumulação. Por conseguinte, a hierarquia urbana tornou-se mais complexa, mas as metrópoles continuam desempenhando funções decisivas de coordenação e comando.
Ao responder à intervenção sobre os espaços de esperança e as possibilidades de enfrentamento das contradições produzidas pelo agronegócio, a autora procurou deslocar o debate para o horizonte das alternativas. Reconhecendo a gravidade dos problemas sociais, territoriais e ambientais discutidos ao longo do encontro, defendeu que a análise crítica não pode prescindir da reflexão sobre futuros possíveis. Nessa direção, apontou o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) como uma das experiências mais importantes de construção de alternativas no Brasil contemporâneo. Destacou, em particular, a defesa da agroecologia e da reforma agrária popular como expressões concretas de um projeto de sociedade distinto daquele representado pelo agronegócio. Segundo a autora, a trajetória recente do movimento evidencia uma mudança significativa de perspectiva: da luta pela ocupação da terra para a afirmação de propostas capazes de demonstrar, na prática, a viabilidade de outras formas de produção de alimentos, organização do território e relação com a natureza.
Por fim, respondendo à intervenção sobre a natureza da modernização promovida pelo agronegócio, a autora ressaltou que a expansão contemporânea do capitalismo agrário combina, de fato, formas altamente sofisticadas de modernização tecnológica com mecanismos historicamente associados à expropriação e à apropriação extensiva de recursos territoriais. As fronteiras agrícolas, argumentou, continuam desempenhando papel fundamental na reprodução do capital, funcionando como espaços de incorporação de novas terras, recursos naturais e oportunidades de valorização. Porém, esse movimento não se restringe à apropriação direta do território. A autora chamou atenção para a crescente centralidade do fundo público nesse processo, destacando a importância das transformações institucionais ocorridas nos últimos anos. Mencionou, por exemplo, a criação de novos instrumentos voltados à financeirização do agronegócio, entre eles os fundos de investimento vinculados ao setor, que ampliam as possibilidades de apropriação privada da renda fundiária e dos ativos territoriais.
Sínteses e questões complementares
A exposição da professora Denise Elias ofereceu importantes elementos para o aprofundamento de algumas das hipóteses que vêm orientando o desenvolvimento do projeto. Em primeiro lugar, suas pesquisas constituem uma demonstração empírica particularmente robusta daquilo que a literatura inspirada na teoria marxista da dependência tem denominado padrão de reprodução do capital exportador de especialização produtiva. Isso se evidencia tanto pela natureza dos valores de uso produzidos, commodities agrícolas voltadas prioritariamente ao mercado mundial, quanto pela presença decisiva de grandes grupos transnacionais nos diferentes momentos do ciclo do capital. A partir dessa inserção subordinada na divisão internacional do trabalho, a autora mostra como a expansão do agronegócio reorganiza o território, redefine as relações entre campo e cidade, reestrutura a rede urbana e produz novas formas de articulação entre escalas locais, nacionais e globais.
Além disso, sua análise permite compreender como as transformações recentes do agronegócio contribuem para aprofundar tendências de fragmentação territorial e de desintegração competitiva do espaço nacional. Se a formação da rede urbana brasileira esteve historicamente associada, ainda que de forma desigual, a movimentos de integração econômica e territorial, a crescente especialização produtiva de determinadas regiões em função das demandas dos mercados globais parece apontar para uma lógica distinta. Para nós, a constituição de regiões produtivas fortemente articuladas aos circuitos internacionais de acumulação e relativamente desvinculadas de seus entornos imediatos recoloca, em novos termos, a questão da integração nacional. No limite, trata-se de refletir sobre processos que podem comprometer, ainda mais, a própria capacidade da sociedade brasileira de controlar sua historicidade e definir autonomamente os rumos de seu desenvolvimento.
Outro aspecto relevante diz respeito à compreensão das formas contemporâneas de rentismo. A análise desenvolvida pela autora sugere que a apropriação da renda não se limita ao controle direto da terra. A complexa organização econômica, tecnológica e financeira do agronegócio permite que grandes grupos empresariais subordinem produtores familiares e pequenos proprietários por meio do controle dos insumos, do crédito, da assistência técnica, do armazenamento, da logística e da comercialização. Em tais circunstâncias, parcelas significativas do excedente produzido são transferidas para os agentes que controlam os circuitos superiores da acumulação, revelando mecanismos de extração de renda que ultrapassam amplamente a propriedade fundiária em sentido estrito.
Também cabe notar que a agenda da autora sobre o agronegócio permite estabelecer diálogos com interpretações que enfatizam a centralidade da apropriação territorial na reprodução do capitalismo dependente. Sendo assim, acreditamos que suas formulações dialogam particularmente com a tese desenvolvida por Maria da Conceição Tavares (1999) em Império, Território e Dinheiro, segundo a qual a expansão permanente das fronteiras de acumulação constitui um dos mecanismos fundamentais de reprodução das classes dominantes brasileiras. Nessa perspectiva, a apropriação de novos territórios, recursos naturais e espaços de valorização não representa um fenômeno conjuntural, mas uma dimensão estrutural da dinâmica de acumulação em uma economia marcada pela dependência. Em suma, a nosso ver, a expansão das regiões produtivas do agronegócio pode ser compreendida como expressão contemporânea desse movimento.
Isso suscita, além do mais, outra questão promissora para o desenvolvimento do projeto, que poderíamos enunciar do seguinte modo: em que medida aquilo que Milton Santos denominou produtividade espacial pode ser associado à incorporação de novos sistemas técnicos capazes de ampliar a apropriação do chamado “exército de reserva de lugares”? Sem dúvida, a combinação entre novas tecnologias de informação, inteligência artificial, monitoramento remoto e mecanismos de financeirização parece potencializar a capacidade dos grandes capitais de identificar, controlar e incorporar novas áreas à dinâmica de acumulação. Enfim, em nossa opinião, trata-se de uma hipótese que pode contribuir para compreender não apenas as formas contemporâneas de expansão territorial do agronegócio, mas o que se passa em outros setores que funcionam como eixos do novo padrão de reprodução do capital.
Por último, como foi estabelecido para essa nova fase do projeto, o quadro a seguir constitui um exercício exploratório de síntese entre a exposição da autora e os eixos analíticos organizadores das hipóteses do projeto.
Quadro 1 – Sínteses e desdobramentos possíveis entre a exposição da autora e os eixos analíticos do projeto.
Eixos analíticos | Sínteses e/ou desdobramentos possíveis |
Urbanização planetária e/ou extensiva | Ao analisar as regiões produtivas e as cidades do agronegócio, a autora evidencia como a difusão das relações capitalistas no campo mobiliza infraestruturas, serviços especializados e fluxos materiais e imateriais que articulam áreas cada vez mais amplas ao metabolismo urbano-regional. Seus resultados reforçam, portanto, a hipótese de que a urbanização extrapola seus limites tradicionais, avançando por meio da incorporação funcional de extensas porções do território nacional às exigências da acumulação global. |
Homogeneização e diferenciação do território | Como visto, a expansão do agronegócio promove a difusão de sistemas técnicos, normas, infraestruturas e formas organizacionais relativamente homogêneas, associadas às exigências das cadeias de commodities. Ao mesmo tempo, essas tendências se materializam de maneira diferenciada, conforme as especificidades dos produtos cultivados, dos mercados consumidores, das condições naturais e regionais. A pesquisa oferece, assim, um importante exemplo de como a homogeneização produzida pelo capital se realiza por meio da permanente produção de diferenciações territoriais. |
Urbanização subdesenvolvida | As cidades do agronegócio constituem expressões emblemáticas das contradições da urbanização brasileira contemporânea. Embora concentrem investimentos, modernização tecnológica e elevado dinamismo econômico, apresentam, simultaneamente, déficits habitacionais, segregação socioespacial, precariedade dos serviços urbanos e múltiplas formas de exclusão social. Em diversos momentos, a autora caracteriza essas cidades como o avesso do direito à cidade. Dessa maneira, suas pesquisas reforçam a hipótese de que a modernização econômica promovida pelo novo padrão de reprodução do capital não implica a superação das características históricas da urbanização periférica e dependente. |
Fragmentação do território | A noção de regiões produtivas do agronegócio oferece importantes contribuições para compreender as formas contemporâneas de fragmentação territorial. Conforme demonstrado pela autora, a expansão do agronegócio se realiza por meio de usos altamente seletivos do território, concentrando investimentos, infraestruturas e sistemas técnicos em determinadas áreas dotadas de maior produtividade espacial, ao mesmo tempo que amplia a especialização produtiva e aprofunda a divisão territorial do trabalho. Esse processo resulta na constituição de regiões fortemente integradas às cadeias de commodities e subordinadas às estratégias das corporações transnacionais, cujos vínculos com circuitos externos de acumulação tendem a se sobrepor às relações estabelecidas com o próprio território nacional. Em diversos casos, a intensificação dessa dinâmica foi acompanhada pela criação e pelo desmembramento de municípios, evidenciando a emergência de novas territorialidades diretamente associadas à expansão do agronegócio. |
Desconcentração/reconcentração urbana | O crescimento das cidades do agronegócio revela importantes movimentos de desconcentração relativa de atividades econômicas e funções urbanas para cidades médias e pequenas situadas fora das centralidades tradicionais. No entanto, a pesquisa demonstra que essa dispersão territorial da produção não elimina a centralidade dos principais centros de comando da economia nacional. As metrópoles, especialmente São Paulo, continuam concentrando as funções superiores de gestão, finanças, pesquisa, inovação e decisão corporativa. Os resultados reforçam, assim, a hipótese de uma combinação contraditória entre desconcentração espacial das atividades produtivas e reconcentração das funções estratégicas de comando. |
Conexão entre a precariedade do trabalho e a precariedade da vida urbana | As transformações promovidas pelo agronegócio evidenciam a estreita articulação entre superexploração do trabalho e precarização das condições urbanas de reprodução da força de trabalho. A formação de um mercado de trabalho agrícola formal, mas marcado por baixos salários, intensificação do trabalho e forte vulnerabilidade social, ocorre paralelamente à expansão de periferias precárias, favelas, loteamentos irregulares e déficits habitacionais nas cidades do agronegócio. |
Promoção estatal do novo padrão de reprodução do capital | A autora atribui papel decisivo ao Estado na constituição das condições gerais necessárias à expansão do agronegócio, tanto no nível da tecnosfera quando no nível da psicosfera. Investimentos em infraestrutura, crédito subsidiado, pesquisa agropecuária, incentivos fiscais, flexibilizações regulatórias e marcos jurídicos favoráveis aparecem como elementos estruturantes desse processo. Além disso, as pesquisas da autora evidenciam a forte articulação entre os agentes do agronegócio e diferentes instâncias do aparelho estatal, revelando como o Estado participa ativamente da produção das condições territoriais, institucionais e normativas necessárias ao padrão exportador de especialização produtiva. |
Fonte: elaboração dos autores.
Referências
ELIAS, Denise. A produção da fábula do agronegócio no Brasil: novas e velhas faces da dependência. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2025.
OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. Geografia agrária: perspectivas no início do século XXI. In: CARLOS, Ana Fani Alessandri (org.). Novos caminhos da geografia. São Paulo: Contexto, 1999. p. 63-110.
TAVARES, Maria da Conceição. Império, território e dinheiro. In: FIORI, José Luís (org.). Estados e moedas no desenvolvimento das nações. Petrópolis: Vozes, 1999. p. 449-489.



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