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Memória - 02/09/2026 - Participação: Prof. Dr. Alexandre Yassu

Foto do escritor: Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz
há 6 dias
24 min de leitura

ESTADO, FINANÇAS E LOGÍSTICA NA REESTRUTURAÇÃO DO ESPAÇO NACIONAL


Por Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e Nelson Diniz




Introdução


Em mais uma sessão do projeto, Alexandre Yassu trouxe para o debate uma nova perspectiva sobre as transformações urbano-regionais que estamos investigando: a articulação entre Estado, finanças e logística. Embora a logística já tivesse sido explorada na sessão dedicada à pesquisa de Aldo Garcia, a contribuição de Yassu permitiu aprofundar sua relação com a centralidade das finanças, ao enfatizar os processos de “financeirização das infraestruturas”. Como foi possível notar, partindo do avanço da agricultura corporativa, o autor demonstrou como a expansão de novas fronteiras agrícolas se articula à criação de sistemas logísticos indispensáveis ao processo de inserção fragmentada do país nos circuitos contemporâneos de comercialização de commodities. O Arco Norte, seu objeto de pesquisa, particularmente o corredor logístico do Tapajós, constitui, nesse sentido, um espaço privilegiado para apreender concretamente esse processo e seus efeitos sobre a organização do espaço brasileiro.


Cabe dizer que esse percurso estabelece certa continuidade com a trajetória anterior de pesquisa do autor. Em sua dissertação de mestrado, Yassu havia investigado como a reestruturação imobiliária e a financeirização urbana estão modificando o município de Cajamar, na Região Metropolitana de São Paulo, em virtude de sua especialização no segmento de galpões e condomínios logísticos. No entanto, em sua tese de doutorado, intitulada “Os nexos entre Estado, finanças e logística na reestruturação do espaço nacional: um olhar a partir do Arco Norte e do corredor logístico do Tapajós”, a problemática da logística foi enquadrada em uma escala espaço-temporal muito mais abrangente. Além disso, a passagem da noção de “arranjos multiescalares”, presente na dissertação, para a de “coalizão rentista neoextrativista” denota uma ênfase maior na dimensão das práticas e dos interesses dos agentes da produção social do espaço, algo que temos perseguido, cada vez mais, no âmbito do projeto.


Foi a partir de uma síntese de sua tese que o autor desenvolveu a apresentação. Ao fazê-lo, o Arco Norte foi considerado como uma grande agenda territorial que vem se constituindo como “projeto nacional” da coalizão rentista neoextrativista. Não se trata, contudo, de um projeto fechado ou de um plano integrado, formulado previamente e conduzido por um único agente. Na verdade, o Arco Norte reúne diferentes projetos, rotas, infraestruturas e interesses que, embora possam envolver disputas e conflitos entre seus protagonistas, convergem para a criação de novas condições territoriais de expansão do neoextrativismo. Como se verá, é justamente essa característica que permite compreendê-lo como uma agenda aberta e flexível, capaz de incorporar diferentes iniciativas e, ao mesmo tempo, expressar uma direção comum.


Exposição do autor: das determinações gerais do capitalismo contemporâneo ao corredor logístico do Tapajós


Após uma breve contextualização de seu interesse pelo objeto de estudo, a exposição de Alexandre Yassu teve como ponto de partida o avanço da agricultura corporativa e sua relação com as transformações recentes do capitalismo brasileiro. Para ilustrar esse avanço, podemos mobilizar um mapa elaborado pelo autor (Figura 1), que permite visualizar a expansão das áreas destinadas ao cultivo de soja e o deslocamento da fronteira agrícola em direção às regiões Centro-Oeste e Norte do país.



Figura 1 – Brasil: distribuição da produção de soja por municípios 1974-2022


Fonte: Elaborado por Yassu (2026) com base em dados do SIDRA-IBGE.


Embora a Figura 1 não tenha sido utilizada durante a apresentação, ela é particularmente reveladora, sobretudo quando comparada com outros dados aos quais o autor se referiu ao longo de sua exposição, a exemplo dos que dizem respeito ao volume de exportação de soja por microrregiões do país nos anos de 2000 e 2022 (Figura 2).

Ao compararmos as Figuras 1 e 2, fica bastante evidente o alcance da expansão da “agricultura corporativa” no Brasil. E aqui cabe mencionar uma ressalva feita logo no início da apresentação. Segundo o autor, a expressão “agricultura corporativa” seria mais adequada que o conceito de “agronegócio”, sobretudo porque o último adquiriu um forte sentido político e ideológico, associado à construção de uma narrativa de modernização, eficiência e vocação exportadora do país.


Figura 2 – Volume de soja exportada por microrregião nos anos de 2000 e 2022

2000

2022

Fonte: Elaborado por Yassu (2026) com base em dados da Embrapa.


Além disso, a análise das tendências ilustradas nas Figuras 1 e 2 deve ser situada em uma conjuntura econômica específica: a do chamado “superciclo das commodities”, aproximadamente entre 2003 e 2015, período marcado pela expressiva elevação dos preços internacionais de bens agrícolas e minerais (Figura 3). Essa conjuntura esteve associada à expansão da demanda internacional por esses produtos, especialmente por parte da China, e contribuiu para elevar a rentabilidade das atividades vinculadas à sua produção e comercialização. No caso brasileiro, esse movimento reforçou a especialização produtiva em atividades primário-exportadoras e estimulou novos investimentos na ampliação das áreas destinadas à produção de commodities, particularmente nas regiões de fronteira agrícola. Ou seja, a expansão da produção não se limitou, evidentemente, ao aumento da produtividade ou do volume produzido, mas envolveu também um processo de expansão territorial, acompanhado pela necessidade de criação de novas infraestruturas e sistemas logísticos capazes de conectar essas áreas aos circuitos de comercialização.


Figura 3 – Oscilação dos preços de commodities (índice metal, soja e milho)

Fonte: Elaborado por Yassu (2026) com base em dados do FMI.


Conforme a exposição do autor, na conjuntura do superciclo das commodities, especialmente após a crise financeira internacional de 2007-2008, a busca por novas oportunidades de valorização contribuiu para aproximar os circuitos financeiros dos mercados de commodities agrícolas e minerais, em um contexto marcado também pela forte expansão da demanda chinesa. Em nossa opinião, esse movimento pode ser interpretado à luz do argumento de David Harvey (2013) sobre o “capital switching”, segundo o qual, diante das dificuldades de valorização em determinados circuitos, o capital tende a buscar outros campos de investimento capazes de oferecer novas possibilidades de rentabilidade.


Em resumo, essa convergência entre finanças e commodities reforçou a centralidade das atividades primário-exportadoras na economia brasileira, ampliou o peso dos produtos primários na pauta de exportações do país, aprofundando o processo de reprimarização, e estimulou a expansão territorial da agricultura corporativa em direção às novas fronteiras agrícolas. Além disso, intensificou conflitos fundiários e ambientais associados à transformação dos usos do solo e à pressão sobre áreas de cerrado e floresta, territórios indígenas e outros espaços de ocupação tradicional.


O Arco Norte como agenda e “projeto nacional” da coalizão rentista neoextrativista


Foi a partir dessa problemática que Yassu introduziu o Arco Norte como uma grande agenda territorial associada à expansão do neoextrativismo. Como já mencionado, o autor ressaltou que não se trata propriamente de um plano único, acabado e previamente definido, mas de uma agenda que reúne diferentes projetos, rotas e infraestruturas voltados à reorganização dos fluxos de commodities para os portos situados na porção setentrional do Brasil. A Figura 4 oferece um panorama dessa agenda.


A configuração dessa iniciativa é, portanto, aberta e flexível, resultando da atuação articulada, ainda que não necessariamente convergente em todos os aspectos, de diferentes agentes que operam em distintas escalas. Entre eles, destacam-se o Estado, em suas diferentes instâncias e níveis de governo, e um conjunto de associações empresariais/setoriais, que podemos compreender como aparelhos privados de hegemonia, no sentido gramsciano, responsáveis pela produção e difusão de discursos, diagnósticos e argumentos destinados a conferir legitimidade às transformações pretendidas.


Dessa maneira, ainda conforme os argumentos do autor, a agenda do Arco Norte se constitui por meio da articulação entre iniciativas e interesses que se projetam do âmbito local e regional ao nacional e internacional, conformando uma direção relativamente comum de transformação do território em favor da expansão das atividades neoextrativistas e de sua conexão com os circuitos de valorização do capital.


Figura 4 – Brasil e o Arco Norte: Soja e Milho - mancha da produção e volume de exportação por porto ou terminal (2022)

Fonte: Reproduzido por Yassu (2026) a partir de Caldeira, Lopes e Gasques (2023).


Como é possível notar na Figura 4, essa agenda implica uma mudança importante na geografia dos fluxos de exportação. Historicamente, grande parte da produção agrícola brasileira destinada ao mercado externo foi escoada pelos portos das regiões Sul e Sudeste. Todavia, a expansão das fronteiras agrícolas em direção ao Centro-Oeste e à Amazônia tornou estratégica a busca por rotas alternativas, mais próximas das novas áreas produtoras. Nesse processo, segundo Yassu, o paralelo 16° Sul adquiriu particular importância como referência para a construção da própria ideia do Arco Norte. Tomado como uma linha divisória entre as áreas de produção situadas ao Norte e ao Sul desse paralelo, ele é mobilizado para sustentar o argumento de que grande parte da produção agrícola localizada ao norte dessa latitude encontraria nos portos amazônicos e nordestinos suas rotas de escoamento mais competitivas.


Como dito, Yassu apresentou o Arco Norte como um projeto nacional da chamada coalizão rentista neoextrativista. Para ele, a noção de coalizão permite compreender a convergência de interesses de diferentes frações do capital. Entre elas, destacam-se o capital vinculado à agricultura corporativa e às atividades agroexportadoras, as empresas de logística e infraestrutura e a fração financeira. Esses interesses se articulam, por sua vez, com diferentes instâncias do Estado, envolvendo, ainda, organizações e associações empresariais, que participam da formulação e da difusão dessa agenda. A Figura 5 ajuda a compreender o que está em questão.


Figura 5 – Esquema da coalização rentista neoextrativista

Fonte: Elaborado por Yassu (2026).


Trata-se, portanto, de uma articulação que envolve agentes privados e estatais situados em diferentes escalas, desde produtores e empresas vinculadas às cadeias de commodities e aos projetos de infraestrutura até grandes corporações, investidores, instituições financeiras e aparelhos privados de hegemonia.


A transformação do planejamento e a emergência de uma racionalidade tecnocrática rentista e logística


A consolidação dessa agenda territorial está associada, segundo Yassu, a uma mudança nas formas de planejamento e provisão das infraestruturas. O que está em jogo não é apenas a adoção de novos instrumentos, mas a superação de uma racionalidade de planejamento que atribuía ao Estado maior capacidade de definir, a partir de objetivos políticos e econômicos mais amplos, as prioridades de organização do território e de provisão das infraestruturas. Em seu lugar, ganham importância modalidades de planejamento orientadas pela constituição de portfólios de projetos capazes de atrair investidores privados. Ou seja, a infraestrutura deixa progressivamente de ser concebida como parte de uma estratégia abrangente de organização territorial, sendo tratada como um conjunto de projetos individualizáveis, cuja seleção e priorização dependem crescentemente de critérios de viabilidade financeira e rentabilidade.


Foi nesse contexto que Yassu identificou a emergência de uma “tecnocracia rentista e logística”. Nesses termos, a utilização de modelos, projeções e métricas logísticas e financeiras confere aos processos decisórios uma aparência de neutralidade e objetividade técnica. Assim, as escolhas relativas às infraestruturas são apresentadas como resultado de cálculos sobre fluxos, custos, demanda e retorno dos investimentos. Produz-se, desse modo, um “funil de decisões” que tende a privilegiar determinados fluxos e usos considerados mais lucrativos, afastando do processo decisório outras demandas e concepções sobre o território e suas formas de uso e apropriação. Como observou o autor, esse mecanismo se apresenta como supostamente “pós-político”, embora produza efeitos profundamente políticos sobre a seleção dos espaços e dos projetos que devem receber investimentos.


Nesse momento da apresentação, Yassu definiu o que chama de “arbitragem financeira espacial”. Para ele, no período contemporâneo, o território é avaliado, fundamentalmente, em função da capacidade diferenciada de determinadas infraestruturas e localizações de produzir retornos econômicos e financeiros. Ainda que a “financeirização realmente existente” das infraestruturas, para utilizar mais uma expressão do autor, não corresponda simplesmente à substituição do Estado pelo mercado. Ao contrário, trata-se, em sua opinião, de uma articulação na qual o Estado continua desempenhando papel decisivo, tanto na produção das condições materiais e institucionais necessárias aos investimentos quanto, em determinados casos, no próprio financiamento das operações e na assunção de parte significativa dos riscos envolvidos.


Em síntese, são criadas condições para que empresas privadas assumam a concessão e a exploração das infraestruturas, enquanto parcelas dos custos, dos riscos e das condições de viabilidade dos empreendimentos permanecem socializadas ou garantidas pelo poder público. A financeirização das infraestruturas deve ser compreendida, portanto, não como retração do Estado, mas como uma reconfiguração de suas funções e de sua articulação com o capital privado e financeiro, mediante novas modalidades de concessão, financiamento e gestão que permitem combinar a mobilização de recursos públicos com a apropriação privada dos rendimentos gerados pela exploração dos ativos.


O corredor logístico do Tapajós: infraestrutura, finanças e conflitos territoriais


Por fim, a análise do corredor logístico do Tapajós permitiu a Yassu aproximar essas formulações mais gerais das transformações concretas do território. Como é possível observar na Figura 6, o corredor conecta a fronteira agrícola do norte do Mato Grosso aos terminais portuários localizados na região de Miritituba e Santarém, no Pará, articulando diferentes modalidades de transporte e constituindo uma das principais vias de escoamento das commodities produzidas nessa área.


Figura 6 – Mapa dos corredores logísticos estratégicos – Complexo soja e milho

Fonte: Reproduzido pelo autor a partir de Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil (2017)


A escolha do corredor logístico do Tapajós como objeto empírico permitiu acompanhar a transformação dos agentes e das formas de financiamento associadas à produção da infraestrutura. Atravessando diferentes conjunturas e governos (FHC, Lula I e II, Dilma I e II, Temer e Bolsonaro), Yassu demonstrou como a BR-163 e o projeto da ferrovia Ferrogrão aparecem como expressões de diferentes momentos e modalidades de articulação entre Estado, logística e finanças.


A análise da rodovia evidenciou, por exemplo, a importância da atuação estatal na constituição das condições materiais da circulação, posteriormente combinada a processos de concessão e participação privada (Consórcio Rota do Oeste e Consórcio Via Brasil).


Já a Ferrogrão, projeto ainda em fase de tramitação regulatória, especialmente em virtude das disputas em torno dos limites do Parque Nacional do Jamanxim, deixou claro como a produção de infraestruturas na região do Arco Norte é permeada por diversos conflitos. A expansão das infraestruturas logísticas se sobrepõe a territórios ocupados por povos indígenas e comunidades tradicionais, unidades de conservação e áreas submetidas a diferentes formas de pressão ambiental.


As cartografias apresentadas por Yassu, a exemplo da Figura 7, evidenciaram a relação entre a expansão da fronteira agrícola, a implantação das infraestruturas e a intensificação dos conflitos territoriais e socioambientais na área de influência do corredor do Tapajós.


Figura 7 – Conflitos fundiários por município em 2020 com BR 163 trecho Norte, consórcio Via Brasil em destaque

Fonte: Elaborado por Yassu (2026) com base em dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT).


Fica claro, portanto, o movimento que estruturou a argumentação de Yassu: o autor partiu das determinações mais abstratas da dinâmica do capitalismo contemporâneo, passou pelas formas específicas que elas assumem na formação brasileira, particularmente com o avanço do neoextrativismo, e chegou, finalmente, às suas formas concretas de materialização no território. A análise do corredor logístico do Tapajós permitiu, assim, observar como processos relacionados à financeirização, à transformação das funções do Estado e à expansão das atividades neoextrativistas se articulam concretamente na redefinição dos usos do território.


Questões para o autor


Após a exposição, nós, na condição de animadores do projeto, dirigimos ao autor três questões que procuraram aprofundar alguns dos principais argumentos desenvolvidos em sua tese e, ao mesmo tempo, colocá-los em diálogo com as hipóteses mais gerais que orientam nossa investigação sobre a reestruturação da ordem urbano-regional brasileira.


Em primeiro lugar, retomamos a ideia de “Estado neoliberal reescalonado”, mobilizada na tese para compreender as transformações no planejamento, na provisão e na gestão das infraestruturas logísticas no Brasil. Nós pedimos que o autor explorasse um pouco mais o modo como esse processo de reescalonamento se realizava nas condições particulares de um “Estado dependente neoliberal”. Considerando, por exemplo, as contribuições apresentadas pelo professor Fernando Cézar de Macedo, nós sabíamos que, em uma formação social dependente, o fundo público havia cumprido historicamente uma função decisiva na própria acumulação, substituindo o “capital financeiro clássico” em sua função de centralização de capitais. Nesse sentido, nós perguntamos como essa e outras funções do fundo público se transformam diante da prevalência de métricas e racionalidades financeirizadas e da prioridade conferida às atividades exportadoras. Interessava-nos, particularmente, compreender o que se modifica em relação ao papel desempenhado pelo fundo público no antigo padrão industrial, com seu respectivo paradigma de desenvolvimento regional integrado.


Em segundo lugar, nós retomamos o argumento de que o Arco Norte não constituía apenas um projeto logístico, mas expressava uma estratégia de especialização territorial articulada ao avanço do neoextrativismo. Nós lembramos que, historicamente, a condição de dependência também está associada à apropriação dos fundos territoriais e à incorporação permanente de novas fronteiras. Ao mesmo tempo, autores que trabalham com uma concepção ampliada do neoextrativismo ressaltam a centralidade dessa “lógica de fronteira”, embora ela já estivesse presente na tradição do pensamento latino-americano, como nas formulações de Maria da Conceição Tavares. A partir disso, nós perguntamos o que se modifica nessa relação entre fronteira, fundos territoriais e dependência diante da emergência do atual padrão de reprodução do capital. Procuramos compreender, igualmente, de que maneira essa dinâmica aprofunda nossa condição de dependência, inclusive em sua dimensão ecológica, diante da intensificação da depredação das condições socioambientais no país.


Por fim, a terceira questão dizia respeito à caracterização do “bloco no poder” que se constitui, na tese, sob a forma de uma “coalizão rentista neoextrativista”. Nós solicitamos que o autor aprofundasse essa caracterização, especialmente no que diz respeito às diferentes frações do capital que integram essa coalizão e às relações estabelecidas entre elas. O que nos parecia particularmente importante era delimitar o papel específico da fração financeira diante das demais frações e compreender de que maneira sua posição no interior desse bloco no poder contribui para produzir vetores de fragmentação nacional. Nós perguntamos, nesse sentido, em que medida a lógica própria do capital financeiro, orientada prioritariamente para sua reprodução ampliada e relativamente indiferente às necessidades de integração do território nacional, poderia entrar em tensão com outras frações do capital e, ao mesmo tempo, participar da conformação da coalizão rentista neoextrativista.


As intervenções dos demais pesquisadores e pesquisadoras ampliaram o debate em diferentes direções, retomando questões relativas às escalas de atuação do Estado, à duração das coalizões de interesses, aos conflitos políticos e institucionais e às formas concretas de apropriação do território.


Uma primeira intervenção problematizou o próprio sentido do reescalonamento espacial do Estado, propondo que a provisão de infraestruturas logísticas fosse também compreendida como uma forma de ação geopolítica. A partir dessa perspectiva, foi questionado em que medida a produção de corredores e infraestruturas voltados à integração aos circuitos globais poderia ser interpretada não apenas como resposta às demandas do capital, mas também como parte de estratégias geopolíticas ativas do Estado. A mesma intervenção levantou uma questão importante sobre a temporalidade das coalizões identificadas na tese: seriam elas articulações circunstanciais, formadas em torno de projetos específicos, ou constituiriam alianças capazes de se prolongar no tempo e de produzir efeitos duradouros sobre a organização territorial? Também se perguntou o que haveria de efetivamente novo no padrão neoextrativista diante da longa história de expansão das fronteiras agrícolas e de apropriação territorial no Brasil. Por fim, foi colocada uma questão de natureza metodológica: como, diante da abrangência espacial e da centralidade dos modelos de análise regional mobilizados na tese, havia sido possível acessar empiricamente a escala local e apreender os processos concretos de transformação do território.

Outra intervenção deslocou o debate para a dimensão institucional e política dos conflitos entre diferentes escalas de governo. A questão central dizia respeito às formas pelas quais municípios, governos estaduais e o governo federal negociam, pactuam ou entram em conflito diante da implantação da agenda do Arco Norte. Chamou-se a atenção, particularmente, para a necessidade de considerar o peso das elites e oligarquias agrárias locais e as diferentes capacidades de intervenção dos governos subnacionais. A questão colocada foi, portanto, como a coalizão em torno do corredor do Tapajós se constituía e se reproduzia concretamente nas relações entre essas diferentes escalas estatais, considerando que os interesses envolvidos não eram necessariamente homogêneos nem convergiam de maneira automática.


Uma terceira intervenção enfatizou as contradições territoriais e socioambientais produzidas nas áreas atravessadas ou afetadas pelo corredor. Foi destacado o contraste entre a escala dos grandes projetos logísticos e a precariedade da presença estatal em dimensões elementares do planejamento e da gestão territorial local. A distância entre determinadas áreas e suas sedes municipais foi apresentada como expressão dessa assimetria, revelando territórios diretamente alcançados pelos grandes circuitos de circulação de commodities, mas nos quais a presença do Estado permanecia extremamente limitada em termos de serviços, planejamento e ordenamento territorial. A intervenção apontou, ainda, para situações nas quais a própria ação estatal poderia atuar como vetor de facilitação da degradação socioambiental, por meio de alterações nos mecanismos de proteção ambiental e de redefinições dos territórios protegidos. O caso do Parque Nacional do Jamanxim foi mobilizado justamente para problematizar essa relação, colocando em evidência as tensões entre a proteção de áreas ambientalmente relevantes, a expansão das infraestruturas logísticas e os interesses associados à produção e exportação de commodities.


Por fim, outra intervenção trouxe para o debate resultados iniciais de uma investigação sobre os processos de licenciamento ambiental em Roraima. O rastreamento dos requerentes de licenças permitia identificar a presença de empresas e grupos econômicos sediados em outras regiões do país, especialmente no Sul e no Sudeste, sugerindo a existência de redes inter-regionais de investimento, apropriação fundiária e expansão das atividades agropecuárias. A questão colocada dialogava diretamente com a preocupação da tese em compreender a articulação entre diferentes escalas e territórios, mostrando como agentes externos às áreas participavam ativamente de sua transformação.


Respostas do autor


Ao responder às questões levantadas, Yassu retomou alguns dos argumentos centrais de sua tese e procurou aproximá-los das problemáticas que orientam os debates do projeto. Suas respostas, que buscaram responder a um só tempo o conjunto das indagações, permitiram aprofundar, sobretudo, três dimensões: as formas assumidas pelo Estado dependente neoliberal, a novidade da relação contemporânea entre finanças, fronteira e território e a composição e as contradições internas da coalizão rentista neoextrativista.


Em relação à primeira questão, o autor afirmou que a categoria de “Estado dependente neoliberal” não foi utilizada em sua tese. Ainda assim, considerou que a noção de seletividade espacial poderia oferecer uma chave importante para compreender a especificidade do reescalonamento do Estado na periferia do capitalismo. Em sua interpretação, o Estado não atua de maneira homogênea sobre o território, mas seleciona determinados espaços, infraestruturas e atividades como objetos prioritários de sua intervenção. No contexto dependente, essa seletividade estaria cada vez mais relacionada à conexão de parcelas estratégicas do território aos circuitos de valorização do capital. O Estado, portanto, não deixa de atuar sobre o território, mas o faz de maneira cada vez mais seletiva, direcionando recursos, infraestruturas e capacidades institucionais para determinados projetos e áreas considerados estratégicos.


Ainda a esse respeito, o autor ressaltou o que chama de “violência das finanças”. Quer dizer, o elemento novo não estaria apenas na capacidade do capital de deslocar investimentos entre diferentes atividades e territórios, mas na possibilidade de submeter essas escolhas a modelos, métricas e cálculos capazes de comparar diferentes alternativas espaciais e projetar suas possibilidades futuras de rentabilidade. Essa racionalidade permitiria, inclusive, abandonar infraestruturas e arranjos territoriais anteriormente consolidados quando novas localizações e novas rotas se mostrassem mais promissoras do ponto de vista da valorização do capital. A reestruturação espacial aparece, assim, como um processo de seleção permanente de territórios e infraestruturas, no qual determinados espaços são valorizados enquanto outros podem ser progressivamente desativados ou relegados a uma posição secundária.


Essa discussão levou o autor a destacar também a vulnerabilidade decorrente da inserção dependente do território brasileiro nos circuitos internacionais de commodities. Em sua perspectiva, a expansão da agricultura corporativa e das infraestruturas voltadas à exportação cria novas formas de dependência em relação à demanda, aos preços e às decisões geopolíticas tomadas fora do território nacional. Yassu ressaltou, por exemplo, a vulnerabilidade nacional diante dos possíveis efeitos de uma alteração significativa das condições de demanda por commodities agrícolas, particularmente no mercado chinês. Isto é, territórios que foram profundamente transformados para atender a determinados circuitos de exportação podem tornar-se particularmente vulneráveis caso as condições que sustentam esses circuitos se alterem.


Ao responder à questão sobre o que haveria de efetivamente novo na atual expansão das fronteiras agrícolas, o autor identificou como elemento central o que chamou de “projeto intelectual das finanças”, isto é, sua capacidade de quantificar, modelar e abstrair diferentes dimensões da realidade territorial. Para ele, as finanças contemporâneas não dependem apenas da ocupação física prévia dos territórios para orientar seus investimentos. Por meio de modelos, projeções e bases de dados, é possível produzir expectativas sobre produtividade, fluxos, custos e retornos futuros antes mesmo da transformação material de determinados espaços. A natureza e o território são, desse modo, incorporados aos cálculos financeiros como variáveis capazes de produzir determinados fluxos de renda, enquanto suas dimensões sociais, ecológicas e culturais tendem a desaparecer das próprias formas de representação utilizadas pelos modelos. A novidade estaria, portanto, menos na existência de novas fronteiras em si do que na capacidade de antecipá-las, mensurá-las e convertê-las em oportunidades futuras de valorização.


Na resposta à questão relativa à coalizão rentista neoextrativista, Yassu estabeleceu uma distinção importante entre as categorias de “arranjos” e “coalizões”. Os arranjos que haviam sido analisados em sua pesquisa anterior sobre Cajamar remetiam a articulações entre diferentes agentes em torno de interesses espaciais mais delimitados. Na tese, a noção de coalizão procurava apreender uma articulação mais ampla e duradoura entre diferentes frações do capital, reunidas em torno da produção e exploração de determinados ativos e infraestruturas. A dimensão financeira assumiria, nesse processo, uma importância particular, ao possibilitar que diferentes interesses fossem articulados por meio de instrumentos contratuais, societários e financeiros.


Nesse ponto, o autor recorreu, ainda, à comparação com a ideia de “Sagrada Aliança”, classicamente formulada por Carlos Lessa e Sulamis Dain (1982), para caracterizar determinadas articulações entre frações da burguesia brasileira. Segundo sua interpretação, haveria uma diferença importante entre aquela forma de aliança e as modalidades contemporâneas de articulação. No contexto atual, contratos, títulos, concessões, fundos de investimento, debêntures e diferentes instrumentos de financiamento permitiriam materializar de maneira mais formalizada as relações entre agentes que participam da produção e exploração das infraestruturas. As coalizões não indicariam, portanto, apenas convergências políticas ou alianças informais, mas podem se materializar em estruturas econômicas e jurídicas que vinculam diferentes agentes à exploração de rendas associadas a projetos específicos.


O autor ressaltou, entretanto, que essa convergência de interesses não elimina os conflitos entre as frações do capital. Ao contrário, a coalizão rentista neoextrativista estaria atravessada por disputas que se expressam, entre outras formas, naquilo que vem sendo denominado “guerra das rotas”. Segundo seu relato, nesse contexto, diferentes empresas e grupos econômicos disputam os caminhos de circulação das commodities justamente porque o controle de determinadas rotas, ferrovias, rodovias, portos e terminais pode representar vantagens econômicas e a apropriação de rendas. Assim, a existência de uma coalizão em torno da expansão do neoextrativismo não significaria a existência de interesses plenamente homogêneos entre seus integrantes.


O autor exemplificou essa dinâmica a partir das disputas em torno da Ferrogrão e de outras alternativas de escoamento da produção agrícola. De um lado, determinados agentes vinculados às infraestruturas já existentes teriam interesse na preservação das rotas e dos mercados que controlam. De outro, tradings e outros grupos interessados na redução de seus custos logísticos apoiariam novas alternativas de circulação. A disputa entre diferentes rotas expressaria, assim, uma dimensão importante das relações entre as frações do capital: elas podem convergir quanto à necessidade de expansão da infraestrutura e, simultaneamente, disputar intensamente a definição dos trajetos, dos ativos e das formas de apropriação das rendas geradas por essa expansão.


Essa disputa também envolveria os próprios produtores agrícolas. Yassu observou que esses agentes não necessariamente se identificam integralmente com os interesses das grandes tradings que participam da construção das novas rotas. Isso porque, embora dependam das infraestruturas e da redução dos custos de transporte, os produtores também se encontram subordinados às grandes empresas que controlam segmentos importantes da comercialização, do crédito e do fornecimento de insumos. Por isso, sua posição é ambígua: ao mesmo tempo que apoiam a expansão das infraestruturas logísticas, defendem a multiplicação de rotas concorrentes como forma de ampliar suas alternativas de escoamento e reduzir sua dependência em relação a determinados grupos empresariais.


Por fim, o autor corroborou a interpretação de que o desmonte e a flexibilização dos mecanismos de proteção ambiental constituem, eles próprios, engrenagens ativas dos processos de acumulação. Para ele, o caso da Ferrogrão e do Parque Nacional do Jamanxim permite evidenciar essa dimensão da atuação estatal. Segundo o autor, a suspensão inicial do projeto pelo Supremo Tribunal Federal (STF) havia colocado em questão a compatibilidade de seu traçado com os limites da unidade de conservação, criada justamente no contexto das políticas de proteção socioambiental associadas à expansão da BR-163. Porém, as iniciativas posteriores de alteração dos limites e do regime de proteção da área revelam, em sentido contrário, a capacidade do Estado de modificar as próprias condições jurídicas que regulam o território para viabilizar determinados projetos.


Observações adicionais


O debate suscitado pela apresentação e pelas questões dirigidas ao autor permitiu formular algumas observações adicionais que nos pareceram relevantes para o desenvolvimento das hipóteses mais gerais do projeto. Mais do que conclusões decorrentes diretamente da tese, trata-se de questões teórico-metodológicas que emergiram do confronto entre os argumentos apresentados e as problemáticas que vêm orientando nossa investigação sobre a reestruturação da ordem urbano-regional brasileira.


A primeira observação diz respeito à relação entre a “narrativa do Arco Norte” e aquilo que Denise Elias denomina “agronegócio como fábula”. Em nossa opinião, parece haver uma correspondência importante entre essas duas construções discursivas. Em ambos os casos, a expansão das atividades agroexportadoras e das infraestruturas que lhes dão suporte é apresentada como expressão de uma necessidade objetiva de modernização, eficiência e competitividade. No caso do Arco Norte, o argumento da eficiência logística e da suposta inevitabilidade da transferência dos fluxos para o Norte contribui para conferir aparência técnica e inexorável a escolhas que são, na realidade, objeto de disputas e decisões políticas. Estamos diante, portanto, de mecanismos da psicosfera que abrem caminho para conferir legitimidade à substituição de formas tradicionais de uso e apropriação do território por usos orientados à produção e circulação de commodities.


Nossa segunda observação se refere à emergência de um “planejamento do capital”, em substituição ao “planejamento feito para o capital”. Quer dizer, a capacidade de formular projetos e definir antecipadamente determinados usos do território desloca-se, em parte, para os próprios agentes interessados em sua valorização. Cabendo notar que os mecanismos decisórios apresentados como técnicos e “pós-políticos” contribuem, nesse processo, para reduzir a visibilidade dos conflitos e das escolhas políticas que estão na base da reorganização do espaço.

A terceira observação gira em torno da questão do bloco no poder. Para nós, a discussão sobre a diferença entre “arranjos” e “coalizões”, bem como a comparação com a “Sagrada Aliança”, de Lessa e Dain (1982), sugerem, de fato, que as articulações entre as diferentes frações do capital assumem, hoje, formas que não podem ser compreendidas apenas como alianças políticas informais. Como defendido por Yassu, contratos societários, concessões, debêntures, fundos de investimento e parcerias de longo prazo criam vínculos econômicos e jurídicos mais complexos, que articulam diferentes agentes em torno da exploração de determinados projetos. Em nossa opinião, isso torna particularmente importante investigar como esses novos tipos de compromisso condicionam a autonomia relativa de cada um dos agentes que participam das coalizões interessadas na expansão das operações rentistas-neoextrativistas.


Por fim, a quarta observação remete à possibilidade de interpretar os resultados da tese de Yassu à luz da discussão de Neil Brenner (2019) sobre a urbanização planetária e as paisagens operacionais. Do nosso ponto de vista, o Arco Norte e, particularmente, o corredor logístico do Tapajós permitem questionar a ideia de que essas infraestruturas atravessam “espaços exteriores” à urbanização. Ao contrário, elas podem ser compreendidas como extensas paisagens operacionais, isto é, espaços produzidos e reorganizados para assegurar o funcionamento de circuitos produtivos e logísticos que ultrapassam suas fronteiras imediatas. Nessa perspectiva, a urbanização não se restringe às áreas densamente ocupadas ou às aglomerações urbanas, mas envolve também a produção de territórios destinados a sustentar processos de extração, produção e circulação do valor que se articulam em diferentes escalas.


Ao mesmo tempo, esse processo favorece a constituição de enclaves ou “ilhas de competitividade”. Trata-se de espaços intensamente conectados aos circuitos internacionais de valorização do capital, mas relativamente desarticulados das necessidades de reprodução social dos territórios em que se inserem. Produzem-se, assim, espaços altamente funcionais à circulação e à valorização do capital, mas cuja organização responde cada vez menos às necessidades sociais das populações que os habitam. A urbanização daí resultante parece, portanto, afastar-se progressivamente de uma lógica orientada pela reprodução social, aprofundando uma das contradições estruturais da condição dependente: a crescente desconexão entre a expansão do capitalismo e a satisfação das necessidades da população.


Sínteses complementares entre a pesquisa do autor, as hipóteses e os eixos analíticos do projeto


Por último, como temos feito até aqui, a presente seção reúne sínteses complementares entre os argumentos desenvolvidos por Alexandre Yassu e as hipóteses que orientam o projeto. Cabe reiterar que não se trata de subordinar a pesquisa apresentada a um esquema rígido, mas de registrar, a partir da exposição e do debate, possíveis aproximações e desdobramentos.


Eixos analíticos

Sínteses e/ou desdobramentos possíveis

Urbanização planetária e/ou extensiva

A pesquisa oferece elementos particularmente importantes para pensar a urbanização para além dos espaços tradicionalmente reconhecidos como urbanos. A expansão do neoextrativismo e a constituição de novos corredores logísticos envolvem a produção de infraestruturas, redes e territórios funcionais à circulação e à valorização do capital em escalas que ultrapassam as fronteiras das cidades e das regiões imediatamente envolvidas. O Arco Norte e o corredor logístico do Tapajós podem, nesse sentido, ser interpretados como componentes de uma urbanização extensiva, na medida em que articulam áreas agrícolas, florestais, rodovias, ferrovias, portos e terminais a circuitos nacionais e internacionais de produção e circulação de mercadorias. A noção de paisagens operacionais permite aprofundar essa interpretação, evidenciando como espaços aparentemente exteriores à urbanização são progressivamente reorganizados para assegurar o funcionamento de circuitos mais amplos de reprodução do capital.

Homogeneização e diferenciação do território

A exposição permite aprofundar a hipótese de que a expansão dos circuitos mais dinâmicos do capital produz simultaneamente tendências de homogeneização e processos de diferenciação territorial. A difusão de uma racionalidade logística e financeira tende a submeter diferentes territórios a critérios relativamente homogêneos de eficiência, competitividade e rentabilidade. Entretanto, sua realização concreta produz configurações profundamente diferenciadas, uma vez que cada território é incorporado de acordo com suas condições específicas.

Urbanização subdesenvolvida

Como visto, a expansão de infraestruturas e atividades altamente integradas aos circuitos internacionais de valorização não implica, necessariamente, a melhoria das condições sociais de reprodução nos territórios envolvidos. Ao contrário, a agricultura corporativa e os grandes projetos logísticos podem combinar elevada intensidade de capital, automação e reduzida capacidade de geração de empregos com fortes processos de mobilidade populacional, precarização e pressão sobre os serviços e equipamentos urbanos. A modernização dos circuitos produtivos convive, desse modo, com formas desiguais de apropriação do território e de reprodução social, reforçando a necessidade de compreender a urbanização dependente a partir da coexistência entre espaços altamente modernizados e condições sociais precárias.

Fragmentação do território

A fragmentação constitui uma das contribuições mais evidentes da pesquisa para as hipóteses do projeto. A constituição do Arco Norte como projeto nacional da coalizão rentista neoextrativista não corresponde à integração homogênea do território, mas à seleção de determinados espaços e corredores considerados estratégicos para a circulação de commodities. A própria lógica dos projetos de infraestrutura tende a produzir enclaves ou “ilhas de competitividade”, intensamente conectados aos circuitos internacionais de valorização e relativamente desarticulados das necessidades de reprodução social dos territórios em que se inserem. Além disso, os conflitos entre diferentes agentes e frações do capital em torno das rotas, concessões e projetos revelam que a fragmentação também resulta da disputa pela definição dos espaços que serão integrados prioritariamente.

Desconcentração/reconcentração urbana

A pesquisa permite reinterpretar a relação entre desconcentração e reconcentração a partir da reorganização dos fluxos e das infraestruturas. De um lado, a expansão das fronteiras agrícolas e a construção de novos corredores logísticos deslocam atividades, investimentos e funções para áreas anteriormente menos integradas aos grandes circuitos nacionais e internacionais. De outro, esses investimentos não se distribuem de maneira homogênea, mas se concentram seletivamente nos pontos considerados estratégicos para a circulação das commodities, como terminais portuários, entroncamentos rodoviários e ferroviários e cidades situadas ao longo dos corredores. O movimento de desconcentração espacial da produção é, portanto, acompanhado por processos de reconcentração seletiva das infraestruturas, dos investimentos e das funções logísticas.

Conexão entre a precariedade do trabalho e a precariedade da vida urbana

A pesquisa oferece uma entrada complementar para compreender a relação entre as transformações da estrutura produtiva e as condições de reprodução social. A expansão do neoextrativismo ocorre em atividades marcadas por elevada intensidade de capital, automação e reduzida absorção de força de trabalho, ao mesmo tempo que mobiliza fluxos populacionais e produz novas demandas territoriais. A distância entre a localização das atividades produtivas, os espaços de moradia e os circuitos de reprodução social pode, nesse sentido, contribuir para a produção de formas específicas de precariedade urbana. Para os propósitos do projeto, importa explorar em que medida a nova especialização produtiva e logística, ao reorganizar as relações entre trabalho, território e circulação, produz novas modalidades de articulação entre precariedade laboral e precariedade da vida urbana.

Promoção estatal do novo padrão de reprodução do capital

A pesquisa mostra como a transformação das formas de planejamento e provisão de infraestrutura desloca progressivamente a ação estatal para a constituição de portfólios de projetos capazes de atrair investidores privados e para a utilização de métricas técnico-logísticas e financeiras na definição das prioridades territoriais. A emergência de uma “racionalidade tecnocrática rentista e logística” permite compreender como decisões aparentemente técnicas e pós-políticas orientam a seleção dos espaços e projetos considerados viáveis. O Estado, portanto, não desaparece diante da expansão do capital privado e financeiro. Ao contrário, reorganiza suas formas de intervenção e mobiliza o fundo público, as infraestruturas e os instrumentos de planejamento para criar condições favoráveis à reprodução do capital.


Referências

 

BRENNER, Neil. New urban spaces: urban theory and the scale question. New York: Oxford University Press, 2019.


CALDEIRA, Valquíria Cardoso; LOPES, Elisangela Pereira; GASQUES, José Garcia. Infraestrutura logística do Arco Norte: características, gargalos e propostas. In: VIEIRA FILHO, José Eustáquio Ribeiro; GASQUES, José Garcia (org.). Agropecuária brasileira: evolução, resiliência e oportunidades. Rio de Janeiro: Ipea, 2023.


HARVEY, David. Os limites do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.


LESSA, Carlos; DAIN, Sulamis. Capitalismo associado: algumas referências para o tema Estado e desenvolvimento. In: BELLUZZO, Luiz Gonzaga de Mello; COUTINHO, Renan (org.). Desenvolvimento capitalista no Brasil: ensaios sobre a crise. São Paulo: Brasiliense, 1982.


MINISTÉRIO DOS TRANSPORTES, PORTOS E AVIAÇÃO CIVIL. Corredores Logísticos Estratégicos. Volume – Complexo de Soja e milho. Brasília: Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil, 2017.





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Elaboração: El Homo Urbanus.

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